No Quadrilhódromo de Parnaíba

por: Lucia Malla Antigos, Brasil, Cotidiano, Piauí, Viagens

Uma de nossas paradas pelo nordeste brasileiro foi em Parnaíba, no Piauí. Vínhamos do Maranhão, e estávamos cansados de presenciar o descaso político e econômico em que o estado se encontrava. Tivemos uma boa surpresa portanto ao cruzar a divisa de ônibus, numa tarde de sábado: Parnaíba era uma cidade bem organizada, simpática e bonitinha.

Estava em Parnaíba para ver o famoso delta, passeio que só poderia ser feito de dia. Era de tardinha, e saímos então para dar uma volta pela cidade. O antigo porto, onde as barcas antes saíam pro passeio do delta, tinha sido revitalizado. Ali encontramos várias agências de passeio, com preços iguais: de nada adiantava a concorrência. Alguns bares e lojinhas – mas a aparência desértica da área me deixou com uma pulga atrás da orelha. Afinal, aquele era supostamente o “point” da cidade. Onde estariam as pesssoas? Resolvi perguntar. E a resposta do moço da pizzaria foi decisiva: no Quadrilhódromo de Parnaíba. Nos “folguedos”, que é como se chamam as festas juninas no Piauí.

O nordeste inteiro festeja intensamente os santos de junho. Em várias cidades por onde passamos, pudemos aproveitar as danças e delícias culinárias que o festejo propicia. Em São Luís, por exemplo, o arroz de cuxá com vatapá foi inesquecível. Parnaíba, com suas fogueiras acesas a cada esquina, não ficou para trás: a prefeitura construiu um Quadrilhódromo, onde em junho acontece o encontro de folguedos, com apresentações das quadrilhas, locais e de outras cidades do nordeste.

Eu esperava uma área pequena – afinal, a festa junina que eu estava acostumada eram festas pequenas, com canjica, quentão e fogueira, não muito mais que isso. E depois de mais de 10 anos sem ir a uma festa junina, já não me lembrava mais direito do ritual festeiro. Quando cheguei no Quadrilhódromo, tive a real noção da dimensão do que é a festa junina por essas bandas: quase um ginásio a céu aberto, com arquibancada, dois palcos e centenas de barraquinhas ao redor. Tudo lotado. O festival de quadrilhas já havia começado, e nós, como bons turistas, sacamos nossas câmeras fotográficas e começamos a registrar tudo. Uma senhora nos viu, e nos convidou a subir na ala VIP do Quadrilhódromo. Sua explicação para o segurança da porta, que eu entreouvi, foi a melhor de todas: “São turistas, estão divulgando nossa cidade.” A senhora era alguém importante da secretaria de Turismo da cidade, e acreditava que por ter nos dado o privilégio da estadia VIP, divulgaríamos positivamente a cidade para ela. Era a prova cabal de que, por mais que tentássemos despistar, tínhamos cara de turista mesmo.

De chinelo e bermuda ao lado do prefeito e seus assessores engravatados, assistimos às apresentações de diferentes estilos de quadrilha (eu nem sabia que existia isso), mas uma em particular me chamou a atenção: a do grupo Rei do Cangaço, com o tema “Nordeste de Cabra da Peste”. Quase 100 participantes dançavam em ritmo frenético uma música originalíssima que engrandecia os estados do nordeste, com um refrão simples, agitado e divertido:

“Esse é o meu nordeste/ terra de cabra, cabra da peste…”

Quadrilhódromo de Parnaíba

A apresentação da quadrilha “Rei do Cangaço”, em cores vibrantes. Abaixo, barraquinhas de quitutes… hmmmmm!!!

Fiquei encantada com a quadrilha de alto nível, cheia de efeitos especiais, de excelente bom gosto e muito animada. Que vibração da galera! Vimos mais algumas apresentações e resolvemos descer da ala VIP. Afinal, eu queria me meter no meio da muvuca e aproveitar um pouco da culinária regional. Encostamos numa barraca de vatapá (amarelo ovo!) com arroz-de-maria-isabel e pirão de parida, e eu comecei a degustação… tudo delicioso e baratíssimo! De sobremesa, mugunzá e bolo de macaxeira. Melhor impossível.

Era tarde quando saímos do Quadrilhódromo, que ainda estava lotado e não dava indício algum de que iria esvaziar tão cedo. Afinal, era sábado de folguedo junino nessa cidade simpática do nordeste brasileiro: evento imperdível para os turistas de sopetão e para os foliões de plantão.

Tudo de arraial sempre. Anarriê!



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