Devore Seul

por: Lucia Malla Ásia, Coréia do Sul, Economia

Prometi escrever sobre Seul há uns dias, e eis que enfim a promessa hoje será cumprida. Por morar aqui, há por conseguinte mais aspectos a serem abordados do que sonha nossa vã filosofia. Falar de tudo é praticamente impossível, por isso vou-me ater a algumas considerações.

Coréia: modelo econômico de sucesso?

Mas antes de falar de Seul, repetirei um comentário que fiz no blog Smart Shade of Blue. Discutindo modelos econômicos de sucesso, alguém comparou a Coréia do Sul com o Brasil.

“Na minha opinião de moradora local: o sucesso da Coréia como Tigre Asiático representa a vitória da economia de grandes corporações. O país é praticamente regido/governado por 5 grandes corporações, que empregam uma parcela considerável da população economicamente ativa: LG, Hyundai, Samsung, SK Telecom e Posco. Se isso é sustentável a longo-prazo ou que razões fizeram com que as corporações fossem a “temática” escolhida do governo para o desenvolvimento sócio-econômico (…) Aí, enfim, já não sei dizer.”

“(…) é difícil comparar Coréia e Brasil em termos de projetos de desenvolvimento. Porque vai-se esbarrar na filosofia oriental de viver. Os coreanos são mais preocupados com coletividade que com individualismo, com tradição e manutenção do bem-estar do todo que a efemeridade do eu. Isso percebemos no dia-a-dia, em atitudes simples como pegar o metrô ou crianças voltando da escola. Eles largam qualquer individualismo pelo bem da coletividade. Coisa que, enfim, acho difícil de vislumbrar no Brasil.”

O Smart respondeu:

“(…) A Coréia escolheu o caminho que, em economia do desenvolvimento, chamamos “campeões nacionais”. Um dos problemas do Brasil é que nosso modelo de desenvolvimento _ o de substituição de importações _ jamais gerou a escala necessária para criar grandes corporações. Das empresas brasileiras, só a Petrobrás e talvez a Vale apareçam nas listas das maiores empresas do mundo. Na Coréia, no Japão e na China de hoje, a aposta no mercado exportador permitiu acumulação de capital maior. Resultado: nossas empresas são nanicas. Costumam mais ser alvo de compra por empresas estrangeiras do que embriões de multinacionais brasileiras. (…) Com a internacionalização o locus decisório das prioridades de investimento, afinal, se move para fora do País.”

O que essa conjuntura econômica tem a ver com Seul?

Tem bastante a ver. Sem entender essa perspectiva econômica da cidade e do país (e isso vale pra qualquer lugar do mundo), fica portanto difícil uma assimilação do enigma que Seul impõe. E Seul é um grande enigma da Esfinge para quem chega vindo de um país ocidental, seja lá qual for. A começar pela língua, que te dá a sensação de lost in translation. Passando logo após pela organização dos endereços, pelo comportamento das pessoas, pela cultura oriental.

Num primeiro momento, senti-me completamente perdida, decerto como nunca havia estado antes.

Devore Seul

Vista aérea de Seul. As montanhas ao fundo estão mais próximas à zona desmilitarizada. 

Prédio do Museu Nacional da Coréia.

“Decifra-me ou te devorarei”

SeulPercebendo essa sensação de perdida, tratei de me empenhar em decifrar aos poucos cada mistério da cidade. Tentando ao máximo ver a lógica coreana de decisões. O quanto o sucesso econômico influenciava neste ou naquele aspecto, qual a história por trás de um hábito ou de uma rua. O efeito da escolha pelas grandes corporações no subconsciente das pessoas ou na perspectiva de futuro. Hoje, enfim, sinto-me confortável andando por lá. Não a decifrei completamente, deixei-me devorar aos poucos.

Atualmente, não chego a me sentir turista em Seul. Mas também não sou local. Um meio-termo agradável, que me traz alguns benefícios e alguns prejuízos. Moro numa cidade-satélite, a cerca de 40 minutos de metrô do centro de Seul. Portanto frequento a cidade nos fins-de-semana ou quando algum evento especial aparece.

O metrô de Seul

Aliás, locomoção não é um grande problema por aqui, pois o sistema de metrô é excelente. Ele te leva para qualquer canto da cidade. São 10 linhas com inúmeras interseções. Em todas as estações há sinais em inglês, bastando apenas prestar atenção para os nomes similares de alguns lugares. Por exemplo, existe Sincheon e Sinchon (fala-se da mesma forma). Obviamente estas duas estações estão situadas em lados bem opostos. E ainda mais obviamente também algumas vezes já fui parar no lugar errado.

Seul moderna

Modernidade no World Trade Center Seoul e no centro da cidade.

Seul - coreano pintor

O contraste com as ruazinhas estreitas em Insadong, área de comércio tradicional, onde um artista de rua coreano nos remete à paciência típica oriental.

 

 


Pelas ruas de Seul

Uma vez nas ruas, Seul lembra qualquer outra metrópole. Prédios modernos, letreiros luminosos, muitas pessoas andando apressadas, trânsito pesado, um fog de poluição no ar e ruído. Além daquele estilo próprio que só uma grande urbe possui. Mas… Tem algo a mais. Tem esse mistério oriental, essa sensação de parado no tempo mas com o tempo acelerado.

Seul - Insadong

É um paradoxo, mas a cidade é composta de vários momentos de choque entre opostos. O novo e o velho, o moderno e o tradicional, o fácil e o difícil, o cheio e o vazio. Ruas estreitíssimas desembocam em avenidas largas. Em cada esquina uma dessas contradições maravilhosas, que dão mais sabor à tentativa de decifrar a cidade.

Não há endereço como no ocidente: rua tal, número X, bairro Y. Não, aqui o sistema é diferente, resquício afinal da época das dinastias. E muito mais confuso. Cada casa do bairro tem um número, e o endereço passa a ser bairro tal, número X. Só. Nada de nome de ruas nas calçadas. Um bairro, como sabemos, é formado por inúmeras ruas. Imagine então a confusão para achar um endereço.

Para dar pistas, a cidade possui mapas com referências em todas as estações de metrô. Pasmem, mas quando queremos achar um local, as pessoas dão dicas tipo: ao lado do prédio do MacDonald’s, após o muro do Palácio, etc. Sério. Em coreano faz mais sentido essa confusão. Entretanto, para um ocidental, pode se tornar impossível em inglês. Dependerá da sua persistência em decifrar a cidade. Ela já está, afinal, te devorando lentamente.

Seul te devora

Painel permanente no Museu de Arte Moderna de Seul.

Devore Seul

A tradição da troca da guarda no antigo Palácio Real de Gyeongbokgung.

Seul é cortada pelo rio Han, local de lazer e divertimento para a população. O rio é incrivelmente limpo. Há passeios turísticos de barco no verão e em suas margens está o imponente prédio do Parlamento. Além de um dos estádios olímpicos da cidade, e alguns prédios modernos como o 63, onde fica o cinema IMAX que adoro. A maior parte da cidade está ao norte do rio, indo em direção à Coréia do Norte. O palácio do Governo, um prédio estrategicamente escondido nas montanhas, está a poucos quilômetros da zona desmilitarizada (DMZ). Um esquema de segurança mais-que-especial guarda a área. Conforme regulamentação, fotos são terminantemente proibidas a quarteirões de distância.

Seul também hospedou as Olimpíadas em 1988. Foi também uma das cidades que hospedou a Copa do Mundo vencedora de 2002. Por causa disso, todas as placas de sinalização da cidade são bilíngues, embora a população fale um inglês sofrível em geral.

Cena de um ritual budista no centro de Seul.

Devore Seul

Detalhe arquitetônico do telhado de um palácio coreano tradicional – as cores definitivamente me impressionam nesse estilo.

Os bairros de Seul

Cada bairro de Seul tem uma característica peculiar e aqui cito primordialmente os que considero mais interessantes.

Insadong

É uma área bem turística, com cafés e lojinhas de artefatos tradicionais.

Gangnam

É a Quinta Avenida, onde as lojas de grife mais sofisticadas estão.

Yongsan

É um mega-shopping-feira de venda de produtos eletrônicos de primeira linha.

Itaewon

É a área dos gringos, onde os estrangeiros se encontram e onde a base militar americana está instalada.

Jongno-gu

Esta é a área administrativa, onde estão o palácio do Governo, as embaixadas de vários países e o antigo palácio real.

Apujeong

É o point chic-alternativo, onde os artistas estão. Além de em Apujeong, eles estão também concentrados na região de Jongno.

Namdaemun

É onde todas as ajumás se encontram para comprar o ginseng nosso de cada dia. Além de outras raízes, plantas medicinais e temperos esdrúxulos/exóticos, que enriquecem a culinária coreana. Aliás, se você tiver um dia em Seul apenas, não deixe de conhecer o Namdaemun. Porque lá está a essência da cultura coreana tradicional.

Os bairros são apenas nomes, eu sei. Mas dão uma leve idéia de como a cidade se divide. A cada esquina desses bairros, sempre aparecerá algo para te deixar com uma pulga atrás da orelha, um questionamento. Afinal, o que será que esse coreano está fazendo/ testando/ comendo/ pensando? Certamente, em todos esses locais, as pessoas estarão falando ao celular. Este artefato sem o qual, aliás, 100% da população coreana não vive. E como não há criminalidade alguma, as pessoas ficam por fim à vontade para usar seus eletrônicos em todos os cantos e recantos da cidade, sem medo.

Cena chavão no metrô: alguém com a central de jogos e diversões em mãos.

Um cartaz publicitário do novo livro do Paulo Coelho num ônibus em Seul.

E qual a característica marcante de Seul?

O que faria um turista vir a essa cidade?

Não há pergunta mais difícil que essa para mim. Hoje, depois de viver a cidade em vários âmbitos, tento vislumbrar a atração máxima – e não acho. Não há um Cristo Redentor, uma Torre Eiffel, um Coliseu. Existem alguns palácios interessantes, museus, jardins… Mas nada que seja um cartão-postal característico pro mundo, nada que venda a cidade num pacote de agência de viagens.

O charme da metrópole Seul está nesse mistério que paira no ar. Nesse momento perdido no espaço-tempo. Nas esquinas abarrotadas de gente. No comportamento dos coreanos. No não entender absolutamente nada do que se está falando ao seu redor. E isso tudo, só provando ou vivenciando para as pessoas conseguirem enfim entender.

Deixa a Esfinge Seul te devorar. Garanto que vale a pena.

Tudo de bom sempre.

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