Rongelap

por: Lucia Malla ArteSub, Corais, Fotografia, Ilhas, Ilhas Marshall, Micronésia, Praias, Viagens

Toda vez que alguém fala em praia deserta comigo, eu penso nessa da foto abaixo. Ela fica na Ilha de Bokoen, que é parte do atol de Rongelap, no pequeno país chamado Ilhas Marshall, no meio do oceano Pacífico. (Mapa aqui. Mais fotos aqui.)

Pela sua história, entretanto, deve ser uma das praias mais desertas “de verdade” do mundo.Praia no atol de Rongelap - Ilhas Marshall

Rongelap radioativa

Rongelap é um atol que fica ao lado de outro atol famoso, o de Bikini. Bikini, como sabemos, foi o atol foi utilizado na década de 50 para testes nucleares pelos americanos. Onde efetivamente eles detonaram uma bomba nuclear. Naquele dia fatídico de teste em 1954, os habitantes de Bikini haviam sido evacuados todos para o atol de Rongerik. Mas ninguém se importou em evacuar Rongelap, que ficava ao lado. Dizem os marshalheses que o exército queria propositalmente testar os efeitos da radiação em humanos. Nem sequer avisaram ao povo de Rongelap que eles veriam 2 “sóis” naquele dia.

E, graças aos ventos reinantes do dia do teste, após a bomba, as cinzas radioativas foram carregadas e caíram em grande parte… em Rongelap. Há relatos de que os habitantes de Rongelap viram cair uma chuva de cinzas brancas naquele dia que cobriram as ilhas completamente, resultado de recifes de coral e afins que foram pros ares com a bomba. Em poucos dias a população começou a adoecer vítima da radiação e foi evacuada.

Mesmo depois do estrago, os habitantes tiveram que voltar a Rongelap três anos depois, quando a radiação ainda estava bem alta. Nunca uma “limpeza” da radiação foi feita pelos americanos. Consequência da volta adiantada: sofreram muitas doenças típicas de exposição à radiação, como câncer de tiróide. Foi apenas na década de 80 que o Greenpeace tomou à frente e fez na calada da noite o que o governo americano não fez por essa população “radioativa” em 3 décadas: retirou-os de lá, na chamada “Operação Exodus”, que foi completada em 10 dias, com 4 viagens do Rainbow Warrior e que gerou uma situação embaraçosa para a diplomacia americana que não sabia explicar o “esquecimento”. E até hoje, poucos nativos de Rongelap voltaram ao seu atol.

Ambiente intocado

Entretanto, ecologicamente, Rongelap ficou isolado desde a bomba. Apesar da radiação, permanecer intocável gerou ironicamente um dos ecossistemas mais magníficos do planeta ainda em estado selvagem total. Rongelap é hoje um paraíso do mergulho – e dizem as novas medições que a radiação é bem baixa na água do mar, devido ao fator de diluição e correntes.

Nas praias, não se pode consumir nada que cresça da terra, mas tirando isso, a radiação de fundo é aceitável. E a praia, como se pode imaginar depois de tanta confusão, é totalmente deserta. Humanos não querem ir para lá por medo de contaminação. Então, os habitantes predominantes são os animais que vivem à vontade principalmente embaixo d’água, onde a radiação é quase inexistente. Rongelap é um paraíso tropical ironicamente deixado de lado de propósito; deserto e lindo – um bom destino de sonho para aventureiros/ecoturistas de plantão, não?

Tudo de bom sempre.

P.S.

  1. O prefeito de Rongelap ainda luta no Congresso americano pela indenização aos habitantes do atol que sofreram com a bomba. O governo americano já tentou “comprá-los” por uma quantia vultosa, mas eles querem mais: querem o devido reparo que o povo merece. Afinal, quando sugeriram o Pacífico para o teste, Kissinger, numa pérola da diplomacia americana, assim se referiu aos marshalheses: “There aren’t many of them there, who cares?”. O prefeito cares… A luta será dura.
  2. Um grupo japonês já tem planos de construir um resort em Rongelap. Os bangalôs já estão prontos. Portanto, em breve, Rongelap pode estar oficialmente aberta ao turismo. A conferir.


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