Viajando por email: Almirante Nelson

por: Lucia Malla Amigos de viagem, Antigos, Blog, Blogosfera & mídia social, Entrevistas, Viagens

Ele não é médium e não traz a pessoa amada em 3 dias, como está claramente colocado em seu blog. Ele é talvez um amálgama entre Lord Horatio Nelson (donde a pose e o fleuma), o Capitão Ahab de “Moby Dick” (daí suas recorrentes e nostálgicas citações à cidade de Nantuckett) e o pirata Henry Morgan (o que explica suas impiedosas pilhagens pelos oceanos afora). Se bem que falar em amálgama para ele é puxar briga, porque aí ele se lembra do dentista incompetente que o atendia na embarcação até a semana passada, e que já foi devidamente posto para andar na prancha. Entretanto, nada acima dito resume o que ele realmente é: o genial Almirante Nelson (ou seria Ao Mirante, Nelson?), que foi capaz de transportar os diálogos de Platão para os tempos de MSN, o cardápio do banquete do mesmo filósofo e de relatar como seria a Santa Ceia pelo twitter – este último post até citado pela Folha, tamanho o impacto da viagem na maionese maravilhosa entre tecnologia e realismo fantástico. E esses são apenas três momentos de corroboração da sua genialidade no papel virtual; outros vocês acharão sem dúvida ao navegarem pelas redes almirânticas. É sem dúvida um dos meus blogs prediletos de cabo a rabo – ou melhor seria dizer de marujo a almirante, indeed? 😀

Divirtam-se com a entrevista dessa persona grata da blogosfera brasileira, com quem tenho a honra de ser roomate aqui na casa Interneyética: o superbo Almirante Nelson, enquanto pessoa e em nível de ser humano.

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– Você se considera mais ecoturista ou é mais adepto aos passeios urbanos?

Almirante Nelson: Ah, me considero basicamente um rato citadino, se bem que o pessoal da Invencível Armada adora me chamar também de rato de navio e rato de porão. O próprio Napoleão me apelidou rato de esgoto, mas você já viu o estado sanitário de Paris na época dele?

– E hoje, você sabe como anda o estado sanitário de Paris? Participou de algum dos tours pelos esgotos insanos de Victor Hugo?

Almirante Nelson: Sim, inclusive quando flagrei o Jean Valjean roubando pão tive que aconselhá-lo a deixar de pensar pequeno e a freqüentar pâtisseries pra roubar brioches. Parece que esse povo não aprendeu com a Maria Antonieta, caramba.

– Como você escolhe seus destinos?

Almirante Nelson: Eu poderia citar o Paulinho da Viola e afirmar que “Não sou eu quem me navega, quem me navega é o mar”, mas depois daquele rolo todo entre ele e os outros cantores no Reveillon de 95, em Copacabana, por conta de cachê, prefiro me calar. Dou valor aos dobrões que já pilhei.

– Quais dobrões em especial?

Almirante Nelson: Me lembro com arrebatada emoção daqueles que saqueei da frota do Jerry Bruckheimer, no Caribe, por ele não ter me pago pela consultoria profissional que prestei praquela trilogia cinematográfica vagabunda sobre piratas. Foi um belo butim. Os filmes não naufragaram na bilheteria, pelo contrário, mas os navios foram a pique mesmo.

– Qual foi sua viagem inesquecível? Por quê?

Almirante Nelson: Ah, foi uma viagem que fizemos pra tomar um porto em Gibraltar, e saqueamos na ocasião mais de duas toneladas de pistache, que abarrotaram o porão da nau. O problema é que o pistache mediterrâneo tem um sabor peculiar, bem forte, principalmente depois que é ingerido. Nas semanas seguintes, sempre que arrotávamos, lembrávamos da tal viagem. Foi inesquecível.

– E qual foi a pior viagem que fez? Por quê?

Almirante Nelson: Ah, a viagem a Trafalgar. Até porque foi nessa batalha que eu morri, né? Tudo bem que depois dela ganhei aquele obelisco lá em Trafalgar Square, em Londres – mas você já viu a altura do bicho? Se eu não mantiver o equilíbrio, despenco dali e morro de novo.

– Há algum outro ponto em Londres que lhe seja caro em memórias?

Almirante Nelson: Caro em memórias eu não sei, mas um ponto londrino caro ao bolso é a Carnaby Street. Sempre compro as roupas para Millicent e suas meninas por lá, o que me faz pensar que vou ter que triplicar minhas pilhagens pra continuar dando conta. Aí você vê como até o mais honesto saqueador tem que dar duro hoje em dia.

– Qual a comida mais exótica/estranha que já comeu numa viagem?

Almirante Nelson: Ah, sem dúvida a mais estranha foi um frango xadrez que pedi no China in Box lá em Nantuckett. Acredita que chegou em menos de dez minutos? Muito, muito estranho…

– Você tem alguma mania ao viajar? Tipo colecionar fotos de orelhões, beijar o chão ao chegar, etc.?

Almirante Nelson: Geralmente eu beijo os orelhões e fotografo o chão. Quando volto de uma viagem e reúno a marujada para mostrar os slides de todos os chãos que fotografei, os pascácios chegam a cochilar. Nada que umas três ou quatro chibatadas não resolvam.

– Os homens do mar são conhecidos por gostarem de tomar rum em suas jornadas pelos oceanos do mundo. Você também é fã de rum? Ou há outra bebida alcóolica que mais lhe apraz?

Almirante Nelson: Olha, recentemente eu misturei rum, gelo, açúcar e limão e, do alto de minha inenarrável criatividade – sim, eu também estava bêbado – batizei a batida de Caipirata. Meus marujos adoraram a idéia e me aconselharam a registrar o nome pra faturar uma grana sempre que o drink fosse pedido em qualquer canto do mundo. Mas desconfio que essa adulação toda é porque dia desses falei que estava pensando em renovar o plantel das meninas de Millicent. Bando de puxa-saco.

– Qual sua trilha sonora preferida durante uma viagem? Alguma música em especial?

Almirante Nelson: Ah, adoro o tilintar dos dobrões pilhados. E sabe o ruído da máquina registradora do London Scottish Bank, sempre que um depósito é feito lá? Aquilo é música pros meus ouvidos.

– Qual o souvenir mais exótico que já trouxe de algum lugar?

Almirante Nelson: Um cardápio de um restaurante londrino, com pratos apetitosos, sortidos e bem balanceados. Você acredita, comida decente, em Londres? É meu souvenir mais exótico.

– Realmente, esse souvenir é uma verdadeira raridade!

Almirante Nelson: Sim, mais raro do que garçom parisiense bem-educado.

– Uma dica sua especial.

Almirante Nelson: Simples: quando você for descascar batatas no porão de um navio, tente sempre retirar a casca numa tira só, porque se ela sair em lascas e sujar o chão, fica muito bem mais complicado pra limpar e… Er. Você falava de dicas de viagem?

– Falava, mas inclua-se aí os transtornos do transporte, sem problema algum. Mas há alguma dica especial de um local que você passou em sua longa carreira almirântica?

Almirante Nelson: Ah, Nantuckett. É sempre pra lá que eu volto depois das longas jornadas pelos sete mares. Não sei o que acontece, só sei que volta e meia minha maldita nau aporta lá, diabos. Já tentei ver se é problema no leme, no timão, na bússola. Vai saber.

– A próxima viagem é para…

Almirante Nelson: Nantuckett, agora mesmo. Millicent já deu o ultimato. Ela sempre estabelece o prazo, quando dou entrevistas a mulheres: cinco minutos improrrogáveis. Já deu cinco e um, e prevejo que por conta disso deverei hoje encerar todo o chão, além de cortar sozinho as unhas de minha mão esquerda. Tudo bem que não tenho o braço direito, mas ela acha que reclamar disso é muita manha. Fazer o quê?

– Então vou dar razão a Milicent e te pedir, nessa era da web 2.0 tecnopirata, para finalizar me contando aos moldes do twitter (140 caracteres no máximo) o que é viajar para você…

Almirante Nelson: Navegar é preciso, andar é cansativo, voar é mais rápido. Eu ia também recitar uma trovinha inglesa, mas parece que aí já deram os 140 carac



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