Debates do Faça: Biodiversidade e Agricultura

Hoje começa o grande Ciclo de Debates Ambientais do Faça a sua parte. Eis abaixo meu post especial de abertura pro evento, para entrar na ciranda de discussões. Sobre biodiversidade e agricultura – que hoje, 22 de maio, é o dia mundial da biodiversidade.

A iniciativa dos debates é uma tentativa de estender as discussões do 5 de junho, dia mundial do meio ambiente, para além da data – por 3 semanas, mais especificamente. Nossos posts têm o intuito de abordar diferentes tópicos do ambientalismo atual e de preferência trazer um debate saudável sobre esses tópicos. Muitos destes tópicos polêmicos, sem dúvida. Vai ter de aquecimento global a meio ambiente humano. Portanto se você quiser participar, discutir, comentar, compartilhar informações, medos, ações, idéias… a caixa de comentários do Faça está à disposição!

Biodiversidade e Agricultura

A escolha da data de hoje para começar o ciclo de debates não foi aleatória. Dia 22 de maio comemora-se o dia mundial da Biodiversidade. O tema para a data desse ano é “Biodiversidade e Agricultura”. Afinal, eu não sabia, mas estamos no Ano Internacional da Batata (?!?!). Acima de tudo, o tema é o reconhecimento de que tal atividade humana, que nos deu tanta vantagem adaptativa perante as outras espécies e se tornou imprescindível para a nossa sobrevivência, também oferece impactos ao ambiente e principalmente, à diversidade.
Se pararmos para pensar, nada é mais “biologicamente monótono” que uma fazenda de plantação em escala, seja banana, batata ou tomate. É irônico, aliás, unir os dois termos, biodiversidade e agricultura, numa frase só – principalmente para mim, que estou acostumada com biodiversidade marinha, com dilemas de extinção da fauna selvagem e afins. Porque nada está mais longe da diversidade para mim que uma fazenda de qualquer coisa. Estudei em universidade agrícola, tive aulas de melhoramento genético de plantas, e sempre a monotonia da agricultura me incomodava. Mesmo quando o professor insistia em suas “benesses”. Mesmo quando há um rodízio de culturas na fazenda (o que em geral acontece em fazendas de hortaliças), o impacto visual continuava sendo deprimente.
Vocês se sentem assim, também, tomados por um desconforto intermitente perante a visão de uma cultura?
Biodiversidade e Agricultura

A monotonia da monocultura agrícola…

O exemplo do tomate

Pois sabemos que uma boa nutrição humana requer variedade de alimentos, muito mais que qualidade. E é exatamente no quesito variedade que a agricultura peca, por razões econômicas, culturais ou até ambientais. Se você for no mercado ou na feira aqui no Brasil, por exemplo, o máximo que você encontra são 4 variedades de tomate: caqui, cereja, Santa Cruz e saladinha. Ressalto que os nomes das variedades mudam em cada região. Em São Paulo, na feira do Ceagesp, vejo italiano, débora, cereja e tomatão. Mas não sei se correspondem similarmente às variedades acima.
Mas fato é que existem na realidade 9 variedades plantadas no Brasil – tirando o longa-vida, que vai a maior parte pra indústria de ketchup – e mais de 50 sendo testadas. Onde estão essas variedades nas prateleiras dos mercados? Por que a qualidade do tomate ainda não é satisfatória, o gosto ainda deixa a desejar? Mais importante: onde estão as variedades selvagens, fundamentais para a manutenção do estoque gênico da espécie? E o tomate é apenas um exemplo, porque a ausência da variedade selvagem faz-se clara em qualquer outro vegetal utilizado para alimentação humana…
Qualquer biólogo sabe (ou deveria saber…) que dentro de uma espécie, quanto maior variabilidade genética, maior capacidade de adaptação às intempéries. Por conseguinte, maior probabilidade de que a espécie sobreviva em situações limites, como as que enfrentaremos em futuro próximo com o aquecimento global. Iniciativas como o recente Seed Vault na Noruega são importantes para a manutenção dos estoques da biodiversidade. Entretanto, funcionam meio que como um museu ou herbário, estaticamente. E a diversidade no ambiente natural, quando as espécies se entrelaçam e o sistema se torna altamente dinâmico, como fica? E a diversidade de culturas agrícolas? Estamos mantendo a biodiversidade agrícola e garantindo assim nossa passagem pelas intempéries que virão? Qual o papel dos transgênicos nesse cenário todo? E o velho melhoramento genético, em que difere em relação a impactos ao ambiente da introdução de transgênicos?

Um viva à diversidade genética agrícola

Quando penso nestas questões, passa a fazer todo sentido terem escolhido o tema “Agricultura” para o dia da Biodiversidade esse ano, com ênfase especial na prática da biodiversidade nos agro-ecossistemas e na interface deles com ecossistemas selvagens. Porque há de manter a diversidade genética de cada espécie cultivada. Isto pode evitar impactos negativos no futuro e garantir de tabela eventualmente comida para todos. Há de se pensar no ambiente como um todo. Humanos e animais selvagens, plantas cultivadas e peixes para consumo, e como todos eles interagem entre si. Não é pouco trabalho, admito. Mas é essencial para que entendamos essa rede de conexões para tomarmos medidas o menos impactantes possíveis. Medidas estas que deixem o menor nível de preocupações para as gerações futuras – os meus, os seus, os nossos netos e bisnetos.
Ainda me faço outras questões: qual é o impacto direto real que as agriculturas geram no ambiente selvagem ao redor? Será que os grandes plantadores se perguntam isso antes de tomarem a decisão sobre o quê plantar em suas fazendas? E a biodiversidade que está ao redor, é analisada? Será que se tivéssemos maior diversidade de escolhas de frutas, hortaliças e afins para plantar e comer, estaríamos melhor ou pior economicamente? O ambiente geral, selvagem e humano, estaria menos impactado? A biodiversidade agrícola é enfim praticada? Há esforços nessa direção?
São questões, enfim. Que deixo em aberto para discussão em nosso ciclo de debates. Sintam-se à vontade para opinar.

Tudo de verde sempre.



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