Na Mergulho com o peixe-boi

por: Lucia Malla América do Norte, Animais, ArteSub, EUA, Fotografia, Mergulho

Mais uma colaboração minha com André saiu nesse mês de julho na revista Mergulho (n. 132). É uma reportagem da Mergulho com o peixe-boi da Flórida, aventura vivida em março desse ano. A reportagem saiu muito legal e eu recomendo a visita às bancas! 🙂

Revista Mergulho com o peixe-boi

Na Revista Mergulho com o peixe-boi.

Deixo abaixo o texto completo da reportagem que escrevi na revista Mergulho.

Tudo de bom sempre.


Mergulho com o peixe-boi: No reino dos batatões subaquáticos

Era uma madrugada gelada de março na costa do Golfo na Flórida. Com um frio de quase zero, era mais fácil pensar num copo de café quente do que na real razão que nos levara até a cidadezinha de Crystal River, ver os ameaçados peixes-bois. Tínhamos lido anteriormente que aquela era a melhor época do ano para apreciar o animal. Além disso,  aquela era também a melhor hora do dia – mais fácil ainda devido ao frio. Isto porque o peixe-boi-americano (Trichechus manatus latirostris), ilustre visitante da região do Condado de Citrus, certamente descansa com o frio da manhã. E se aquece em uma das várias nascentes termais da King’s Bay.

King’s Bay é uma baía com várias nascentes, onde o rio Crystal se forma. Tem várias ilhotas e canais, a maioria deles hoje povoado por mansões. O rio continua até o mar do Golfo, e em toda a sua extensão vê-se peixes-boi. A pacata cidade de Crystal River, auto-entitulada “Casa do Peixe-Boi”, está na beira nordeste da baía, com seus pequenos prédios e comércio pequeno, cortada pela Suncoast Highway. Sua principal atividade econômica é o turismo do peixe-boi. É também o local escolhido para a aposentadoria de muitos americanos ricos, que adoram a calma da cidade e da vida próxima a um curso d’água navegável. Muitos iates e veleiros povoam a baía, e trazem diversão à população abastada. O peixe-boi, para essas pessoas, é como o chantilly de viver no local.

Biologia do Peixe-boi

Peixes-boi são mamíferos herbívoros, e o adulto pesa em média 500 kg. Vivem pelos rios, estuários e áreas costeiras do leste americano e pela costa do golfo do México (foram vistos até no Cape Cod, bem ao norte dos EUA). Regulam sua temperatura corpórea internamente por mecanismos metabólicos similares aos dos demais endotérmicos, mas por viverem na água (um meio onde facilmente se perde calor), durante o inverno eles precisam buscar áreas onde essa perda de calor não seja tão alta a ponto de gerar hipotermia. Por isso, migram das áreas ao norte para a Flórida.

Visita a Crystal River

Às 7 da manhã, a baía parecia cenário de filme místico. A água ali, um pouco mais quente que o ar ambiente, gerava um vapor que cobria a superfície. Nas nascentes onde os inúmeros peixes-boi se abrigavam, o efeito místico era mais forte ainda, pois a água chegava a 22ºC, quase 20 graus a mais que a temperatura ambiente.

No primeiro dia em Crystal River, alugamos um barquinho a motor em uma pequena operadora (10 dólares/hora). Antes de pegar o barco, assistimos a um vídeo obrigatório sobre comportamento adequado nas águas do santuário do peixe-boi. É também obrigatório andar a uma velocidade sempre menor que 5 milhas/hora no santuário. Afinal, cerca de 40% dos peixes-boi morrem anualmente nos EUA atropelados por embarcações. Isto ocorre porque os peixes-boi nadam lentamente e vêm sempre à superfície para respirar. É nesse momento de vulnerabilidade que os atropelamentos acontecem.

Na nascente Three Sisters

Com autonomia de transporte, seguimos direto para o local onde o atendente da loja havia nos dito ser o “paraíso dos peixes-boi”. Este lugar era a nascente de Three Sisters, que fica num recanto de um canal recheado de mansões.

Isso mesmo, os peixes-boi estão no quintal dos magnatas. Aliás, os donos de mansões ali não gostam nada daquela turistada ali diariamente invadindo a “privacidade” dos lares deles. Há uma disputa judicial em andamento para que a atividade comercial de ver e nadar com os peixes-boi em seu habitat seja proibida ali. Entretanto, como o canal é público pelas leis americanas, a defesa dos milionários ultimamente vem mudando. Eles agora fotografam turistas “abusando” do animal e mandam para as instituições de proteção ambiental. Desta forma, são estas instituições que pressionam o governo a fechar as operações de snorkel.

Por isso, ao visitar Three Sisters, todo cuidado é pouco. Seguir as regras das áreas chamadas de “santuários de peixes-boi” é, portanto, fundamental para que essa atividade de educação ambiental e encontro com um animal selvagem permaneça para as futuras gerações. E garanto, não é necessário muito esforço nem burlar lei alguma para vê-lo ali.

A lei para a conservação do peixe-boi

Os peixes-boi felizmente são animais super-dóceis, como constatamos assim que chegamos no Three Sisters. Os mais novos são muito curiosos e ao perceberem a presença humana, vêm logo para perto, tentar interagir conosco.

As leis ambientais rígidas da Flórida permitem que coloquemos só uma das mãos no peixe-boi, sem risco de multa. Mas as duas mãos já é atitude considerada ilegal, pois significa “tentativa de segurar o animal”. E o animal é bem grande, lembra uma batata gigante nadando. Portanto, é difícil de segurar. A fiscalização é enérgica. Os “patrulheiros do peixe-boi” estão em caiaques ao redor do santuário praticamente o tempo todo, para adverter turistas menos cautelosos.

Tudo isso seria desnecessário se o peixe-boi fosse um animal abundante. Infelizmente, não é mais. Até o século retrasado, era caçado por sua carne e gordura. Depois, já no século XX, veio a destruição dos estuários e áreas costeiras para construções de condomínios e indústrias. Esta destruição fez desaparecer o habitat natural do peixe-boi. Com isso os números desse animal caíram significativamente, beirando à extinção completa. Tornaram o animal ser um dos primeiros a entrar na lista de ameaçados de extinção nos EUA.

Com a presença humana em regiões costeiras, aumentou também o tráfego de barcos, que são até hoje o maior problema para a sobrevivência da espécie. Após uma campanha maciça de proteção ao peixe-boi na década de 90, hoje o número de indivíduos aferidos aumenta vagarosamente. Mas ainda há muito que se fazer para voltarmos aos níveis de quando os europeus chegaram ao continente. Enquanto isso, é necessário educar. E a forma mais eficiente é observando o peixe-boi ao vivo e a cores, já que sua docilidade permite.

Primeiro dia na água com o peixe-boi

O mergulho com o peixe-boi foi uma experiência incrível. Embora difícil tirar os casacos que me aqueciam, após um movimento rápido e com várias camadas de wetsuit, me joguei com máscara, snorkel e pé-de-pato no rio raso e cristalino, como o nome sugeria. A boa constatação: a água era quentinha. O sol aos poucos aparecia.

Nadamos até a nascente de Three Sisters, onde outros barcos e caiaques já se concentravam. Na entrada da nascente há uma área protegida por cabos flutuantes. Esta área nenhum humano pode ultrapassar, mas o peixe-boi pode. Mais de 20 peixes-boi estavam agrupados ali, se aquecendo. A distância entre nós e os peixes-boi era de menos de 5 metros e o que nos separava era apenas uma cordinha.

Logo um peixe-boi jovem resolveu ultrapassar a tal cordinha e veio em nossa direção, para delírio da criançada ao redor. E outro peixe-boi. E mais outro. De repente, estávamos rodeados de peixes-boi.

As crianças amam o mergulho com o peixe-boi

As crianças passavam a mão em sua pele grossa. Os peixes-bois pareciam gostar do carinho e das brincadeiras. Afinal, rolavam de um lado para outro, faziam movimentos com as nadadeiras como a bater palmas, nadavam um pouco e voltavam aos afagos humanos. Notei que muitos exibiam cicatrizes de hélices de barco em alguma parte do corpo. Estas cicatrizes eram uma triste ironia. Pois uma espécie de vida “selvagem” com tanta docilidade a oferecer aos humanos era justamente agredida pelos “civilizados”.

Era mais de meio-dia quando resolvemos dar tchau aos peixes-boi. A maioria deles, naquele momento, ia a cada 10 minutos à superfície respirar – e só. Alguns brincavam com o público à espreita. Os mais famintos, à medida que a manhã avançava, saíam para outras áreas da baía, onde alimento era mais farto. Afinal, peixes-boi precisam de cerca de 50kg de vegetais por dia para viver.

Vida de peixe-boi é assim: descansar e nadar atrás de alimento.

Segundo dia na água com o peixe-boi

No segundo dia, pegamos um barco de turismo convencional (“Swim with Manatee” Tour) operado pela maior empresa de mergulho local a um preço salgado. Mas queríamos ver se o tour de mergulho com o peixe-boi dali incluía algo de “diferente”que valesse a diferença de preço. Outros 8 clientes à bordo, rumo de novo ao Three Sisters Springs.

Dessa vez, chegamos mais cedo ainda, às 6 da manhã. Fomos o primeiro grupo a aportar no canal. Mais uma vez, o frio era congelante. Mas a água compensava. Mais uma vez, os peixes-boi estavam ali, descansando na área restrita. No esquema da operadora, ficávamos então nadando por cerca de 2h com os peixes-boi, e depois voltávamos ao barco. 

Os donos de operadora afirmam veementemente que é preciso chegar muito cedo para ver os peixes-boi ativos. Isto apesar de no dia anterior nós termos chegado mais tarde, quando alguns peixes-boi ainda interagiam com as pessoas.

Mas fica a dica: acorde cedo de qualquer forma. Para nós, entretanto, valeu mais a pena alugar o barquinho. Saiu mais barato e permitiu curtir o peixe-boi por quanto tempo quiséssemos. O que no final pode ser muito mais bacana.

Como chegar em Crystal River

Para chegar em Crystal River, a partir de Miami, pode-se pegar um vóo até a cidade deTampa. De lá, pegue a rodovia Suncoast até o fim, e então caia na US-19, que passa dentro de Crystal River. O trajeto de Tampa até Crystal River leva menos de 2 horas. Separe alguns dólares para os pedágios na Suncoast.

Onde ficar em Crystal River

O melhor é ficar em Crystal River, onde há diversos hotéis simples e de boa infra-estrutura. Além disso, você estará perto das operadoras e não precisará acordar tão cedo. Mas caso queira algo mais sofisticado, fique em Tampa, onde as diárias de resorts começam em torno de 250 dólares na alta temporada.

Operadoras de mergulho com o peixe-boi

Há várias operações de saída para snorkelar com os peixes-boi no inverno. A maior de todas é a Bird’s Underwater (www.birdsunderwater.com), cujo valor do passeio é 30 dólares por pessoa + aluguel de equipamento. No Crystal Lodge Dive Center, você pode alugar seu próprio barquinho por 10 dólares/hora e passear por toda a baía de King.

Melhor época para ir

No inverno no hemisfério norte. De janeiro a março os peixes-boi se agrupam nas nascentes da baía de King’s e também em outras áreas aquecidas da costa da Flórida, como no rio Homosassa. Entretanto, é apenas em Crystal River que o rio é calmo e raso o suficiente para permitir a visita sem riscos. Afinal, a visibilidade da água deste rio chega a incríveis 20 metros, o que permite então fotografar e observá-los mais tranquilamente.

Dica de viagem

Em Three Sisters Springs, nade até a área interna da nascente. O visual é lindíssimo, e a pequena corrente não assusta. Leve uma bebida quente numa garrafa térmica para depois que sair da água, porque só empolgação com o peixe-boi não são suficientes para aquecer os mais sensíveis ao frio.

O comportamento do peixe-boi

 Os peixes-boi pertencem à ordem Sirenia, e no passado, os navegadores os confundiam com sereias, devido ao seu tamanho e expressão facial. Vivem a vida inteira dentro da água, em locais rasos e raramente mergulham fundo: precisam subir a pequenos intervalos de tempo para respirar com suas narinas, pois são dotados de pulmões. Alimentam-se de vegetais e algas que encontram pelos rios e estuários nos sedimentos, e não possuem um predador natural específico, exceto infelizmente o homem.

Os filhotes nascem após 13 meses de gestação e mamam até os 2 anos de idade. Por isso, ficam o tempo todo próximo da mãe, lambendo a glândula mamária abaixo da nadadeira peitoral onde brota o leite. Eles normalmente vocalizam e gostam de ser arranhados levemente para limpeza da pele. Sua maturidade sexual acontece entre 6 e 10 anos de idade.


P.S.

  • A foto de entrada deste mergulho com o peixe-boi é de um peixe-boi filhote mamando na sua mamãe no Crystal River, Flórida. Contei mais deste delicioso encontro com estes animais num post aqui do blog.
  • Para mais fotos de peixe-boi lindas, o site da ArteSub é o lugar certo.
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