Ciência – verba e verbo

por: Lucia Malla Brasil, Ciência, Economia, Política

Leio semana passada no ótimo blog da Ísis a notícia de que o governo federal, via CNPq, quer formar pelo menos 50 Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia, principalmente nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste. Dedicará para tal uma verba de R$270 milhões e, caso outras agências de fomento entrem na jogada, o valor final dessa empreitada pode chegar a R$400 milhões. Os focos de estudo desses centros variam, mas ênfase declarada será dada em pesquisas sobre biocombustíves, Amazônia, espaço, física nuclear, agricultura e saúde.

Sinto-me tentada a deixar aqui um pitaco malla.

Ciência - Verba e VerboVeja bem, a perspectiva de verba entrando na ciência & tecnologia brasileira deve ser em minha opinião sempre comemorada. Principalmente se relevarmos o descaso prático com que a atividade científica é encarada normalmente pela política (basta perguntar para qualquer cientista que atue aqui sobre essas dificuldades, principalmente burocráticas, para se exercer a ciência).

Mas apesar disso, na teoria, o orçamento total do governo dedicado ao Ministério da Ciência e Tecnologia – R$10 bilhões em 2008 – é até razoável. Portanto, a verba acima é coerente, se compararmos por exemplo com os R$1.1 bilhão que foram destinados em 2008 ao Ministério da Cultura. Mas ainda aquém do que os EUA investem em média em pesquisa – só o NSF pode receber em 2009 US$6.85 bilhões (de dólares). A comunidade científica americana também é maior, há mais centros de pesquisa, o que talvez explique também a necessidade de mais verba, etc. Por aí vai.

No Brasil, é necessária também a descentralização. A maior parte da ciência brasileira é feita nos estados da região sudeste, principalmente São Paulo. É a região sudeste que forma o maior número de cientistas, indivíduos que podem encher os institutos de pesquisa almejados pelo governo. Só que paradoxalmente a maior parte dos “grandes” problemas brasileiros relacionados à ciência estão em outras regiões: a conservação da Amazônia, a expansão agrícola no cerrado, a saúde pública no interior. Portanto, é com bons olhos que vejo a tentativa do governo de incentivar a formação de mais doutores nas regiões não-sudeste.

Mas algo que me incomoda um pouco nessa notícia é a filosofia por trás. Sabe aqueles exemplos de hospitais novinhos em folha sem pessoal capacitado para trabalhar ali (médicos, técnicos em certos equipamentos, etc.)? Que terminam virando elefantes brancos em diversos municípios interioranos brasileiros? Ou então aqueles hospitais que começam muito bem e em alguns anos estão sucateados, porque a verba de manutenção foi deixada de lado? Pois tenho receio enorme de que o mesmo possa acontecer com esses institutos de pesquisa. Que eles padeçam da administração ineficiente.

Vejamos o exemplo das Embrapas. Já mostraram que são excelentes centros de pesquisa, muitas inovações saíram de dentro de seus laboratórios e casas de vegetação. Mas quem já visitou um desses centros (principalmente os mais afastados das capitais…), viu como muitos deles estão aos trancos e barrancos, por falta de manutenção e recursos humanos capacitados. Fora a questão do engessamento burocrático da instituição e dos baixos salários para o pesquisador, que torna muito mais difícil competir por ele com a iniciativa privada.

Outro exemplo: o INPA. Talvez o maior centro de pesquisas da Amazônia do mundo. E desde que eu me conheço por gente na biologia, sempre carente de pesquisadores que queiram ficar lá a longo-prazo – eu ouvi isso de diversos professores/conhecidos que passaram por lá em algum momento da vida acadêmica. Incentivar que os doutores formados localmente se tornem pesquisadores ali seria uma ótima medida, mas há de se ter mais incentivo (financeiro, intelectual, científico) que isso para que trabalhar na Amazônia e pela Amazônia se torne uma vantagem competitiva. Quantos dos doutores formados no sudeste querem ir para lá dedicar suas carreiras ao INPA? Atrair pesquisadores capacitados com melhores salários, menos dificuldades para se comprar equipamentos e insumos para o bom andar da ciência… é isso que se precisa. Dinheiro e recursos humanos adequados: política da verba e do verbo.

No final das contas, infelizmente a filosofia do governo com o anúncio de construção de mais institutos de pesquisa me soa como as obras do Maluf: constrói pra todo mundo ver que construiu e enche a boca sendo o “pai” da criança – mas a infra-estrutura básica por trás da “cidade” (no caso, muito mais amplo, por trás da política científica) deixa-se apodrecer. Numa analogia que me vem à cabeça agora: a “criança” sofre de inanição. Vai morrer? Então melhor nascer outra do zero – e não se discute nem se tenta salvar a criança da inanição enquanto dá. A criança ainda está viva, mas antecipadamente é dada como morta pelos pais. Que atitude é essa?

O Brasil já tem centros muito bons de pesquisa. Precisa de mais? Precisa, e como. Principalmente em áreas de ponta, como parecem ser as direcionadas pelo anúncio. Mas esses centros têm que nascer como complementos ao que já está aí, produzindo, formando, educando, criando, melhorando a ciência brasileira. O que está aí precisa ser fortalecido.

Por que antes de gastar construindo elefantes não se aplica a verba para melhorar o verbo, a voz e a força dos cientistas que já ralam horrores para produzir algo em meio a um sistema tão burocratizado, engessado e tributado? Por que não cuidar melhor da ciência que já se tenta fazer a parcos recursos? Por que não fortalecer o ambiente de trabalho já consolidado? Por que não dedicar pelo menos parte desses recursos para facilitar o processo de quem já produz ciência no Brasil?

Ares novos são necessários, pessoas com cabeças antenadas também, e a integração disso tudo com a experiência adquirida é combinação vencedora. Em minha opinião, seria interessante que o governo levasse essa leva de novos doutores para centros de pesquisa fora do eixo sudeste, mas pensasse também em reforçar o aprendizado e a criatividade onde já existe ciência sendo feita. Para tal, é fundamental se atrair com melhores salários e melhores condições para se fazer ciência, facilidades tributárias e na aquisição de materiais necessários para a pesquisa saudável. Novos cérebros em meio ao conhecimento de quem já está na área há um tempo. Um melhor ambiente científico/tecnológico como um todo, com apoio constante do governo através de sua política orçamentária estrutural sólida e definida. Verba e verbo integrados por um benefício em comum: a ciência brasileira.

Apesar de tudo, minha sensação é que estamos no caminho. Com alguns percalços e ajustes necessários ainda, mas no rumo certo. E isso é o mais importante. Aguardemos o que o futuro reserva a partir das ações de hoje.

Tudo de bom sempre.



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