Risco: estatística ou sentimento?

Dia desses, li um artigo interessante (e bem óbvio) lá no World Changing, sobre aquecimento global e a resposta das pessoas a ele. Mas, por mais óbvio que pareça o que a Lisa Bennett escreveu, o fato é que explica o por quê da nossa lentidão em fazer algo para resolver esse problema – em uma linguagem mais fluida. Resumirei aqui um pouco as palavras de Lisa, mas sugiro imensamente que leiam o artigo, que está mais bem colocado que minha tentativa tosca de traduzi-lo.

Lisa comenta que 2005 foi seu turning-point, ou seja, o momento em que ela tomou consciência do problema real que as mudanças climáticas eram e trariam para a vida futura. Foi quando cientistas começaram a martelar mais e mais de que se nada fizéssemos, nosso futuro como espécie estaria ameaçado. Acrescento um palpite pessoal: foi quando o Katrina destruiu Nova Orleans. As cenas que vieram à tona na mídia, a discussão sobre furacões que sucedeu, etc. trouxeram pra muito perto da nossa realidade as mudanças climáticas. Depois disso, vieram toda a farra de produtos eco-friendly que a gente conhece, muitos efetivos, muitos frutos de greenwashing.

Mas mesmo com tal iniciativa, as pessoas em geral ainda fazem muito pouco pelo ambiente, para evitar os estragos do aquecimento global. Por quê?

Ela cita que de acordo com cientistas sociais, a razão é que nós, humanos, não estaríamos hard-wired para entendermos riscos da mesma forma como os cientistas em geral vêem: uma questão de estatística, riscos são probabilidades. Para a maior parte das pessoas, entretanto, risco é um sentimento, envolve emoções. “Se eu me sinto amedrontada, isto suplanta qualquer quantidade de informação estatística.” É o que diz Elke Webber, uma psicóloga citada pelo World Changing.

Risco

E, é claro, as mudanças climáticas não acontecerão de uma hora pra outra – já estão acontecendo, aos poucos, lentamente. A gente não percebe os riscos, porque não há uma sensação de medo iminente. Não é um problema claro, de vida ou morte já. Isso é o que dificulta a tomada de decisão e postura das pessoas com relação ao problema.

Os cientistas, que em geral pensam em estatísticas, conseguem se balançar com os dados cada vez mais alarmantes. O que precisamos portanto, é que as campanhas e esclarecimentos desses cientistas toquem mais “ao coração” das pessoas. Apesar de eu achar particularmente complicadas campanhas muito “emotivas” (em geral elas deixam de lado os dados e apelam), entendo que essa é talvez a única maneira de espalhar uma idéia – e gerar ação contundente – para as massas. Ou, idealmente, melhor educação estatística para as pessoas, de forma que elas entendam os números que estão por trás dos cálculos de risco de forma embasada.

Trazer o problema pra bem perto também é outra forma de atingir as pessoas, mostrar os verdadeiros riscos das mudanças climáticas e com isso conscientizá-las a mudar de atitude e fazer algo. Por exemplo, se você mora no Rio, uma idéia é buscar os dados/previsões que mostram o que acontecerá com a cidade com alguns graus a mais. Mostrar também o que já está acontecendo. Com isso, as pessoas podem perceber que o problema está perto delas, não é tão abstrato quanto parece no discurso dos cientistas.

Quem sabe assim, a gente consegue conscientizar mais pessoas da realidade do aquecimento global…

(E eu não perco as esperanças, nunca, de que as pessoas farão algo pelo planeta.)

Tudo de bom sempre.

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– Essa é minha 1ª contribuição reflexiva para a Aldeia Sustentável. Não muito prática, mas envolvendo questões/reflexões sobre praticidade (e eficiência de comunicação)…

– Publicado também no Faça a sua parte.



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