Cataratas do Iguaçu: o lado argentino

por: Lucia Malla América Latina, Argentina, Brasil, Paraná, Parques Nacionais, Viagens

A Patricia nos comentários do post de ontem sobre o lado brasileiro das Cataratas do Iguaçu, falou certeira:

“Eu sempre gostei mais do lado brasileiro por causa da vista e do argentino por causa das trilhas. E pra mim eh impossivel escolher qual eu gosto mais! Acho que tem que se ver os 2 e pronto.”

Direto ao ponto. O lado argentino oferece muitas trilhas (e mais interessantes) que do lado brasileiro. Se a visão ali não é tão espetacular quanto do Brasil, as trilhas deixam tudo mais “aventuresco” – e mais emocionante. A cada abertura da mata, uma visão mais estarrecedora daquele monte de água.

Antes de ir para Foz, a maioria dos sites e amigos que consultei davam o mesmo conselho: reserve dois dias para visitar o Parque Nacional Iguazú, do lado argentino. Porque as trilhas são longas, algumas escorregadias, com subidas e descidas, levam tempo, etc. etc. Acreditei na voz da maioria e separei 2 dias da viagem para as aventuras pela Argentina.

Centro de Informações principal do Parque Nacional Iguazú, cuja visão do lado argentino é menos “grandiosa” no geral, mas não menos impressionante à sua maneira específica.

Cataratas do Iguaçu - lado argentino

No primeiro dia, chegamos no parque depois do almoço – depois, na realidade, de um passeio pelos supermercados de Puerto Iguazú para comprar a trinca gastronômica hermana que eu adoro: alfajor, vinho de Mendoza e suco de pomelo-limón. Logo na entrada do parque, uma diferença: um mapa era entregue aos visitantes. Do lado brasileiro, não faz muito sentido ter um mapa, já que é basicamente uma trilha só (a não ser que você vá fazer passeios como o Macuco). Do lado argentino, são pelo menos 5 trilhas diferentes, com graus de dificuldade diferentes e visões das Cataratas mais diferentes ainda.

Logo percebemos que a trilha para a Garganta do Diabo era a mais longa e àquela hora, o trenzinho que leva até o início da trilha de madeira ia começar a ser fator limitante. Decidimos deixar a Garganta pro dia seguinte e fazermos o chamado Circuito Inferior e quem sabe chegar na Ilha San Martín. Ao perguntar pra um guia do parque, qual o caminho mais rápido, ele não pensou duas vezes: “Esqueça o trem ecológico e ande até a Estação Cataratas pelo Sendero Verde.” No mapa, parece até “longinho”, mas são apenas 800m em trilha dentro de mata maravilhosa até o início do Circuito Inferior. Ou seja, tranquilíssimo.

O farol no meio da trilha argentina, que também tem momentos de muita aproximação das quedas.

Pelo caminho, passamos por um farol, que achei curioso estar ali. Logo chegamos no início do Circuito. Era sábado à tarde e o parque estava cheio. Particularmente, um grupo enorme de chineses andava naquelas pontes estreitas de terno e gravata (as mulheres de salto e roupa social), sem dúvida roupa pouquíssimo adequada para o terreno de sobe e desce, com a qual andavam bem mais devagar, atrasando por fim toda a fila de turistas que vinham atrás – nós inclusos.

Mas a vagareza do grupo chinês nos permitiu prestar atenção em alguns dos saltos iniciais – e é aí que mais uma vez o lado argentino surpreende. Se do lado brasileiro as Cataratas estão sempre vistas como um todo, aqui o legal é justamente a compartimentalização: você consegue ver alguns saltos sozinhos no meio da matinha, como se eles fossem meras “cachoeiras” que você encontra numa trilha qualquer. Dá para individualizá-los, de certa forma, e isso nos aproxima mais ainda deles, nos faz sentirmos “parte” das Cataratas – tá, viajei. 😀

O lado brasileiro visto do lado argentino. Abaixo, a vista das Cataratas que temos fazendo o Circuito Inferior, com o rochedo da Isla San Martín em destaque.

Mas logo a “individualidade” das cachoeiras se vai e dá lugar de novo à visão esplendorosa: nas áreas em que a trilha se abre, vemos inúmeras quedas d’água. Ao longe, já descendo em direção ao barco que atravessa para a Isla San Martín, vemos o passeio do Macuco Safari do lado argentino, que parece muito mais “radical” que o brasileiro, por um motivo simples: chega praticamente dentro de uma queda “furiosa”, daquelas que parecem liquidificador, que só vemos pelo lado argentino – o passeio brasileiro chega perto de uma queda de fúria mediana, apesar de passear mais tempo pelo rio Iguaçu. (Além da economia: o Macuco brasileiro custa 160 reais; o Macuco argentino custa 70 pesos, o que dá ~46 reais.)

O Macuco Safari argentino chega muito perto das Cataratas, como pode-se ver na foto; mais até que o brasileiro – fiz o brasileiro em 1999, antes de ser absurdamente mais caro, e me lembro de que chegamos perto de uma queda d’água não tão imensa…

No final do Circuito Inferior, fica o cais de onde saem o Macuco argentino e um barquinho simples, que faz o transporte de turistas até a Isla San Martín. Nesse ponto, se você não está a fim de pagar/fazer um rafting “radical”, pode curtir também a sensação de ver as Cataratas de dentro d’água fazendo essa travessia simples. Não molha e tem um visual bem bonito.

Que tal nadar perto das Cataratas?

A Isla San Martín é, a meu ver, visita fundamental. Primeiro, porque você pode se banhar ali – isso mesmo, respeitando as bóias de segurança, você pode nadar com a visão daquele turbilhão de água bem perto, experiência simplesmente fascinante, possível da “prainha” formada na ilha. Segundo, porque há ali 2 caminhadas básicas (apesar da subida em escada cansativa para os menos acostumados): a trilha que leva ao Salto San Martín, de onde vemos também mais perto os Saltos Mbigua e Bernabé Mendez; e a trilha da “Ventana”, que revela o Salto Escondido e um pouquinho do Salto Rivadavia através de um buraco natural numa rocha. Fomos para a Ventana primeiro, pelo caminho mais longo, e voltamos pelo atalho, que corta a ilha por dentro. No total, em nosso ritmo pessoal e parando bastante para fotografar, menos de 2 horas.

Vista do Salto Escondido pela Ventana, na trilha da Isla San Martín.

Voltamos da ilha para o cais do Circuito Inferior, onde deixamos por último o Salto Dos Hermanas, que tinha àquele momento uma plataforma de visitação concorrida. Como ainda era antes das 4 da tarde, decidimos que dava pra tentar fazer o Circuito Superior – decisão acertada, por sinal. O Circuito Superior, sem sobe-e-desce em trilha estreita nem pedra escorregadia, é o mais fácil do lado argentino. Permite uma visão dos Saltos Bosseti, Mbigua e Bernabé Mendez de cima, antes deles caírem. O rio passa por baixo da gente e é muito relaxante ficar ali observando de pertinho aquela aguaceira virar “vapor” com a queda.

O parque argentino fecha às 17h e já era quase isso quando voltamos ao Centro de Informações principal. Carimbamos nosso ingresso para poder voltar no dia seguinte e garantir o desconto na entrada.

No dia seguinte, era o momento de visitar a mais badalada das atrações do lado argentino: a visão de cima da Garganta do Diabo. A trilha da Garganta requer que você pegue o trem ecológico até a Estação da Garganta ou ande ~3 km. Queríamos agilizar a manhã e decidimos pegar o trem, no que se revelaria a maior roubada da visita às Cataratas.

Era domingo, dia de pico de visitação no parque, e fazia um sol lindo. Ou seja, tudo lotado. Achando que “economizaríamos tempo”, pegamos o trem ecológico na Estação Central e só desceríamos na Estação da Garganta. Entramos dentro do primeiro trem (lotado) que encostou e o trem que anda a uns 5 km/h quebrou no trilho. Um funcionário correndo com um alicate na mão no meio do mato foi a cena que me recordo mais engraçada desse evento. Depois de uns 20 minutos, o trem voltou a funcionar, e aí veio o pior: ao chegar na Estação Cataratas, descobrimos que éramos obrigados a descer e esperar na fila de novo por outro trem que levaria até a Garganta, e não continuarmos a viagem no mesmo trem. Ou seja, ficamos mais de meia hora num trajeto que no dia anterior facilmente fizéramos à pé. Isso acontece porque só há um par de trilhos de trem no parque e não dá para ter trens se encontrando pelo caminho – e isso obriga a ter 2 trens, cada um fazendo um trecho. Para resumir, a fila estava gigante. Felizmente, uma gralha azul e um monte de borboletas entreteram nossa espera de mais meia hora. Mais uns 15 minutos de trem dentro da mata e chegamos finalmente ao início da trilha da Garganta do Diabo.

A visão que temos ali, entretanto, redimiu qualquer irritação com a roubada que passamos. Além de vermos o rio e toda sua largura, chegar perto daquela “monstruosidade” de água, ouvir tanta energia potencial sendo transformada em ruído daquela forma, é simplesmente emocionante. A única palavra que vem à minha cabeça sobre essa visão especialíssima e única no mundo é em inglês: overwhelming. É maravilhoso demais.

Ali, na Garganta do Diabo vista do lado argentino, não se tem a menor dúvida de por quê as Cataratas do Iguaçu merecem ser uma das 7 maravilhas naturais do mundo.

Saímos do parque meio “anestesiados” com o encantamento proporcionado pelo passeio. Com o tamanho da superlatividade que brota daquele lugar. Não à toa, um dos destinos mais procurados pelos estrangeiros que vêm ao Brasil. É um verdadeiro pote de ouro no arco-íris do turismo brasileiro.

E haja arco-íris para celebrar essa história! 🙂

Tudo de bom sempre.

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*Para viajar mais pelas Cataratas do Iguaçu…

– Em minha opinião, pessoas acostumadas a trilhas (ou que não têm problemas físicos maiores em trilhas) conseguem ver os pontos mais relevantes do parque (4 trilhas principais) em apenas um dia inteiro. 2 dias é para ver com muita calma e parando bastante para descansar. Em ritmo de férias, eu diria.

– No site argentino do parque, há um bom resumo de como foram formadas as Cataratas, para os curiosos geológicos como eu.

– Vale lembrar que as Cataratas do Iguaçu já são Patrimônio Natural da Humanidade pela UNESCO. 



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