Crescer ou preservar: o dilema chinês

por: Lucia Malla Ásia, China, Ecologia & meio ambiente, Economia

Hoje saiu uma coluna de opinião no NYTimes comentando sobre o problema da poluição na China. Além disso, um caderno especial de reportagens sobre o mesmo assunto invadiu as páginas do mesmo jornal, alertando para a bomba ecológica prestes a explodir naquele país da Ásia. Em ambas, o tom é o mesmo. Se quiser continuar crescendo sua economia, um dilema chinês se estabelece. Porque o chinês vai ter que olhar com muito mais cuidado para seu ambiente. Assim como para a poluição que vem gerando.

Crescer ou preservar - o dilema chinês

Welcome to China: a foto do avião da Dragon Air foi tirada na nossa chegada ao aeroporto chinês de Beijing, numa tarde de 2005. O céu não foi photoshopado. O amarelo predominante é sinal da poluição local alarmante, mesmo.

Crescimento econômico gera poluição

Crescer com poluição não é um advento novo da humanidade. Se olharmos para os países estabelecidos como desenvolvidos hoje (o eixo Europa-América do Norte, por exemplo), veremos que boa parte do seu crescimento veio às custas de degradação ambiental em algum nível. O atual caso chinês faz ressurgir a discussão em dois parâmetros: quantitativo e qualitativo. E há algumas diferenças a serem contabilizadas.

Crescer ou preservar - o dilema chinês - barbatanas de tubarão à venda

Barbatanas de tubarão e outros animais (ou pedaços deles) à mostra numa loja em Hong Kong: come-se de tudo na China a um custo ambiental para o mundo muito elevado.

Nunca se produziu tanta poluição no mundo – eis o parâmetro quantitativo. Com um tamanho de população nunca alcançado antes na história do planeta, é bem fácil entender que mais bens de consumo precisam ser produzidos para atender a essa demanda crescente. Como a eficiência ecológica e energética da produção ainda deixa muito a desejar, aumentaram a quantidade de resíduos gerados para suprir as necessidades da população. Mais pessoas geram mais poluição, simples assim.

Que tipo de poluição?

A poluição também mudou, e de forma qualitativa. Embora muitas empresas e governos agora se preocupem com a “onda verde” e ofereçam produtos ecologicamente corretos para vender a seus clientes, infelizmente essa ainda não é uma tendência geral. A maior parte das indústrias, na ânsia de oferecer produtos mais baratos e ganhar o mercado consumidor em ascensão, cortou etapas. Substituiu materiais e afins na linha de produção, e com isso, gerou mais lixo. Não só lixo industrial, mas empurrou para o consumidor final também boa parcela desse problema. Ou as tantas embalagens tipo PET espalhadas pelos depósitos de lixo do mundo (para não falar pelos mares…) mostram o contrário?

A poluição astronômica da China

E é aí que a China entra, como peça fundamental dessa dinâmica. Em primeiro lugar, porque é o país mais populoso do mundo. Este dado por si só já significa maior quantidade de degradação ambiental gerada. Em segundo lugar, porque é o país que mais vem crescendo economicamente, a astrondosas porcentagens anuais. Um processo que, salvo raríssimas exceções, ainda tem resquício do formato de crescimento das grandes nações, com maior geração de poluentes.

Dado isso, não é espantoso que a poluição na China venha crescendo no mesmo ritmo que seu boom econômico. Embora se acreditasse que a China só alcançaria o status de maior poluidor do mundo em 2009, esse título chegou antecipadamente. Números assustadores de um índice vergonhoso. Um desses rankings que país nenhum em sã consciência diplomática quer ter.

Mas o problema maior não é como a China chegou até o nível atual de poluição. Mas sim como sairá dessa sinuca-de-bico de crescimento desordenado sem preocupações ambientais. Primordialmente, num momento crucial em que outros países já começam a pressionar por mudanças na estrutura de produção chinesa, por medo da concorrência ou por consciência do desastre ecológico iminente em proporções mundiais.

Alguns fatos caóticos do dilema chinês pelos jornais do mundo

  • O mar de Bohai, o mais próximo veio de água salgada de Beijing, já está praticamente morto.
  • Qinghai, o maior lago de água salgada da China (e um dos maiores do mundo), pode secar em 10 anos.
  • A ONU já considera zonas mortas os deltas dos rios Yang Tsé e Pérola, que recebem os dejetos de Shanghai e de Hong Kong.
  • 81% do litoral chinês está poluído. 55% das áreas costeiras são sujas (moderadamente). Ou seja, apenas 20% da costa é considerada limpa, pelos padrões de Beijing. Adicione a esse dado o fato de que a China está perdendo seu litoral por causa das ações humanas de erosão, e meça o nível de lambança ambiental vigente nas costas de Mao.
  • Sem esquecer da sopa de barbatana, que dizima tubarões pelo mundo. Para saciar os novos-ricos chineses e sua sede por status culinário, que inclui também outros peixes raros na sua nova-dieta. Os peixes são pescados em outros cantos do mundo, já que o mar da China está praticamente morto. Incluindo pesca dentro de parque marinho da UNESCO. Respeito às leis internacionais e a preocupacão por causar problemas ambientais aos vizinhos não são comuns entre pescadores chineses. Sem contar os demais animais, comercializados sem pudor pelo país. Vi nas vitrines da Des Veux Road em Hong Kong a catástrofe ecológica que as lojas de “produtos medicinais chineses” geram.

Parênteses

Minha pergunta pessoal é: que água os chineses vão beber daqui a alguns anos? As fontes estão secando e/ou sendo destruídas. Como manterão a população sem água potável? Qual será o preço desse novo commodity para a economia?

Fim do parênteses.

A atual destruição de ambiente chinês

Ruas de Beijing - crescer ou preservar - o dilema chinês

Um pequeno engarrafamento nas ruas de Beijing. Com o aumento do poder aquisitivo chinês e a venda de carros aumentando, a cena está cada vez mais comum.

Não é de admirar, com esses dados assustadores, que a biodiversidade chinesa seja uma das que mais rapidamente decresce no mundo hoje. E que as medidas ambientais que vêm sendo tomadas, as metas a serem alcançadas no país de emissão de CO2 e outros poluentes estejam fracassando em sua imensa maioria (que novidade…). Em tempos de aquecimento global, isso é um problemão pro governo comunista. O país, com sua política fechada e economia aberta, possui além de tudo uma cultura milenar que se assemelha um pouco ao malfadado jeitinho brasileiro. Afinal, o chinês da elite também quer vencer a qualquer custo (entenda propina, nepotismo e outras operações ilícitas), já que a derrota é vergonha irreparável nas sociedades asiáticas em geral.

E de nada adianta fazer uma “lista negra” de poluidores e não fiscalizá-los. Ou então aplicar multas convenientes. É preciso desacelerar o ritmo de crescimento se querem as devidas medidas ambientais respeitadas. Esta é uma questão delicadíssima ao coração dos chineses animados pelo consumismo desenfreado que agora lhes é apresentado.

Concluindo

Uma possível solução para a situação atual vai requerer que a população se conscientize dessa dinâmica fragilizada e se envolva. Por exemplo, exija melhorias no ar que respiram e na água que bebem. Ou que os industriais entendam que a desaceleração é necessária. Principalmente, vai requerer que o governo se torne mais transparente, menos onipotente. Que não tente acobertar números tristes do resultado da poluição para o país e para o mundo. É sobre essa complexa estrutura tripla que a coluna do NYTimes de hoje opina. É, portanto, minha sugestão de leitura especial para a semana que se inicia.

Tudo de ambiente sempre.

Para viajar mais sobre o dilema chinês

  • A solução mais cara-de-pau dos chineses para essa lambança ambiental: exportar suas indústrias poluidoras. A China vem investindo fortemente na África… Em troca de quê? Leia mais sobre essa tragédia-to-be nessa reportagem do NYTimes.
  • Off-topic relevante: o NYTimes é o primeiro grande jornal do mundo a disponibilizar todo seu arquivo de notícias (desde 1851!) na internet.
  • Uma reportagem do The Wall Street Journal mostra algumas promessas feitas ao Comitê Olímpico Internacional. Até agora, pouco se fez para alcançar as metas ambientais sugeridas no calor da candidatura. Aguardemos as Olimpíadas de Beijing 2008…
  • Recentemente, o Greenpeace se infiltrou no cenário musical chinês para espalhar a mensagem verde pelo país. A tentativa é válida e adiciona ao leque de outras ações que ambientalistas já vêm trabalhando por lá. Afinal, a próxima geração sofrerá as consequências mais drásticas desta destruição. Alertá-las para o problema é fundamental.
  • Uma boa reportagem sobre o recall dos produtos chineses contaminados com metais pesados e afins. Produzir sem cuidado e poluindo adoidado não deixam de ser facetas similares da mesma característica cultural: padrões menos rígidos. Uma certeza, entretanto. A estabilidade do mercado China-EUA (e consequentemente das relações comerciais pelo mundo) dependerá de melhorias e maior rigor nesses mesmos padrões de produção.


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