Gould Maravilhoso

Eu era uma mera estudante do curso de biologia quando fui apresentada pela primeira vez ao livro “Vida Maravilhosa”, do Stephen Jay Gould. Ainda não havia cursado a disciplina de Evolução e recebi o livro meio sem saber do que se tratava. Mas encarei o desafio de ler.

Em “Vida Maravilhosa”, Gould conta a história dos achados fósseis de Burgess Shale, um sítio paleontológico (patrimônio mundial da UNESCO) no Canadá do período Cambriano, onde muitos fósseis foram retirados com sua parte mole ainda incrivelmente preservada. Estamos falando aqui de 530 milhões de anos atrás, aproximadamente. Tamanha raridade permitiu aos cientistas uma reconstrução mais robusta da fauna da época e enriqueceu os anais da biologia com esse dado valiosíssimo.

O livro não fica só nessa história paleontológica. O achado de Burgess Shale é o pano de fundo para a verdadeira discussão que Gould quer deixar ao leitor, sobre Evolução da vida. É nesse livro que ele estabelece a famosa metáfora de se “repassar a fita da vida”, o que segundo ele provavelmente teria impedido que nós, humanos, estivéssemos evoluído e chegado aqui hoje para contar a história. E foi essa perspectiva do livro que iniciou uma verdadeira revolução na minha visão de biologia.

Passei a devorar os livros do Gould, um a um – e ainda leio com gosto, outro dia mesmo reli “A galinha e seus dentes”. Ele estudou paleontologia de invertebrados durante a vida e contribui decisivamente para a teoria do equilíbrio pontuado, que recentemente vi seu companheiro Eldredge contar um pouco mais em uma palestra. Gould tinha paralela às suas atividades científicas e seus combates anti-creacionismo, uma predileção especial por contar histórias da vida natural e da evolução dos seres vivos muitas vezes complexas em poucas páginas, demonstrando uma capacidade de síntese fenomenal. Livros como “O Polegar do Panda“, “Viva o Brontossauro” e “O sorriso do flamingo” são coletâneas dessas historietas, tão saborosas quanto enriquecedoras. O tratamento da linguagem simples com que ele expõe as questões mais impressionantes, bizarras e interessantes do mundo natural para o leitor em todos seus textos são uma prova cabal para mim de que a ciência consegue ser uma leitura prazeirosa para todos, cientistas ou não.

E, por causa disso, o Gould era uma dessas pessoas que eu queria abraçar na vida e dizer: “Você é o máximo!” Quando fui morar em Boston, um dos meus sonhos era um dia “esbarrar” sem querer com ele ou assistir a uma palestra proferida por ele. Uma noite, em pleno Harvard Yard, eu estava sentada num banquinho com uma amiga e ele passou (!!!) em frente ao banco onde eu estava – e perdi a voz ao vê-lo, entrei em estado catatônico de fã. Situação patética, no mínimo. Ele simplesmente continuou andando, eu de olhos arregalados, querendo falar sem conseguir; ele nem reparou naquela cena pastelão. E eu perdi a única oportunidade que tive de abraçar meu grande ídolo da biologia.

Em 2002, faltando 2 dias pra eu me mudar de Boston, Gould faleceu, de uma patologia que na época eu estava estudando colateralmente, o mesotelioma abdominal (estudei o mesotelioma do pulmão), um tipo de câncer agressivo e que em geral leva à morte em menos de um ano após diagnose. Ele viveu 20 anos depois de diagnosticado (!), e se ofereceu como cobaia para vários testes. Um dos médicos que o tratava trabalhava com a gente e ficou muito abalado ao saber da sua morte, pois muito mais que um mero paciente, ele foi um cientista espetacular ajudando com conclusões brilhantes a desvendar um problema sério. Ele trabalhou intelectualmente junto com seus médicos elaborando hipóteses e experimentos, entendeu a estatística envolvida na literatura que afirmava que sua perspectiva de vida era de menos de um ano. Enfim, lutou com a melhor arma que temos contra adversidades de sua saúde: o conhecimento. Foi um exemplo até na morte. Após sua partida, fui fazer minha “reverência final” a ele visitando mais uma vez a coleção do Museu de História Natural da Harvard, em Cambridge. Museu que ele tanto ajudou na parte de zoologia comparativa, e cuja coleção paleontológica ele tinha tanto orgulho. E eu percebi naquele momento egoísta em frente aos moldes de um Archeopterix que meu ciclo em Boston tinha acabado: uma das minhas “razões” de estar lá tinha morrido.

Gould Maravilhoso

Mas minha admiração por seu trabalho de divulgação da Evolução persistiu, assim como minha admiração por alguns de seus projetos, como o livro de arte feito com Rosamond W. Purcell “Crossing over – where art and science meet” (estilo coffee table book) que descobri por acaso num passeio pela Barnes & Noble’s da Kenmore Sq. num sábado à tarde. Nesse livro, os autores valorizam e explicam delicadamente a intersecção magnífica da ciência com pintura, escultura, fotografia… o livro é uma pérola que demonstra o quão sensível Gould era (ou pelo menos parecia ser). Um grande exemplo de pessoa, enfim.

E é por toda a contribuição maravilhosa que Gould trouxe à ciência e principalmente ao público em geral, pela hombridade que demonstrou ter com a vida, pelos erros e acertos que cometeu sem se tirar o sorriso do rosto, que eu o considero um dos grandes cientistas que eu vi passar. Literalmente.

Tudo de bom sempre.

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– Esse post faz parte da blogagem coletiva “Um cientista em minha vida”, organizada pelo Carlos Hotta e pelo Atila. Para mais posts participantes, visite os 2 blogs.

– Coincidentemente, ontem meu sogro estava arrumando uns livros antigos aqui de casa, que pertenciam à minha sogra, e achou um exemplar de “Dedo mindinho e seus vizinhos” (“Eight little piggies”, em inglês). Autografado pelo próprio Stephen Jay Gould.



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