Nos confins de Caixa-Prego

por: Lucia Malla Bahia, Brasil, Cotidiano, Mallices, Viagens

Quantos já ouviram alguém insultar outra pessoa mandando pra Caixa-Prego? Ou desprezar um lugar dizendo: “É pior que em Caixa-Prego…” Ou então afirmar que um lugar é muito loooonge dizendo: “Ih, é nos confins de Caixa-Prego…”

Boa parte das pessoas que falam assim provavelmente nunca estiveram em Caixa-Prego. Como é um lugar cujo nome soa “depreciativo”, associa-se Caixa-Prego à pobreza, sertão, seca, e todas as mazelas negativas de um povoado. Nada mais errado: Caixa-Prego fica na Bahia, mais especificamente na Ilha de Itaparica – essa mesma, a do resort chique. É a última cidade da pequena rodovia que você pega ao sair do ferry-boat que cruza de Salvador até lá. Tem um manguezal bem interessante, pelo menos aos meus olhos de bióloga. E tem praia. Não é paradisíaca de água cristalina, mas é praia (de mangue), e está valendo.

Cresci ouvindo minha vó contar histórias de Caixa-Prego. Meu avô viveu na próxima Nazaré das Farinhas, e vovó nessa época via Caixa-Prego como uma espécie de cidade-resort: era o destino de “férias na praia”. As lembranças de vovó e de minha mãe (criança na época) sempre me enchiam os ouvidos de curiosidade para esse lugar de nome tão engraçado. Afinal, o que se passava na cabeça de alguém para dar o nome de Caixa-Prego a uma cidade?

(Cidades pequenas em geral orgulham-se de singularidades interessantes. Pois Nazaré das Farinhas orgulha-se hoje de ser a terra do Vampeta.)

O tempo passou, e quase 2 anos atrás tive a oportunidade de visitar a Ilha de Itaparica. Tínhamos alugado um carro, e rodávamos pela Bahia, num calor escaldante de dezembro. Uma viagem “on-the-road”. Após alguns dias subaquaticamente desiludidos em Salvador, decidimos atravessar a Baía de Todos os Santos no ferry-boat. Fugíamos para Itaparica com o objetivo de chegar a alguma praia snorkelável. Ao sair do ferry, pegamos a rodovia e fomos. Fomos, fomos, fomos. A rodovia acabou, e de repente, eis que eu me via no lugar das memórias tão agradáveis de vovó: Caixa-Prego.

Parecia que as histórias de vovó estavam todas vivas ali, cristalizadas pelo tempo, que de certa forma não havia passado. A única alusão à modernidade que vi foram alguns equipamentos eletrônicos num bar: TV, vídeo, aparelho de som. E uma antena parabólica, no telhado de uma casa. A cidade ainda é pequena, minúscula. Era uma segunda-feira, aproximadamente 2 da tarde, e as pessoas estavam sentadas nas calçadas, proseando despretensiosamente. A maré estava baixa – e parece que Caixa-Prego vive em função da maré: é ela que traz o peixe, o marisco, o caranguejo, o barquinho cheio. Não precisamos andar muito para achar o portinho de onde os barcos de pesca saíam. E achar o mangue, de onde algumas pessoas informaram que saem tours. A área de Caixa-Prego é conhecida como “pantanal baiano”, um nome pomposo cuja única pretensão deve ser atiçar os curiosos para um manguezal ameaçado. A causa é válida, penso. O mangue de lá é peculiar.

Mangue de Caixa-Prego e suas árvores de raízes aéreas (como de qualquer mangue), maravilhas da adaptação. Além dos caranguejos pelo chão, é claro.

Estacionamos o carro e embrenhamo-nos no mangue. Todo mangue é único aos olhos dos biólogos, e o de Caixa-Prego não é diferente. Ficamos um tempo lá, fotografando e observando. As adaptações que as plantas de mangue desenvolvem ainda hoje, passadas as inúmeras aulas e cursos de campo, me tiram o fôlego, assim como a imensa quantidade de caranguejos que habitam esse ecossistema. Centenas e centenas deles, saindo e desaparecendo no lamaçal, em todas as cores, um verdadeiro chão vivo.

Mas a maré começou a subir, e tivemos que nos apressar para voltar ao portinho. Lá, um rapaz pintava sua canoa. Outros barcos de pesca, parados, esperando a hora certa de saírem para a pescaria – o povoado vive basicamente da pesca de subsistência. Esbarramos numa casa de telhado hilário: será que moraria ali um alucinado ou um curioso? Vários objetos feitos de maneira artesanal funcionavam como birutas coloridas. Exótico, no mínimo.

Barcos de pesca no portinho de Caixa-Prego, esperando pela subida da maré.

Andando de volta pro carro, um grupo de pescadores orgulhava-se de 3 lagostas enormes pescadas, esperançosos de que os forasteiros (nós) se interessassem em comprá-las. Exibiam os crustáceos na grama lateral da rua de terra de frente pro mangue. Trocamos meia-dúzia de palavras e continuamos andando.

Foi aí que eu vi a praça principal da cidade: a Praça do Pau Mole. Pequena, apenas uns bancos embaixo de uma árvore enorme. Homens jogavam baralho (ou seria dominó?), rindo, divertindo-se, deixando o tempo passar. Mas o tempo parado, parado. O tempo não passava!

Uma melancolia tomou conta de mim. A Caixa-Prego das memórias de vovó parecia mais viva… Talvez seja ainda a que eu via ali com meu olhos, do mesmo jeitinho que ela sorridentemente me contou quando criança. Caixa-Prego, assim como a lembrança da vovó, parou no tempo. Num tempo passado. Cristalizado.

A famosa desconhecida praça do Pau Mole, ponto de encontro das gerações que se cruzam por lá…

Quais serão as preocupações no dia-a-dia daquelas pessoas? E as perspectivas?

Saí de lá com a certeza de que havia finalmente visitado o passado dos meus antepassados.

Entendi o porquê do nome ter virado escárnio, sem ninguém precisar me explicar. Caixa-Prego fica nos confins do tempo. E o único meio de transporte até lá é um coração com saudade.

Tudo de bom sempre.

*Qual a grafia correta de Caixa-Prego? Não sei. Na página do governo da Bahia fazendo uma busca, aparecem duas formas: Caixa-Prego e Cacha Prego. Então eu deixo a vontade de vocês, para cada um decidir a que melhor lhe apetece.

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UPDATE: Na caixa de comentários desse post (quando o blog ainda era no blogspot), muitas pessoas comentaram sobre a existência de Caixa-Prego no Piauí. A expressão “ir pra Caixa-Prego” estaria referindo-se a essa cidade piauiense, não à cidade baiana. Como pesquisadora inata, fui pesquisar e procurei por algo no Google. O que achei:

– Existe um livro de ficção de Herberto Sales em que parte da estória se passa no vilarejo de Caixa-Prego, no Piauí. É uma obra de ficção. Esse vilarejo ainda existe? Não sei, nada no Google aparece por aquelas bandas.

– Não há município de Caixa-Prego listado no site do Governo do estado do Piauí, com nenhuma das grafias cabíveis – mas até aí, pode ser apenas uma cidade ou vilarejo. Só exclui a municipalidade nesse caso, não o status de existência. A Manu afirma que Caixa-Prego fica próximo a Picos, no Piauí. Picos existe. Eu acredito então na Manu.

– Há uma agência do Unibanco filial “Caixa-Prego”… no Paraná! Perto da região de Cascavel. Teríamos então 3 supostas Caixa-Pregos no Brasil!!

– Como só conheci a Caixa-Prego da Bahia, fiquei curiosa por fotos das demais. Quem as tiver, ou souber de um site, ou mais informações sobre essas outras Caixa-Prego, se não for incômodo, será que pode me enviar um email?

Desde já, fico grata aos meus amigos leitores por terem indiretamente me feito pesquisar e aprender mais! Viva a caixa de comentários! 🙂



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