Entre os pingüins de Magalhães

A estrada é de ripio, pedrinhas redondas e soltas cobrindo o barro – mas as obras de asfaltamento já estão quase chegando lá. Por enquanto, porém, boa parte do caminho para Punta Tombo, na Patagônia Argentina, é árduo, cheio de poeira e vento, numa planície monótona de tão homogênea em sua vegetação.

Mas Punta Tombo, local ao sul de Puerto Madryn (província de Chubut) é uma parada obrigatória da Patagônia para quem curte vida selvagem. É lá, numa pequena península de menos de 7 km, que está a maior colônia de pingüins de Magalhães (Spheniscus magellanicus) do planeta: cerca de 500.000 pingüins (dos 1.8 milhão que existem ao todo no mundo) fazem da Pinguiñera de Punta Tombo o local certo para quem quer se aventurar com essa espécie sem ter gelo por perto. E eles encantam à primeira vista.

Assim que chegamos na entrada do parque, depois de pagar a taxa de 30 pesos obrigatória a todos que não são argentinos, o guia nos forneceu um folheto e as explicações básicas: “não pode encostar nos pingüins, eles têm preferência quando atravessarem qualquer área, você não pode sair do caminho demarcado para turistas, evite gritar ou fazer movimentos bruscos que assustem o animal, e pode fotografá-lo à vontade”. Essa última parte foi a que mais me animou – mas é que eu ainda não tinha noção da espetacularidade que estava prestes a presenciar.

A entrada do parque com a indefectível lojinha.

Um pingüim de Magalhães em pose. A penugem sendo trocada faz parecer que ele está com um gorrinho andino.

A trilha pelo parque tem 3.5 km, que você percorre à pé, saindo da entrada do parque a 1km do mar e caminhando em caracol na direção da praia. Mal eu saí da frente do guia, e já comecei a perceber uns pontos pretos cobrindo todos os pequenos morros da área. “Que engraçado esses arbustos…”, pensei inocentemente. Bastou que eu desse mais alguns passos para perceber: eram todos pingüins, o morro estava completamente coberto por eles. Achava que os encontraria apenas próximo à praia, mas ali, ainda afastados do mar, eles já se faziam presente – para um pingüim e sua falta de jeito para andar sobre duas patas, aquela distância parecia muito.

Uma visão geral da Pinguiñera de Punta Tombo, com alguns ninhos visíveis em buracos na terra.

Logo senti que aqueles 3.5 km de trilha seriam percorridos facilmente – estava certa. Era início de abril e cada casal de pingüim estava em seu ninho, mudando de pêlo e se preparando para a grande jornada que em breve enfrentariam – é a mais longa jornada de uma ave que não voa. Afinal, os pingüins de Magalhães possuem um cronograma muito pontual de seu ciclo de vida.

No final de abril, após o período reprodutivo findo, saem ao mar, filhotes e pais, em direção às águas mais quentes ao norte da Argentina, no litoral do Uruguai e do sul do Brasil – alguns se perdem do bando e vão parar inclusive no Rio de Janeiro. Ficam no mar aberto, em grupos, até setembro, quando os machos começam a voltar para sua colônia (há colônias por toda a costa da Patagônia argentina e chilena e nas Ilhas Malvinas/Falklands). À medida que chegam, os machos escolhem o local do ninho da temporada que começa – e os primeiros a chegar pegam, é claro, os melhores ninhos, geralmente mais protegidos por pedras, arbustos ou troncos retorcidos da vegetação rasteira patagônica. Duas semanas depois, é a vez das fêmeas começarem a aparecer vindas do mar. Em outubro, o casal põe dois ovos, e o macho vai ao mar para recolher comida, ficando em torno de 15 dias nadando. Quando retorna, troca de turno com a fêmea, que agora sai para comer, enquanto o macho cuida dos ovos e do ninho. Em novembro, após 40 dias de incubação, os filhotes nascem, e os pais continuam se revezando no cuidado da prole, aquecendo-o. Em dezembro e janeiro, os pais ainda alimentam os filhos, mas começam a deixar os filhotes sozinhos no ninho enquanto saem para caçar – e é nesse momento que a maioria dos predadores ataca. Em fevereiro, os pingüins jovens mudam de pêlo e começam a praticar seu comportamento reprodutivo, escolhendo uma fêmea. Em março e abril, é a vez dos pais mudarem o pêlo, e se prepararem para sair ao mar.

Todo ano é assim. Pontualmente.

Essa dedicação que os pingüins de Magalhães possuem com a prole é fascinante do ponto-de-vista científico – imagino que especialistas de comportamento animal e/ou em relógio biológico devem delirar com a espécie, seu monogamismo e sua dedicação parental. Esses pingüins são considerados pela lista vermelha oficial da IUCN como “quase ameaçados”. Entretanto, fascinante também para mim era estar ali, na maior colônia, ao lado deles, vendo-os tão de perto. Cada casal ocupava seu ninho, e de vez em quando, iniciavam uma verdadeira “guerra” de cantoria: uma dupla cacarejava ao máximo até perder o fôlego; depois vinha a dupla vizinha e começava a fazer o mesmo, tentando superar o vizinho; aí uma terceira dupla se juntava ao show e gritava mais alto ainda. Uma festa.

Dois casais ou duas duplas patagonejas em duelo de cantoria? 😀

Como são quase meio milhão de pingüins ali, inúmeras vezes eles cruzam a trilha, e se deparam com você. Na realidade, o pedido do guia da entrada de Punta Tombo podia agora ser melhor entendido: você tem que tomar cuidado para não tropeçar no bicho (e levar uma bicada), tamanha a quantidade. Há vezes que só parando e esperando a caravana passar. Inaceditável.

Como você interage com o pingüim em Punta Tombo: praticamente cara a cara.

E André, o fotógrafo do blog, parava inúmeros momentos para registrar imagens cada vez mais desafiadoras – ali, é quase impossível não conseguir uma foto alucinante do animal, porque é facílimo ter um close, basta ficar parado em certos pontos da trilha. Em dado momento, ele pôs a câmera na cara do pingüim, que, não entendendo o que aquela caixa preta era, deu uma bicada curiosa na lente – e era uma vez uma grande angular…

Fotografar o pingüim de Magalhães em Punta Tombo não é complicado. O animal está muito perto da gente, o que facilita para se obter bons close-ups – embora isso possa custar um arranhão na lente…

Como eles invadem as trilhas sem pudor – para alegria dos visitantes.

Na beira da praia, com mais pingüins indo e vindo da caça no mar, toda aquela cena se tornava mais surreal ainda. Sempre associamos pingüins com frio e gelo, e ali só o vento frio havia, nenhum gelo. Era delicioso perceber o quanto aqueles seres tão desengonçados para andar se transformavam em torpedinhos hidrodinâmicos quando entravam no mar bravio do local. E eles mergulhavam, voltavam, brincavam, gritavam, brigavam… o passar da vida dos pingüins ali, na nossa frente, por quanto tempo tivéssemos para vê-los.

Pingüins descansando na praia de pedrinhas.

Um dos pingüins se prepara para cair um pouco no mar gélido da Patagônia.

Mas logo chegou a hora de voltar – são 180 km de estrada até Puerto Madryn, boa parte em ripio, que você não quer enfrentar de noite. Fomos vagarosamente andando pela mesma trilha até o estacionamento, onde a última surpresa do passeio nos aguardava: um pingüim estava debaixo do carro do guia, sabe-se lá fazendo o quê. Ele parecia nem ligar pro fato que seu derredor era de concreto, e estava ali, ao lado da roda, fazendo-a de ninho temporário. Depois de observá-lo um pouco, pegamos nosso caminho de volta a Puerto Madryn. Com uma certeza: a visão e a interação com meio milhão de pingüins num local só tão pequeno é uma das maiores atrações de vida selvagem do planeta. E vale cada ripio da dura estrada para chegar lá. Simplesmente imperdível.

Tudo de pingüim sempre.

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– As informações biológicas para esse post eu obtive no Ecocentro de Puerto Madryn, onde há especialistas em pingüim trabalhando. As informações turísticas vieram da minha experiência no local e dos folhetos maravilhosos que a Secretaria de Turismo de Rawson (capital da província de Chubut) nos deu. Recomendo a passada pelo escritório deles antes do passeio: fica na frente da prisão municipal.

– Esse post é a minha contribuição para o projeto Blogueiro Repórter, idéia simpática do Edney.



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