O “escândalo” do Lonely Planet

por: Lucia Malla Antigos, Comportamento, Livros, Turismo

Eis que semana passada o mundo dos guias de viagem entrou em choque ao descobrir que um dos autores do guia Lonely Planet – Colômbia, Thomas Kohnstamm, revelou nunca ter visitado o país. Portanto, ele havia construído seu texto no guia na base de plágio e invencionices. Thomas afirmava que o grupo LP não o financiara para visitar o país. Então ele recolheu as informações para o guia através de uma colombiana funcionária da embaixada, na época sua namorada. Simples assim.

Desleal assim. Com a credibilidade balançada, o Lonely Planet obviamente retrucou em resposta oficial, explicando os detalhes da produção de Thomas para eles e as informações que poderiam estar comprometidas – como uma edição já esgotada do guia LP-Brasil. E obviamente, o Lonely Planet mandou Thomas rodar.

A versão de Thomas

Em sua página pessoal (que ironicamente vende seu livro “Do travel writers go to hell?”, um relato das suas aventuras com mulheres pelo Brasil), por sua vez, Thomas tenta contar a “história verdadeira” por trás de todo esse fuzuê, mas tudo que ele consegue é repetir o que todos já sabiam e se enrolar mais, admitindo ter aceito “favores sexuais” de uma garçonete em troca de uma revisão boa de seu restaurante num guia.

A crise no Lonely Planet

É claro, toda essa confusão abala o Lonely Planet e sua credibilidade tão suadamente conseguida. Inúmeros escritores de categoria de repente devem ser escrutinizados frivolamente, porque um loser resolveu mentir ao escrever um guia, gerando uma cascata de reavaliações desnecessárias em sua maioria. Gasto de tempo e dinheiro. Complexo, e eu entendo a revolta que muitos colaboradores do LP sentem nesse momento. (O Brave New Traveler, para variar, tem o melhor post da blogosfera de viagem gringa sobre o assunto.)

O que o escândalo revela sobre guias de viagem

Entretanto, de certa forma, concordo com o Jeffrey White nesse post em que ele diz:

“Guidebooks are the CliffNotes of travel writing, nothing more than a hand-holding exercise. They’re good for a few names and a few addresses, some initial info, and maybe even the surprising fun fact (but you better verify it). Beyond that, they’re useless. They’re often wrong, more often skewed, and they seek to rob you of the only thing you have as a traveler: your impression.”

Conheço pessoas que se baseiam 100% num guia de viagens quando visitam um lugar. Querem ter as mesmas experiências descritas ao pé da letra  -e reclamam quando não têm. Uma coisa é você buscar nomes, endereços e afins. Para isso, afinal, um guia de viagem atualizado funciona maravilhas. Porque você não perde tempo procurando um restaurante que fechou as portas no ano passado. As tecnicalidades e atualidades físicas são a riqueza maior de um bom guia de viagem.

Entretanto, me fixar num guia fielmente esperando ter as mesmas emoções ali descritas sobre um destino é de um vazio existencial para a minha pessoa impressionante. Simplesmente não consigo. O máximo que quero são relances de informação. Principalmente, que não comprometam a minha própria construção de sentimentos e opiniões sobre um lugar. E que não formem um bias na minha cabeça atuando como um obstáculo às experiências novas que surgirão.

Inegavelmente amo quando formo a minha opinião pessoal de um lugar pelo que vivi lá. Assim, comparo com o que o guia diz e percebo que foi muito diferente do que o que estava escrito ali. E amo quando as pessoas escrevem sobre as percepções delas, compartilham experiências e mostram que há muito mais num destino que o que um guia puntual no tempo diz. Nesse sentido, ainda bem que hoje temos milhares de blogs de viagem espalhados pela rede para acumularmos mais e mais opiniões sobre os 5 cantos do planeta. Afinal, guias de viagem indicam, acrescentam até. Mas não garantem – ainda bem.

Guias de viagem não são leis

Em minha opinião, não se pode ler um guia de viagem esperando ter no destino escolhido as mesmas experiências que a pessoa que o escreveu. Porque o que está ali é isso: a vivência de uma só pessoa. O endeusamento de um livro como “neutro” feito apenas para guiar (não é um livro de regras…) é algo que não cai muito bem para mim.

Mas acho que a indústria dos guias de viagem vai de encontro ao que o público padrão pede. E, nesse caso inegavelmente, há uma parcela de culpa do comodismo geral das pessoas. Que têm medo de se aventurar em lugares novos. E, principalmente, querem ter 100% certeza de que nada sofrerão de imprevistos em seu passeio. Ironicamente, minha experiência é de que todas as viagens que fiz na vida tiveram algum imprevisto. Contudo, são estes imprevistos muitas vezes a parte mais divertida do ato de viajar. Porque testam a nossa capacidade de se surpreender, de sentir, de amar um lugar.

Por isso, mais uma vez concordo com Jeffrey White. E espero imensamente que essa confusão do Lonely Planet sirva para que as pessoas abram os olhos para até que ponto elas devem confiar num guia. Além disso, a partir de que ponto elas simplesmente devem deixar o lugar acontecer em suas vidas. Para que elas se desprendam mais durante uma viagem, andem um pouco sem rumo e de cabeça aberta.

A experiência global provavelmente se enriquecerá dessa forma, passando de efêmera para indelével.

Tudo de bom sempre.

O escândalo do Lonely Planet

“Viajar é, pela minha definição – e eu espero que pela sua também – uma experiência absolutamente feita para ser compartilhada. E se você for sortudo o suficiente para descobrir uma experiência e conseguir compartilhá-la com alguém que você considera na vida – uau, não dá para ser melhor que isso.”

(Peter Greenberg, consagrado escritor de livros e guias de viagem, em entrevista ao Vagabonding.)

P.S.

– Só para lembrar, amanhã é o Dia da Terra e tem postagem coletiva para ela, nossa casa.



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