A estrela-praga dos corais

por: Lucia Malla Animais, Corais, Ecologia & meio ambiente, Oceanos

Estrela praga dos corais

Mais uma vez, leio a notícia com relances de déja-vu: está tendo um gigantesco outbreak de estrela-do-mar coroa-de-espinhos (Acanthaster planci, em inglês crown-of-thorns), dessa vez nas Filipinas. Há pouco tempo foi na Indonésia. Há algum tempo foi na Grande Barreira Australiana. A notícia é preocupante, porque uma única coroa-de-espinhos consegue comer cerca de 6 metros quadrados de coral por ano, auxiliando na destruição de muitos dos recifes, e parece estar se espalhando. As Filipinas são portanto apenas mais um local onde essas estrelas-do-mar estão atuando, verdadeira praga dos corais do mundo atual aquecido e poluído. Como se já não bastasse a ameaça humana, os corais ainda têm que lidar com essa ameaça “natural”, que se repete em diversos pontos distintos do planeta, do Pacífico ao Índico, de norte a sul.

Antes acreditava-se que os outbreaks de coroa-de-espinhos eram causados pela ausência do predador do bicho, uma concha do tipo triton. Isso porque achava-se que o único predador da estrela-do-mar era esse molusco, que desaparecera por causa do mercado de conchas. Entretanto, hoje já se sabe que a coroa-de-espinhos pode ser alimento de alguns peixes e do camarão-arlequim, aumentando assim a possibilidade de seu controle natural.

Muitos ecólogos argumentam que o fato da coroa-de-espinhos comer corais auxilia na manutenção do equilíbrio da população coralínea, contendo seu crescimento exagerado e favorecendo as espécies mais aptas – as coroas-de-espinho estão a pelo menos 8,000 anos fazendo isso. A coroa-de-espinhos serviria, nessa visão, como importante força seletiva do ecossistema. Mas os outbreaks constantes, com a população em até 6 ordens de magnitude acima do normal, insinuam obviamente que algo além da simples luta pela sobrevivência ecológica está acontecendo no ecossistema.

Ainda há muito debate nas reais causas dos outbreaks de coroa-de-espinhos pelo mundo – mas eles continuam acontecendo em níveis letais pra muitos recifes no mundo (há áreas que perdem mais de 90% da cobertura de coral por conta da ação exclusiva dessa estrela). Sabemos que resíduos agrícolas de fertilizantes eventualmente chegam ao mar. Quando se acumulam em áreas de recife de coral, “enriquecem” de maneira artificial a água e propiciam com que certas espécies se multipliquem com mais facilidade. Uma delas é a estrela coroa-de-espinhos. Além disso, temperaturas oceânicas mais elevadas (típicas de nosso mundo neo-aquecido) parecem também favorecer a coroa-de-espinhos e aumentar seu apetite voraz, além da pesca exacerbada de um dos seus predadores mais valorizados, o peixe-napoleão.

A coroa-de-espinhos em ação, se alimentando de um coral. Abaixo, um detalhe de seus espinhos.

E outro problema se junta aos 3 acima ditos: a coroa-de-espinhos normalmente se alimenta de corais duros, do tipo Acropora, que crescem facilmente. Quando a estrela está em números normais, realmente tudo que faz é controlar o crescimento desses corais. Acontece que quando sua população chega a uma densidade absurda como vemos nos outbreaks, ela começa a se alimentar de qualquer coral que veja pela frente, e até de algas. Ou seja, de predadora específica passa a inespecífica e aumenta exponencialmente o potencial de destruição.

Gráfico dos outbreaks de coroa-de-espinhos na Grande Barreira de Corais na Austrália. Qualquer valor acima de 0.25 de densidade populacional já é considerado um outbreak. Retirado daqui.

Os primeiros grandes outbreaks registrados aconteceram na Grande Barreira de Corais na Austrália. Para resolver o problema, destruía-se o animal esmigalhando-o – método não muito eficiente, porque a estrela tem poder de regeneração quando seus órgãos internos não estão danificados. Depois, já na década de 80, os cientistas passaram a injetar veneno (sulfato de cobre) na estrela, e a cada mergulho uma média de 120 estrelas era sacrificada – mas estavam sem querer também envenenando, em menor quantidade e indiretamente, o recife de coral. Hoje, esses métodos são menos usados e tenta-se diminuir a população exagerada das coroas-de-espinho colocando-se cercas subaquáticas ou retirando-as do local e queimando/enterrando em terra firme. Nenhum desses métodos é 100% eficaz para outbreaks fortes, como os que são noticiados na mídia, porque requerem voluntários em grande número para fazê-los e/ou geram impedimentos vitais aos demais elementos da fauna marinha.

A estrela-do-mar coroa-de-espinhos é provavelmente o equinodermo mais estudado do planeta. Entretanto, muito mais pesquisas são necessárias porque o problema dos outbreaks nitidamente não acabou, como pude perceber lendo o noticiário da semana. Quanto tempo demorará para eu ler que acharam a solução definitiva para mais esse problema espinhento que destrói os recifes de corais do mundo?

Tudo de mar sempre.

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– E já que o assunto é destruição dos corais, o blog The Lede, do NYTimes, postou semana retrasada sobre como o uso de protetor solar pelas pessoas que mergulham ou nadam próximo a recifes é danoso ao ecossistema (assunto que o Caio já havia tratado em seu blog há meses…) Mas a dica que fica é: da próxima vez que for mergulhar, não use protetor solar. Use uma camiseta: é tão eficiente quanto o protetor na luta contra o câncer de pele. Tem umas fofas de C-tex, que além de serem o equivalente a um protetor filtro 50, também não te deixam correr o risco de estar fora de moda na praia. 🙂

– Sobre população em demasia, recentemente se descobriu a apenas 90m de profundidade, no topo de uma montanha submersa da Antárctica, uma verdadeira “cidade” de ofiuróides, um tipo de estrela-do-mar. O que nos mostra o quanto ainda desconhecemos do fundo do mar.



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