Ilhas Marshall – o país detonado pela bomba

por: Lucia Malla Ilhas, Ilhas Marshall, Micronésia, Oceanos, Política

Há uns dias atrás, eu recebi por email um texto retirado desse site. O texto contava sobre a política que o governo dos EUA aplicaram nas Ilhas Marshall, um grupo de atóis minúsculos no meio do Pacífico. Difícil imaginar que no meio de um “paraíso tropical” daqueles tantos problemas brotaram dessa forma.

(Só pra lembrar: atol = topo de uma cadeia vulcânica submersa no oceano.)

Ilhas Marshall

Vista aérea de parte do atol de Rongelap, onde as cinzas da bomba atômica caíram.

 

Majuro - Ilhas Marshall - casas

Habitação típica das enormes famílias de Majuro: containers.

Onde ficam as Ilhas Marshall?

As Ilhas Marshall são um país desconhecido para a maioria dos mortais do planeta. Em plena zona equatorial, a altitude máxima do conjunto de atóis é de 3 metros. Isso mesmo, meros 3 metros. Será o primeiro país a desaparecer com o degelo das calotas polares e a consquente elevação dos mares.

Em um espaço de 70 km quadrados, espremem-se 60,000 pessoas. A maioria delas está no atol-capital, Majuro. O país é dotado de praias de areia branca e recifes de corais de biodiversidade estonteante, além de ilhotas remotas e coqueiros mil. Está em plena Micronésia. Estas características por si só transformariam o país num excelente destino turístico de milionários, como é Fiji, o Taiti ou as Maldivas. Mas não é bem assim, graças ao tio Sam. Eu explico.

A história de Bikini

Na década de 50, em plena guerra fria, os EUA projetavam suas bombas atômicas contra os comunistas da vez. Para testar a eficiência de tal armamento, “decidiram” (entenda-se como quiser a forma como essa decisão foi feita) realizar os testes no atol de Bikini. (Bikini é o atol mesmo que deu nome à peça mais aclamada do vestuário das brasileiras.)

Bikini fica ao norte do país, e sua população lá vivia tranquilamente, em situação de subsistência. Pescavam em quantidades normais sem destruição do ambiente. Os americanos, por razões estratégicas, (“defenderem as ilhas Marshall contra os japoneses invasores”) fizeram uma base militar no atol de Kwajalein, maior atol do país. E de lá começaram a arquitetar os testes em Bikini. Afinal, este era um lugar remoto dos demais lugares do planeta, onde provavelmente ninguém reclamaria de tal evento bombástico.

Parênteses

O atol de Kwajalein é todo ele uma base americana. Ainda hoje, testes de escudos antimísseis são realizados em “Kwaji” – como é carinhosamente chamado pelos militares de plantão. Lá, americanos vivem como em uma cidade nos EUA, com todo o conforto possível. Os marshalheses que lá viviam anteriormente foram praticamente expulsos, e hoje habitam um atol minúsculo vizinho, onde se amontoam em casebres menores ainda, sem perspectiva de vida, e trabalham em sua maioria, na base, como subempregados dos americanos. Fim do parênteses.

 

Duas bombas atômicas foram detonadas em Bikini na década de 50. Devido aos ventos reinantes no momento da explosão, as cinzas de uma delas caíram todas sobre o vizinho atol de Rongelap. Este atol, por sua vez, também teve que ser evacuado a posteriori. Isto porque a população local foi drasticamente afetada com altos índices de câncer de tiróide, efeito da radiação da bomba.

E todas essas pessoas, nativas do local, que lá estavam sendo bombardeadas por radiação foram transferidas para o atol-capital, Majuro. Aliás, a maioria se encontra em Majuro até hoje.

De repente, todos tiveram que ir morar em Majuro.

Atol de Majuro - Ilhas Marshall

Vista aérea de um resquício limpo do atol de Majuro.

Lixo em Majuro - Ilhas Marshall

O lixo que é jogado no lago central do atol de Majuro, dentro do recife de coral, sem dó nem piedade.

A complicada política americana de ajuda às Ilhas Marshall

Pois bem, imagine um atol de 30 milhas de extensão e menos de 100 m de largura. Ou seja, uma tripa de país, primordialmente. Isso é Majuro.

E lixo é o que se vê por toda parte, fruto da política americana pós-Bikini.

Os EUA mandaram (e ainda mandam) substanciais quantias de dinheiro para o povo marshalhês. Este dinheiro serve como forma de “perdão” (?) pelo que foi feito com seus atóis durante os testes atômicos e de compensar pela realocação das pessoas de um atol para outro.  Aliás, este “pagamento” hoje já se estende à presença de uma base militar, ao uso do atol como depósito, etc.

E o povo marshalhês, por sua vez, cheio de dindin no bolso e sem aconselhamento adequado, foi devorado pelo capitalismo selvagem americano. Começaram então a comprar e consumir de tudo, gerando lixo em quantidades alucinadas.

E onde jogar todo esse lixo?

Bem, num país minúsculo, sobra pouco espaço. Portanto, o lago central do atol foi a opção mais lógica. Transformaram uma área de recifes de corais pristinos em lixão. E hoje ainda recebem também lixo urbano americano. Isto ocorre devido a um acordo assinado com os EUA, o maior parceiro de “comércio” dos marshalheses. Tudo por dinheiro, já dizia o Sílvio Santos.

Degradação ambiental gerada pela presença em massa do lixo. Desestruturação do seu modo de vida anterior. Super-população numa área tão restrita, boa parte resultado também da forte presença mórmon impedindo uso de métodos contraceptivos para as mulheres. Além da fácil entrada de renda americana.

Sem esperança no futuro

Estes fatores todos somados tornaram os marshalheses um povo sem perspectiva, sem visão de futuro, cheio de filhos sem empregos e educação decente. Índices de suicídio que em nada lembram os de um país nos trópicos, dito paradisíaco. Afinal, não há recursos de sobrevivência para todos. Portanto, a solução “rápida” é fazer mais filhos para aumentar a possibilidade de angariar mão-de-obra para mais caça a recursos. Como já me foi dito por uma pesquisadora italiana que lá trabalha, se você der três galinhas e um galo para os marshalheses, eles terão comida para uma semana. Ninguém vai pensar em a partir dessas galinhas, guardar os ovos para ter mais galinhas no futuro, reproduzi-las, comercializá-las ou coisa que o valha. Vão simplesmente matar e comer. Porque foram acostumados assim, era isso que faziam com os peixes coletados em seus atóis em situação sustentada no passado.

E estenderam essa “regrinha de vivência” para a era pós-Bikini, com a população aglomerada em casas de caixote. Estão quase sem esperança de viver e não sabem disso. Mas a que isso nos interessa, não é mesmo? “Apenas” mais uma cultura indígena destruída nesse mundão, nada de mais. #IroniaModeOn

E o que mais impressiona é que a fauna marinha também luta por sua sobrevivência ali, no monte de lixo. Mesmo nessas condições, muitas vezes ainda vence – aos trancos e barrancos.

Marshalhesa

Será que essa criança sabe o futuro (ou da falta de) que a aguarda?

Marshalhês

Acho que não… 🙁

Esse é, enfim, o relato de uma experiência americana que não deu muito certo.

Tudo de bom quase sempre.

P.S.

  • De acordo com estudos recentes, os índices de radiação em Rongelap são menores que em Nova Iorque.
  • As Ilhas Marshall são o único país do planeta onde o limite de águas internacionais é de apenas 5 milhas. Em geral, até 200 milhas a partir do litoral é considerado território de um país, mas lá o limite é bem menor. Isso permite que embarcações de diversas bandeiras (asiáticas principalmente) pesquem à vontade e depletem na maioria das vezes os recifes de corais da região.
  • Um grupo de pesquisadores de diversos países luta pelo estabelecimento de alguns desses atóis como área de proteção ambiental. Correndo contra o relógio para salvar o ecossistema único do lugar, antes que o lixo tome conta de tudo.

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