Abelhudos

por: Lucia Malla Amigos de viagem, Animais, Brasil, Ciência, Educação, Minas Gerais

Durante minha vida acadêmica, tive a honra de conhecer, interagir e/ou trabalhar com diversos cientistas. A maioria memoráveis, alguns reconhecidos internacionalmente, outros bem low-profile e não menos competentes por causa disso. (Os ruins a gente esquece até o nome.)

Mas de todos, sem dúvida, o que me traz as melhores recordações é o professor Lucio, que já foi tema de um post por aqui antes. A última vez que estive com ele, em 2007, teve momentos no mínimo engraçadinhos que merecem ser relatados.

O Lucio é um do grandes “abelhudos”, ou seja, ele é um pesquisador de abelhas. Entende tudo sobre as espécies brasileiras, seu comportamento, sua citogenética esdrúxula e fascinante, sua evolução. É um dos responsáveis pelo Apiário da Universidade Federal de Viçosa, e muito dedicado àquelas colônias todas. Consagrado internacionalmente – e um grande amigo meu.

E eu não sou muito fã de insetos. Entendo a importância dos insetos para o ecossistema, para as pesquisas, sua arrebatadora maioria numérica no mundo atual. Mas não me apetecem como objeto de estudo. Abelhas são até bonitinhas, mas bom mesmo é “elas lá, eu cá”. Durante a graduação, tive que ir inúmeras vezes no Apiário atrás do Lucio para assinar papelada ou para conversar com alguém que trabalhava por lá. Sempre que ia, ficava na parte interna, nos escritórios, evitando andar pelo quintal onde as abelhas reinavam em suas colônias de caixas de madeira. Entretanto, adorava a cera e a geléia real que algum funcionário sempre oferecia para comer. (Só uma vez visitei as caixas e me mantive numa distância razoável saudável para meu receio insetal.)

E no ano passado, em abril de 2007, eu e André fomos convidados a dar uma palestra para a Semana de Biologia da UFV. E claro, o Lucio que além de professor é meu amigo, orquestrou uma visita VIP ao Apiário, para mostrar o mundo fabuloso dos himenópteros de estimação dele. (Parênteses: a ordem himenóptera é a mais numerosa ordem de insetos e agrega vespas, abelhas, formigas e marimbondos. Mas lá em Viçosa há o prédio do Insetário, onde as formigas ficam. O Apiário ficou dedicado aos himenópteros não-formiga: abelhas, vespas e marimbondos. Fecha parênteses.) E numa manhã cinzenta de abril, nós aportamos no Apiário, um lugar que eu recomendo a visita a qualquer curioso por abelhas que vá a Viçosa.

O Apiário da UFV tem um design super-interessante. O prédio é no formato de uma colméia, com salas e laboratórios hexagonais, e a gente se sente um inseto a colonizar cada ambiente. Você psicologicamente se transforma numa abelha, Ou no mínimo, num abelhudo. Numa das salas, fica a coleção entomológica, guardada com temperatura controlada em gavetas ordenadas por grupo taxonômico até subespécie, em alguns casos até tribo. As gavetas têm cheiro da naftalina usada para evitar que outros seres vivos parasitas se apropriem da coleção e a destruam. Em cada gaveta, uma surpresa mais interessante que a outra. As cores que os himenópteros adquirem são simplesmente maravilhosas, principalmente das espécies da Amazônia. Lucio deu uma de professor-cicerone e explicou vários detalhes da biologia daqueles espécimes.

Lucio nos explicando sobre a coleção de abelhas do Apiário, e abaixo, abrindo uma colméia.

No quintal, além de uma plantação de girassóis muito bonita, há diferentes micro-ambientes para as diferentes espécies de abelhas que ali estão. Há abelhas solitárias e coloniais, colméias feitas em caixas de madeira e colméias cavadas na terra. Abelhas que fazem mel delicioso e abelhas que não fazem mel. Abelhas sem ferrão e outras que não é aconselhável nem chegar perto, porque podem atacar sem piedade. Enfim, muitas abelhas de espécies diferentes – com uma leve tendência a agregar as abelhas da Mata Atlântica brasileira.

Eu já estava meio ansiosa quando cheguei no quintal. Mas o Lucio, com sua simpatia, começou a abrir e mexer nas colméias – André se mostrara particularmente interessado em fotografar a arquitetura das colônias. A cada caixa, uma nova surpresa. A caixa da abelha jataí (Tetragonisca angustula) foi particularmente bem-vinda, porque seu mel era uma delícia, dos mais gostosos que já provei, e a organização dos seus favos era incrível.

 

A colméia de Plebea, e abaixo a de Melipona. Ambas extremamente organizadas, com os favos de mel lotados – e deliciosos. A última foto é de uma Melipona quadrifasciata.

Mas, percebendo já um quê de tensão da minha parte com aquele monte de abelhas, Lucio, que acima de tudo é com os amigos um brincalhão de marca maior, resolveu abrir uma colônia de Partamona, uma abelha nativa e que não tem ferrão. O fato dela não ter ferrão é compensado pela sua “mallice”: ela enrosca no cabelo e nos pêlos do seu corpo da forma mais chata que você pode imaginar. E claro, quem tem mais cabelos na cabeça (como eu), ganha mais abelhas.

Tentei me conter, juntando toda a paciência possível e imaginável para não pagar um mico diante de tal sumidade abelhóloga, mas aqueles insetos não paravam de zunir no meu ouvido e começou uma coceira irremediável, das andanças delas pela minha pele. Não aguentei: saí correndo em direção aos girassóis, para ver se elas voavam ou se soltavam do meu cabelo à medida que eu corria – mas elas não desgrudavam. A cena toda era um pastelão só, e Lucio começou a rir da minha reação, e logo todos que estavam pelo Apiário (tinha uma aula prática sendo ministrada não muito longe da gente) me olhavam com cara de tsc-tsc. Até que depois da colônia fechada, aos poucos as abelhas foram desaparecendo. Mas o mico já estava pago. O resto da visita às demais colônias foi então abortado, dado meu desconforto visível – e muitas colônias eram de Apis mellifera, a abelha produtora de mel, que tem ferrão e que requer usar aquelas roupas protetoras para abrir a colônia. Mas, diga-se de passagem, o mel de algumas das espécies que ele mostrou era delicioso e valeu muito a visita.

Passamos então para a área onde estão as abelhas solitárias. Não vimos nenhuma (deviam estar coletando pólen em algum lugar), mas vimos seus elaborados ninhos nos troncos de árvores e na encosta do barranco. A visita terminou por ali, muitas fotos e papos depois. Já era hora do almoço. E depois do almoço, seguimos viagem para outras pairagens. O passeio ao Apiário vale a pena, principalmente se você não se incomoda com abelhas – mas vá preparado psicologicamente para quem sabe algumas picadas-que-não-dóem-mas-incomodam.

Fato é que depois dessa visita, não mais vi o Lucio e morro de saudades dos papos com ele, apesar dos meus micos e risadas. Aliás, por causa dos micos, caras, caretas e risadas, que dão um sabor doce (e melado, para aproveitar a deixa do trocadilho) à experiência vivida. Saudade das viagens na maionese que a gente discute sempre que se encontra. Da completa sanidade que ele traz com seus comentários sarcásticos e antenados com a realidade do mundo biológico. Dos comportamentos evolutivos e humanos que só ele sabe contar. Porque ele foi um dos professores mais influentes no meu modo de pensar a ciência e o mundo e dos melhores amigos dentro da biologia que eu poderia ter. Eu gostaria muito se pudesse encontrá-lo em breve de novo para um papo abelhudo.

Mas de preferência bem longe das abelhas. 😀

Comendo um favo de mel.

Tudo de bom sempre.

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Sobre abelhas, links variados:

– As abelhas que fogem deixam prejuízo de 15 bilhões na indústria de alimentos.

– As abelhas ensinam algo para nós, sobre dispersão viral.

– Para quem não sabe, as abelhas no mundo inteiro estão passando por maus momentos, morrendo em quantidades absurdas por conta da “desordem de colapso da colônia” (CCD, em inglês). O The Daily Green tem um blog, o “The Bee Keeper”, só dedicado às abelhas e os problemas que elas vêm enfrentando no mundo, principalmente o CCD. Aos interessados nesses insetos, vale a visita.

– No Der Spiegel, uma reportagem sobre o problema do CCD das abelhas na Alemanha.



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