O laboratório Nauru

por: Lucia Malla Ciência, Diabetes, Economia, Ilhas, Micronésia

Era uma vez… uma ilhota não tão paradisíaca no Pacífico sul chamada Nauru.

Laboratório Nauru

Bandeira de Nauru.

21 km quadrados. No passado, seus habitantes (como bons polinésios e micronésios) eram grandes navegadores: cruzavam o oceano à bordo de seus barquinhos frágeis. Muitos morriam na jornada, de fome, inanição. Os poucos sobreviventes, ao voltar para a ilha, eram tratados como reis: heróis na comunidade, ganhavam todo tipo de regalia. Engordavam com toda a fartura a eles oferecida, e ser muito gordo era o esteticamente belo. Até a próxima jornada ao mar, quando retornavam ao sofrimento e inanição. Tudo em nome da descoberta de novos vizinhos naquele oceano infinito. Aos que viviam em terra, sobrava pesca e agricultura de subsistência.

E assim viveram por muitos séculos.

A exploração de Nauru

Até que os europeus encontraram Nauru em 1830, e logo os alemães tomaram conta, sendo seguidos pelos australianos. No início do século XX, descobriu-se que a ilhota possuía uma reserva inacreditável de fosfato de alta qualidade, usado como fertilizante na então emergente agricultura industrial. As Guerras Mundiais vieram, exploração do Pacífico, até a independência do país em 1968.

Aí é que começa o caráter experimental, laboratorial, do lugar. A exploração do fosfato, antes sendo feita pelos britânicos, foi logo repassada para os nauruanos. Estes começaram a ganhar muito dinheiro com a venda do mineral pelo mundo afora. Sim, a ilha era toda uma grande reserva de fosfato. Minas se proliferaram no local e logo os nauruanos passaram a ser um povo muito rico. Tão ricos que chegaram a constar na lista de maior renda per capita do planeta por certo período na década de 70! O óbvio: quem tem muito dinheiro, investe e não trabalha mais, certo? Pois foi exatamente isso que eles fizeram.

Nauru way of life

Como cada nauruano era um rico de verdade – o país passou a ser administrado como uma grande empresa -, com acesso à fartura que só o american way of life consegue difundir tão fortemente, os nauruanos passaram a viver como marajás. Não trabalhavam (contratavam trabalhadores de outras ilhas para a exploração de fosfato), compraram imóveis pelo mundo e viviam do aluguel desses lugares (um prédio inteiro no centro de Honolulu, por exemplo pertencia a Nauru, que alugava seus escritórios), comiam do bom e do melhor junk food pronto (claro, ninguém quer ter o trabalho nem de cozinhar, né?), e não mais se exercitavam, como na época em que navegavam, remavam pelo Pacífico. De tal forma que esse ciclo gerou o que na biomedicina virou uma história clássica: Nauru tem uma epidemia de obesidade e diabetes tipo 2.

Nauru e o diabetes

Epidemias geralmente são causadas por agentes infecciosos: vírus, bactérias, protozoários e afins. Diabetes tipo 2 não é doença infecciosa. É uma patologia que reflete o estilo de vida associada à presença de genes suscetíveis. E isso tornou Nauru um laboratório em tempo real para vários estudos genéticos pela característica única da epidemia.

Até hoje, os maiores índices de diabetes tipo 2 estão lá: cerca de dois terços da população economicamente ativa! Acredita-se que o estilo de vida dos nauruanos do passado selecionaram genes ao longo do tempo que permitissem a manutenção máxima de energia em seus corpos: claro, eles viajavam muito e passavam longos períodos com fome. Quando a comida passou a ser farta e de alto valor calórico, esses genes não entenderam a mensagem: continuaram guardando, estocando toda a energia no corpo dos nauruanos.

Nauru de fato pós-fosfato

Mas fosfato é recurso natural não-renovável. E um dia, o fosfato de Nauru acabou. (Esse dia em tese será em 2006, mas já há pouquíssima exploração: não sobrou nada). A população, obesa e diabética, com uma expectativa de vida das menores do mundo, deparou-se então com um país cujo solo não se podia plantar mais. Estava destruído pelas minas. Não se produzia mais nada, dependendo de serviços e alimentos estrangeiros, e com um dos maiores crimes ecológicos de que a história tem notícia. Ah! E sem perspectivas de turismo, pois de acordo com a opinião geral, é um lugar feio, sem nenhum atrativo que justifique a um turista médio se deslocar tão longe para passeio – lembre-se que 90% do solo foi fuçado e remexido, virou terreno morto.

A destruição de uma ilha pela voracidade da exploração humana.

Na década de 90, após vender várias das propriedades do país no exterior na tentativa de manter o estilo de vida da população, ainda tentou um último suspiro econômico que não quebrasse todo esse ciclo vicioso. Transformou-se num paraíso fiscal. Entretanto, logo grande parte do dinheiro da máfia russa passou a circular por lá. E Nauru, dependente de comida estrangeira, foi pressionada a acabar com a lavagem de dinheiro.

Hoje Nauru, um mercado consumidor sem capital, endividado pelos vários empréstimos, está em falência total. Declarou estado de emergência em 2004. E dependerá agora da benevolência da ONU ou sabe-se lá de quem para sobreviver decentemente. Isso se o nível dos oceanos não subir antes, é claro. Nesse caso, Nauru será um dos primeiros países a desaparecer da Terra.

Os nauruanos não viveram felizes para sempre, como o conto de fadas deles imaginava.

Nem sempre tudo de bom.

Viajando na maionese em Nauru…

  • Será que se a gente trocar o fosfato pelo petróleo, podemos utopizar que vivemos num macro-Nauru? Em que estágio estaremos, nesse caso?
  • Veja um mapa de Nauru aqui. – Se você procurar pela culinária nauruana… sente e chore. A comida típica deles é MacDonald’s.
  • Poucos diabetólogos estudam profundamente a população nauruana, na tentativa de encontrar genes que estejam ligados à predisposição de diabetes tipo 2. Algumas dessas pesquisas já renderam bons frutos, auxiliando indiretamente o desenvolvimento de melhores drogas ou tratamentos. Ou pelo menos aumentando o nosso conhecimento sobre a patologia que rouba 100 bilhões de dólares anuais do orçamento nos EUA.
  • Pau que nasce torto… Nauru agora quer escavar o fundo do mar. Pois é. 🙁


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