Educação científica: pela divulgação eficaz

por: Lucia Malla Antigos, Ciência, Educação

Gosto muito dos ScienceBlogs. É uma iniciativa americana de blogs profissionais voltados apenas para o tópico “ciência”, que abriga o blog de ciência mais lido do planeta, o Pharyngula. São 48 blogs (e crescendo…) nos assuntos mais diversos, de evolução a astronomia. Os ScienceBlogs estão agora entre os 100 mais populares do índice Technorati, e isso, para um assunto árido para muitos como ciência, pode ser considerado uma vitória da educação científica.

Não temos uma iniciativa (mesmo amadora) como o ScienceBlogs na blogosfera lusófona – não tínhamos, melhor dizendo. Porque desde o início do mês está funcionando a ótima idéia agregadora da Ana: o “Roda de Ciência“, um blog coletivo com contribuição de cientistas, jornalistas de ciência e interessados no tema, do Brasil e de Portugal. É o nosso cantinho virtual na língua de Camões para discutir assuntos da ciência. A proposta é: cada mês, um tema. E o tema desse mês de agosto é divulgação da ciência.

Educação científica

Interessantemente, há alguns dias li um post exatamente sobre esse tema no ScienceBlog da Janet Dr. FreeRide. Ela comentava lá sobre alguns problemas que a divulgação da ciência para não-cientistas apresenta, problemas que sem dúvida colaboram na transformação da ciência de assunto divertido (como eu vejo) para assunto chatérrimo e de nerd (como a maioria das pessoas vê).

Problemas da educação e da divulgação científica

O primeiro problema que ela vê (e eu concordo) é a passividade da audiência; para mim um reflexo direto da ausência de educação científica nas pessoas em geral. Nós simplesmente não aprendemos a pensar cientificamente na escola. Falo por experiência própria: minhas aulas de química, física e biologia restringiam-se a conteúdo, nunca à elaboração da hipótese, à experimentação para validação, a executar o método científico. E pior: apenas no meu último ano de faculdade fui exposta a ele, numa aula formal (disciplina optativa, ainda por cima!). Ou seja, corri o sério risco de me formar cientista sem saber o que era o método científico a fundo, praticando-o a esmo. Até eu me choco quando lembro disso.

E me choco mais ainda porque depois de perceber o que o “método” é (por favor, não confunda com o “método” de Marlon Brando para atuar!), percebi que já o usava há tempos para tudo na vida – não só para ciência. A Janet cita um exemplo muito legal de fazer um bolo na cozinha: você experimenta quantos ovos, quanto de açúcar, quanto de chocolate pôr na massa. Se o bolo fica gostoso, você chegou num resultado satisfatório. Se ainda não está bom, você continua testando, modificando variáveis: mais ou menos farinha? Menos açúcar? E por aí vai, até ficar do jeito que você quer. Com a ciência, é o mesmo: você testa diferentes variáveis de um sistema (o seu “problema” científico) até chegar no resultado satisfatório.

Diálogo para a educação científica

Mas em geral, as pessoas não entendem esse tipo de lógica experimentativa da “vida real” como parte da ciência. E aí, quando ouvem um cientista de verdade (de preferência de jaleco branco-Omo) falando (de preferência com um discurso bem hermético), intimidam-se e acreditam piamente no que ele fala, sem questionamento algum. As pessoas acreditam demais. Aí está o erro.

Quando qualquer pessoa fala – sobre política, por exemplo – quem está do outro lado da linha em geral ouve, e acrescenta intervenções, questionamentos, dúvidas, etc. Isso chama-se diálogo. “Ora, por que usar essa estratégia na campanha do fulano pra deputado?” E assim a conversa flui, a informação se difunde, é discutida e formam-se opiniões. Confesso que discutir ciência requer um pouco de conhecimento prévio básico. Mas não tanto assim que impeça ao cientista de se esforçar para estimular a mesma reação no ouvinte/leitor que um assunto como política ou futebol suscita.

Sejamos todos cientistas!

Por que somos todos “técnicos de futebol” no Brasil, e não somos todos “cientistas”? Por que travamos um dílogo e não um diálogo com o não-cientista? Não no sentido “ir ao laboratório fazer o experimento e analisá-lo”, mas no sentido entender a lógica por trás da notícia científica, de como o pesquisador atacou um problema, como resolveu, e as consequências de tal resultado para uma amplitude maior: a sociedade. É isso que eu sinto falta na divulgação: pessoas usando o próprio pensar científico como base do questionamento. Os cientistas não incentivam isso, os jornalistas de ciência parecem querer meramente narrar resultados sem incitar discussão, as pessoas não se educam a perguntar, e ficamos nesse jogo de zero a zero infinito.

Talvez devêssemos incentivar isso em nossas crianças, e colher os frutos de uma melhor divulgação daqui a alguns anos. A curto prazo, a solução ainda é a mesma: cabe ao cientista/divulgador da ciência tornar o assunto palatável aos olhos de um público que não foi educado cientificamente. Trabalho difícil, mas não impossível, que blogs como toda a leva dos ScienceBlogs (e espero nosso projetinho Roda de Ciência) mostram diariamente ser possível fazer.

Que venham mais blogs de ciência, que venham mais discussões científicas!

O futuro agradece.

P.S.

Amigos, esse é um cross-post: se quiserem comentar e entrar na roda de discussão da ciência, deixem seus comentários lá no Roda – mas aqui na minha caixinha tá valendo também, ok? 🙂



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