Hilo – futuro incerto

por: Lucia Malla Big Island, Geociências, Havaí, Viagens

A viagem de fevereiro ao Havaí foi recheada de surpresas magníficas. Dentre elas, uma pequena e pitoresca: a cidade de Hilo, simpática com seus 40,000 habitantes, sem pretensões ou arroubos de grandeza. Talvez o passado não tão distante de agruras tenha deixado a cidade nessa atmosfera pacata. Hilo guarda na memória das ruas o sofrimento vivido.

Hilo, aos pés do vulcão Mauna Kea.

Hilo dos tsunamis

Hilo fica na costa leste da Big Island, a maior ilha do arquipélago havaiano. Foi devastada 2 vezes no século passado por tsunamis, um no dia 1º de abril de 1946 e outro em 23 de maio de 1960 – o do 1º de abril foi o mais trágico, pois foram ondas de 14m que quebraram na baía de Hilo e invadiram a cidade que, naquela época, tinha um pequeno quebra-mar (engolido pela força das ondas), mas não possuía sistema de alarme.

A tragédia desse tsunami, aliás, suscitou a criação em 1949 do primeiro sistema de alarmes para desasres naturais da história, as sirenes que usamos até hoje. Já em 1960, esse sistema de alarme ajudou a minimizar as mortes, mas ainda não impediu a destruição e o prejuízo econômico que o segundo tsunami trouxe.

Dos 2 tsunamis que passaram, apenas um prédio ficou de pé na beira da baía. Hoje abriga o Museu de Tsunami do Pacífico. Um prédio antigo e sem grandes belezas, mas com a marca da história nas paredes. Não tive a chance de entrar no museu, mas fiquei curiosa – embora já tenham me dito que as fotos expostas lá são muito tristes. E um alerta à vista de todos: o grande quebra-mar, que cerca a baía de Hilo, protegendo de eventos futuros.

Hilo - Museu do Tsunami

O prédio do Museu de Tsunami do Pacífico, sobrevivente cinzento de 2 tragédias.

Hilo - vista aérea do quebra-mar

Vista aérea da pequena Hilo e seu grande quebra-mar, agora bem reforçado.


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Rainbow Falls e as figueiras de Hilo

Na avenida da orla, alguns prédios e um incipiente comércio. Avançando um pouco mais pra dentro da cidade, uma das belezas naturais da cidade: a cachoeira do Arco-Íris (Rainbow Falls, em inglês). Uma bela queda d’água, ao lado de várias escolas. Até consigo imaginar a criançada saindo da aula e indo direto para lá aprontar.

Hilo - Rainbow Falls

A cachoeira do Arco-íris (Rainbow Falls), que fica dentro da cidade, numa área deliciosa.

Hilo - figueiras

Uma das muitas figueiras de Hilo, com suas típicas raízes adventícias. Sim, o que se vê na foto não é tronco, quase todo o tronco é composto por raízes, que se desenvolvem demais e fora do solo com a umidade.

Por Hilo, já passaram algumas celebridades (o jazzista Louis Armstrong e a pioneira da aviação Amelia Earhart, por exemplo), que deixaram plantadas grandes figueiras numa alameda conhecida como… Alameda das Figueiras. As figueiras, aliás, são a marca registrada da cidade, que, por causa do excesso de umidade lá existente durante todo o ano, crescem desproporcionalmente e apresentam o fenômeno das raízes adventícias, que só acontece nessas condições. É muito bonito.

E, no horizonte da cidade que não é mar, avistamos o Mauna Kea, o vulcão com neve (no Havaí!) considerado dormente, que não entra em erupção há mais de 4,000 anos – embora os cientistas acreditem que ele vá acordar a qualquer momento dada a observação recente de alguns terremotos típicos de um “despertar vulcânico” em sua base. Se o Mauna Kea entrar em erupção, Hilo é a primeira cidade a ser destruída pelo caminho.

Hilo - Mauna Kea com neve

O topo gelado do Mauna Kea ao entardecer, uma fera adormecida.

Hilo

Enquanto o Mauna Kea não acorda, Hilo aproveita bastante seus momentos de tranquilidade e bucolismo.

Hilo vive assim: à beira de desastres naturais iminentes. Paradoxalmente, a cidadezinha tem um ar tranquilo, de vilarejo que vive cada momento sem pressa, como se nada fosse acontecer. Afinal, o futuro é imprevisível. Ou quase.

Tudo de bom sempre.

P.S.

  • Os sistemas de alarme no Havaí são testados agora toda primeira segunda-feira do mês, quando, em torno do meio-dia, uma sirene irritante toca por todas as ilhas. Irritante, mas muito necessária.
  • O NYTimes lançou uma pequena reportagem de turismo sobre Hilo e adjacências logo após o tsunami de 2004. Para quem quiser saber mais, vale a pena conferir. Ou ler os posts da Lucia Malla falando dos mesmos arredores, que são sem dúvida mais exuberantes que Hilo em si.


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