É dose!

por: Lucia Malla Antigos, Ciência, Molléculas da vida

Recentemente, li na excelente revista online Seed sobre a tentativa de envenenamento por dioxina do presidente ucraniano acontecida no ano passado. Após um longo período internado, o presidente se recuperou, mas em seu rosto ainda estão as marcas do envenenamento: a pele toda cheia de erupções de cor estranha. No caso dele, o que o salvou foi a pouca quantidade ingerida de veneno colocado em sua comida que, embora tenha sido 1000 vezes acima da dose aceitável, não foi letal. Um susto de dar calafrios a qualquer um.

Aí lembrei de outro fato. Há pouco tempo, foi divulgado um estudo com os níveis de mercúrio na comida americana. O estudo dizia também que tubarões são os maiores acumuladores de mercúrio do ecossistema. Embora felizmente isso reforce a idéia de que não se deveria jamais comer tubarões (para não se correr o risco desnecessário de intoxicação por mercúrio), eram outros peixes o alvo do estudo.

Nas duas notícias, entretanto, uma similaridade: a importância da dose. É a dose de mercúrio ou de dioxina que, num período de tempo curto, determina a morte ou não da pessoa. Mercúrio em excesso mata, dioxina mata também. Mas… até água em excesso teoricamente mata.

Dose para tudo

O conceito de dose parece muito nebuloso na cabeça das pessoas, e em minha opinião, não deveria ser. Basta ver o sucesso dos suplementos alimentares e vitamínicos para constatar isso.

Vendem-se, por exemplo, verdadeiras “bombas” com miligramas – e até gramas – de selênio por cápsula. Selênio é ótimo para a saúde, um agente anti-oxidante e regulador da função tiroideana. Mas é bom em doses de microgramas. 3 ordens de magnitude acima (miligramas), e você corre o risco de envelhecimento precoce ou de disfunção da tiróide. 6 ordens de magnitude acima (gramas), e você pode ir parar numa emergência de hospital.

E não é só o selênio: o mesmo fenômeno acontece com vitaminas, sais minerais, remédios, alimentação em geral, hábitos pessoais. Assume-se que como boa parte das pessoas está mal-nutrida em certo elemento (o que é verdade) que elas estariam também mal-nutridas nos demais. E haja complexo multi-vitamínico.

Para saber o quanto precisamos de cada molécula, os cientistas se esmeram em produzir sempre as chamadas “curvas dose-resposta”. Toda nova droga que entra no mercado advinda de pesquisa séria tem uma curva dessas por trás. A curva dose-resposta representa o valor em uma unidade qualquer de peso ótimo para a ação de um composto/alimento em um certo tempo. Indica o limite entre a dose segura, perigosa e letal. Em geral, as bulas vêm também com os riscos da ingestão excessiva, basta prestar atenção que está lá escrito em letras pequenas, mas claras.

O caso dos suplementos alimentares

Já no universo paralelo dos suplementos alimentares, onde em geral ingerem-se super-doses num piscar de olhos, acredita-se perigosamente na total eliminação do excesso pelo próprio organismo. Para alguns, isso é verdade – a vitamina C, por exemplo. Mesmo assim, com ressalvas. Porque dependendo da dose, o organismo não dá conta de metabolizar em tempo plausível. Para uma boa parte dos suplementos, entretanto, o excesso fica acumulado no organismo. E pode causar problemas, como acontece com a vitamina E.

É dose

Na dose certa.

Saber a dose adequada é um dos conhecimentos mais primordiais que lidamos no dia-a-dia> Apesar de tal importância, muitas pessoas parecem não se preocupar muito. Quando um estudo diz: “é importante comer alimento X uma vez por dia”, fica claro que não é necessariamente para ingerir X em todas as refeições, muito menos esquecer de comer. Uma vez é o suficiente para te nutrir adequadamente para aquele dia. Não é recomendado assumir nada para cima nem para baixo daquele valor fornecido.

O equilíbrio da dose, nesse caso (e como sempre…), é a chave para uma atitude sensata. E uma vida saudável.

Tudo de bom sempre.



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