As (con)sequências de Kozak

Hoje é o dia internacional da Mulher, e a Lys e a Meire convocaram a todos para uma blogagem coletiva sobre o tema, com ênfase na mulher brasileira – e eu, é claro, puxo a sardinha para a ciência, como de praxe. Decidi então abrir um pouco mais o tema já que acredito que a mulher precisa ser valorizada por toda parte, não só no Brasil (e o homem também!). Resolvi então não falar das contribuições da mulher brasileira para a ciência, mas participar contando um pouco das agruras, descobertas e persistências de um grande nome feminino esquecido da biologia que mora no país da suposta igualdade de gênero: a americana Marilyn Kozak.

Marilyn Kozak, a independente

Se você colocar “Marilyn Kozak” no Pubmed, o mecanismo de busca de artigos científicos biológicos e biomédicos mais usado no mundo, o primeiro fato que salta aos olhos é que a maior parte de seus artigos foram escritos apenas por ela, e não são apenas revisões – resumos dos últimos artigos aqui. Marilyn trabalhou sozinha para chegar a essas descobertas. Será possível?

Diferente do que muitas pessoas pensam, que o cientista é aquele indivíduo que fica sozinho de madrugada em uma bancada olhando para tubos de ensaio saindo fumacinha, (há essas figuras, mas são minoria), a ciência moderna requer um trabalho forte do conjunto. É a força do time que traz vantagem na pesquisa e produz os resultados mais interessantes e robustos. Afinal, é humanamente impossível que um cientista monte seu próprio laboratório, mantenha-o em condições de trabalho, escreva projetos para angariar fundos, faça experimentos, analise-os minuciosamente, escreva artigos e os apresente sozinho em congressos e afins. É fundamental que outros estejam no mínimo servindo de advogado do diabo para que seus resultados sejam mais discutidos.

Pois Marilyn Kozak é humanamente extraordinária. Ela faz absolutamente tudo sozinha em sua pesquisa, do princípio ao fim. O único funcionário em seu laboratório era um técnico que funciona como faxineiro do lab: limpa vidrarias e afins. Todo o resto era feito por ela própria, inclusive autoclavar/esterilizar material, atividade que comumente passamos para estudantes no sopé da pirâmide social laboratorial. Dizem as más línguas que Marilyn sofre de uma desconfiança permanente na espécie humana cientista. (Como sei disso? Um passarinho que trabalhou voou próximo a ela num laboratório nos EUA me contou…) Hoje, ela se dedica mais a lecionar que pesquisar. Pode se dar a esse luxo, pois já contribuiu deveras ao conhecimento da humanidade.

A descoberta das sequências de Kozak

Com uma capacidade fenomenal de entrar em controvérsias frutíferas e pensar fora da caixa, Kozak é uma das mais importantes cientistas americanas vivas. Ela foi a descobridora das “sequências de Kozak”, uma sequência do RNAmensageiro localizada poucas bases antes do códon inicial de tradução AUG, que regula TODA a produção de proteínas em eucariotos – nós, por exemplo. É na sequência de Kozak que a menor subunidade do ribosomo se liga para iniciar o processo de tradução protéica, que forma o arcabouço de nossa existência como ser vivo.

kozak

Esquema da sequência de Kozak no RNA mensageiro. Tirado daqui.

Sua descoberta foi publicada no reputadíssimo jornal Cell. Além disso, foi um desses breakthroughs que de vez em quando acontecem na ciência e são para sempre lembrados. Afinal, está em todos os livros didáticos de biologia molecular. Ela é séria candidata ao Prêmio Nobel há anos por conta dessa descoberta. Mas, por seu individualismo e sua firmeza em ser crítica exacerbada da ciência que considera mal-feita (muitas delas feitas por grandes nomes do establishment), paga o preço do “esquecimento” também há anos. Ela não tem medo de argumentar com quem for que considere errado, custe o que custar.

Senso crítico e chá de camomila não fazem mal a ninguém

Seu pensamento crítico sem limites é em minha opinião de um valor enorme à Universidade de New Jersey, onde trabalha. Ela continua sendo uma excelente nêmesis de vários campos de pesquisa. Gera polêmicas deliciosas quando dá sua opinião. Kozak condizentemente hoje dá um curso de “Análise Crítica” na universidade. Afinal, criticismo é algo que considera fundamental para um bom cientista – e concordo com ela. Saber criticar uma informação científica de forma coerente, incisiva e embasada é uma característica para mim que define claramente um cientista de verdade.

Ainda mais, saber retrucar de forma persuasiva, coerente e identificando inteligentemente as falácias do adversário ainda é qualidade de poucos. Marilyn Kozak sabe, pois lutou e ultrapassou seus limites. Hoje é a mestra da arte de fazer ciência com ímpeto, garra e força de vontade, sozinha, sem medo de ser considerada chata ou cricri ou tendenciosa, porque sempre pensa na importância da resposta correta, independente dos percalços que o conhecimento pode trazer e independente das ligações políticas que permeam muitos cientistas.

Marilyn Kozak é daquelas mulheres que nos dão orgulho de existir, e mais ainda, nos dão orgulho de ser cientista.

Tudo de bom sempre.

Para viajar mais sobre mulheres na ciência

  • Mulheres (e homens!) na ciência – um artigo interessante sobre o custo de ser cientista, cujo mote é uma frase de Albert Einstein: “Science is a wonderful thing if one does not have to earn one’s living at it.” Para refletir muito.
  • Um post enorme e profundo do Gene Expression sobre preconceito com as mulheres na ciência. O argumento é muito bom, mas perigoso em suas conclusões. Merece ser lido com atenção. Na prática, a Dr. Mom, PhD mostra, entretanto, que a situação pode ser bem diferente da teoria exposta pelo Gene Expression.
  • A Janet conta sua experiência em um post ótimo: as responsabilidades e preconceitos de ser uma mãe-cientista – ou cientista E mãe. Enquanto isso, a Nature publicou há algum tempo dois artigos: um bom sobre o crescimento da participação feminina na ciência, e outro irônico sobre timing ideal de gravidez para uma cientista – este último merece um ressonante búúúúú.
  • Para finalizar, uma visão econômica da polêmica: as colocações de Becker & Posner sobre mulheres na ciência. Leia tendo em mente que tudo se refere a ser cientista nos EUA. A situação fora do eixo EUA-Europa é muito diferente…


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