Biobay – o melhor passeio que você não vai fotografar

por: Lucia Malla América Latina, Animais, EUA, Fotografia, Ilhas, Porto Rico

Assim que comecei a ler sobre Porto Rico, um passeio em Fajardo logo chamou minha atenção: o passeio em um Biobay, uma das baías próximas à praia com bioluminescência natural e sem dúvida a atração biológica mais curiosa da ilha.

Por que o biobay é bioluminescente?

Pyrodinium bahamense - microrganismo visto durante o passeio em um biobay - Fajardo - Porto Rico
Pyrodinium bahamense, o dono da festa. (Imagem de microscopia tirada da MicrobeWiki.)

A bioluminescência natural é fruto da presença em quantidades enormes na água de uma espécie de protista, a Pyrodinium bahamense, um dinoflagelado unicelular fotossintético de tamanho microscópico (30-60 µm), e um dos componentes do que chamamos de maneira bem generalizada de fitoplâncton. A capacidade de emitir luz deste dinoflagelado vem de uma reação química dentro da célula, quando a molécula de luciferina que o organismo possui é oxidada em resposta a um estímulo mecânico, como por exemplo… a sua mão batendo na água. 😀

Os dinoflagelados dessa espécie não estão restritos a Porto Rico, e podem ser encontrados por todo o mundo, principalmente no hemisfério norte. Há, por exemplo, um biobay famoso na Jamaica também.

Mas o que faz a diferença em Porto Rico é a concentração. Afinal, em Mosquito Bay, uma das biobays de lá, um trabalho científico mediu em média 27.300 dinoflagelados em cada litro de água [link em pdf], o que é pelo menos uma ordem de magnitude maior que o nível encontrado nas demais localidades pelo mundo.

Biobays de Porto Rico

Em Porto Rico, existem três biobays: uma em Fajardo, outra em Vieques e uma em Lajas. Das três, a considerada mais “iluminada” (ou seja, com maior concentração de dinoflagelados) é a de Vieques, Mosquito Bay. A menos interessante, a de Lajas. Se eu tivesse tempo de sobra em Porto Rico, com certeza eu visitaria as três, dado meu fascínio por passeios cheios de curiosidades biológicas.

Entretanto, só teria oportunidade de fazer o passeio em um biobay. De modo que, acoplado a um dia de mergulho, decidi visitar a de Fajardo, chamada Laguna Grande, e considerada de luminosidade “intermediária”. Porque Fajardo era, em termos práticos, mais perto para mim, que vinha de San Juan.

Mas, mesmo em Mosquito Bay, a bioluminescência é um fenômeno que você só consegue ver à noite, de preferência na lua nova, quando o céu está mais escuro. Porque a bioluminescência não é uma iluminação de holofote. É uma pequena “faísca” cintilante, beeeeeem fraquinha. E dura de 0.1-0.5 segundo – ou seja, super efêmera. É fundamental portanto que você veja no calendário qual a lua do dia em que for, para não se frustrar.


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O passeio em um biobay: Fajardo

Como arranjei o passeio em um Biobay meio de última hora (leia-se: no mesmo dia), então não tive muita alternativa a não ser ir com a empresa que tinha vaga. Mas vi que em Fajardo há diversas opções, inclusive uma empresa que oferece o passeio de barquinho elétrico.

Particularmente, optei pelo caiaque por quatro motivos:

  1. o mar ali é praticamente sem correnteza, e você rema a maior parte do tempo dentro de uma área de manguezal;
  2. no caiaque você pode colocar a mão na água quando quiser e quanto tempo quiser;
  3. de caiaque você pode curtir o fenômeno de bem mais perto;
  4. caiaque é (quase) sempre mais divertido. 😀

(Mesmo com criança, o trajeto é tão sossegado que eu não pensaria duas vezes em ir de caiaque. Vi diversas famílias se divertindo nos caiaques.)

O passeio começa depois que o sol se põe. Em geral são caiaques para duas pessoas. Eles colocam braceletes fluorescentes atrás de cada caiaque, para que em fila indiana você vá seguindo o caiaque da frente. A escuridão é absoluta durante o trajeto – a não ser pelo ocasional flash e/ou celular de alguém. No dia em que fui, o céu estava limpo, e a visão das milhões de estrelas é por si só um espetáculo à parte.

Depois de caiacar por uma meia hora (nosso grupo era lento), chegamos na baía. Mas, já pelo caminho, você começa a perceber a bioluminescência quando passa a mão na água. No começo, é difícil perceber, porque você vê as fotos que o pessoal marketeiro das empresas de turismo posta e acha que vai ver aquilo, né? Pois: NÃO. A impressão mais próxima da realidade é de que jogaram glitter prateado fininho na água toda, uma coisa meio discoteca, muuuuuuito legal. E você precisa movimentar a água pro fenômeno acontecer.

Dica: não perca tempo tentando fotografar

Felizmente antes de ir eu já havia lido que era super-difícil conseguir boas fotos do biobay sem auxílio do Photoshop. Principalmente sem poder entrar na água – há alguns anos proibiu-se nadar nos biobays de Porto Rico. E, como meu ritmo da viagem era férias e relax total, resolvi desencanar completamente de fotografar o fenômeno e preferi curti-lo ao máximo. Uma decisão mais que acertada, por sinal.

Entretanto, você vê muita gente perdendo o maior tempo tentando fotografar o fenômeno, e deixando de aproveitar o mesmo. Como é noite e você está na escuridão, a exposição da foto precisa ser super-longa (~ 16 segundos). Isto requer pelo menos um tripé – e num caiaque ou barco de tour organizado, digamos que mantê-lo estável começa a ser um problema. Além do mais, para iluminar um objeto ou pessoa na foto, você precisa de flash, cuja luz é infinitamente mais forte que da bioluminescência. Ou seja, a água aparece preta.

Então para 99.9999% dos visitantes que vão ali em um tour (eu inclusa), é impossível sair com uma foto decente. O máximo que se consegue são uns borrões no fundo preto. (O que não deixa de ser um pouco arte contemporânea meets biology, though…) Talvez num tour particular ao biobay, parando no manguezal e plantando um tripé embaixo d’água ou na margem, aí quem sabe dê pra fotografar… Não é impossível, mas requer muito mais tempo e planejamento do que eu teria para esta viagem. #planosfuturos

Fotografe na memória – para sempre

A falta de fotos reais não apaga, entretanto, as memórias excepcionais que tenho do passeio. A memória de sentir a temperatura morninha da água e o efeito-glitter aparecendo. De ver os peixes “glitterizados” nadando ao lado do caiaque quando a gente põe a mão na água. Ou então de ouvir os guias piadistas fazendo sons de DJ (tsunx-tsunx-tsá!), fingindo estarmos todos numa boate naturalmente iluminada. Ou ainda de acostumar os olhos à escuridão e ver um continuum do “glitter” da água com as estrelas no céu. Simplesmente INESQUECÍVEL.

Dada a raridade desta agregação bioluminescente num lugar de tão fácil acesso, eu diria que fazer o passeio em um biobay é a dica de passeio número 1 para quem visita Porto Rico. Não perca de jeito nenhum de visitar um biobay.

E deixe que só o brilho dos dinoflagelados dominem a night e ofusquem a sua visão. E o seu coração. 🙂

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