Indústria farmacêutica parte 1: modo de usar

por: Lucia Malla Biomédicas, Ciência, Economia, Molléculas da vida

Há tempos venho matutando para tentar expressar num post minhas visões sobre a dualidade da indústria farmacêutica, uma das maiores e mais lucrativas do planeta. Dualidade esta que se resume no fato de que ela possui inúmeros defeitos dentro de nosso sistema econômico capitalista. Mas sem a indústria farmacêutica estaríamos definitivamente muito pior em questões de saúde. Por isso também uma certa relutância de minha parte em abranger o tópico. Afinal, o equilíbrio na análise é deveras complicado.

Indústria farmacêutica - modo de usar

Mas acho desde sempre um tema necessário. Então decidi fazer esta mini-série de posts (2 apenas). Um explicando como a pesquisa de remédios funciona (e como a indústria se insere nela). E o segundo com minhas divagações/questões sobre os meandros do processo e os rumos éticos, econômicos etc. de tudo. Indústria farmacêutica, para fins dos posts, não serão as fábricas pequenas nem de fundo de quintal; são as chamadas big pharmas, que dominam o mercado dos remédios. Aguentem-me, pois: os posts serão longos.

Como funciona o desenvolvimento de um remédio numa indústria farmacêutica

Para começar, acho fundamental entender como funciona o processo de desenvolvimento de uma droga. De aspirina a quimioterápicos, todos passam por um processo relativamente similar. As diferenças são poucas, afinal. E quando diferenças existem, variam de acordo com o país, com a letalidade da doença pesquisada ou com o interesse para o público geral. Vale ressaltar que se a doença tiver um índice de morte elevado, todo o processo é agilizado para que novos tratamentos cheguem logo ao “mercado”. Porque o “mercado” é basicamente o grupo de indivíduos que está doente.

Quem regulamenta esse processo todo nos EUA é o Food and Drug Administration (FDA), um órgão federal. Como boa parte das farmacêuticas se concentram nos EUA, o mercado americano é mais “quente” para drogas. Portanto, o FDA tem uma reputação razoável. Suas decisões terminam funcionando como base para as avaliações de todos os órgãos regulatórios de saúde no mundo. Para fins de post e generalizações facilitatórias ao entendimento, me deterei às regras do FDA e levarei em consideração que o sistema de análise do FDA é “perfeito”. O que sabemos inegavelmente que não é.

Identificação de um composto com potencial médico

A história em geral começa com um conhecimento “popular” – e aqui incluo desde tradição oral até o que já está no mercado e funcionando. Digamos por exemplo que um chá qualquer seja usado na China para tratar diabetes. O que as farmacêuticas fazem? Ao saberem de tal uso, instruem seus pesquisadores a investigar os componentes do tal chá, ver qual o composto ativo que efetivamente está exercendo influência sobre a glicose humana. O chá é praticamente “dissecado” nos laboratórios. Assim cada fração é testada em modelos in vitro (linhagens celulares) ou in vivo (animais, geralmente roedores).

Síntese e testes pré-clínicos

Depois de testes realizados, descobrem que o responsável pela queda da glicose é o composto X. Inicia-se então o processo de síntese dele em laboratório (mais pesquisa envolvida aqui). Uma vez portanto que essa etapa se concretize, começam os estudos mais profundos e detalhados, chamados estudos pré-clínicos. Através da realização de experimentos mais complexos, que “mimetizam” o que acontece em humanos, os cientistas analisarão uma longa lista de parâmetros.

No exemplo acima, por exemplo, teriam que analisar como o composto é excretado, se é excretado, qual o tempo em que ele fica ativo no organismo, se interfere em alguma outra via metabólica importante, qual a dose mínima e máxima que pode ser usada sem causar danos ao organismo, por onde a droga é melhor assimilada (via oral? intravenosa? dérmica?), se gera efeitos colaterais e o quão estes efeitos são toleráveis, entre muitos outros.

Esta etapa é feita em animais de laboratório. Nenhuma droga vai pro mercado sem passar por isso. Salvo raríssimas exceções (como no caso de doenças que matam em 100% dos casos e de forma rápida), o FDA não aprova uma droga se não houve um estudo detalhado em pelo menos um modelo animal, sendo que 2 modelos animais é o mais recomendado (em geral um roedor e outro que pode ser porco, macaco ou coelho). Afinal, se a droga em questão mata os ratos em uma dose mínima, é óbvio que ela não pode ser testada em humanos. A etapa de testes em animais é uma questão de segurança para nós, basicamente.

Estudos clínicos – 1a fase

Digamos que o composto anti-diabético X tenha, após os estudos pré-clínicos, se mostrado promissor em animais para diminuir a glicose do sangue. O responsável pela “idéia” neste momento inicia o processo de patente de seu composto. Aqui entram basicamente várias das disputas que vemos pelos tribunais entre farmacêuticas e pesquisadores. Parte-se então para os estudos clínicos. Chama-se clínico porque agora envolverá seres humanos, só por isso – e este “só” é irônico, porque ao ultrapassar a barreira de espécie, uma série de leis e regras éticas passam a ser necessárias para minimizar os danos à pessoa.

Na 1a fase, com grupos pequenos (em geral, voluntários saudáveis), testa-se a dose mínima e máxima. Além do ritmo de excreção (se é o mesmo que nos animais testados) e seus efeitos colaterais. Ou seja, basicamente, se tenta confirmar e/ou adequar o composto X ao organismo humano. Há casos de drogas que funcionam maravilhas em modelos animais e quando são levadas a humanos geram problemas sérios. É incomum, mas acontece.

Estudos clínicos – 2a fase

Se o composto X teve uma boa performance nesse pequeno grupo de voluntários, passa-se então para a 2a fase de testes clínicos. Nesta fase, pessoas voluntárias em diferentes estágios da doença a ser combatida pela droga (no meu exemplo, a diabetes) passam a utilizar a droga na dose que a 1ª fase de testes indicou ser a mais segura. Esta fase em geral tem um maior número de pessoas envolvidas. Os resultados são comparados com o grupo “controle” (pessoas saudáveis que tomaram a droga na 1a fase) e agora o responsável pela pesquisa pode finalmente descobrir a eficácia do tratamento usando o composto X para a diabetes.

Estudos clínicos – 3a fase

Caso os pacientes que se sujeitaram ao tratamento da 2a fase de testes clínicos tenham uma melhora significativa, o composto X pode passar então para a 3ª fase de testes clínicos.

Na 3ª fase, ocorre basicamente um aumento do número de pessoas. Pensando-se estatisticamente, saímos da análise amostral e (tentamos) ter uma visão mais populacional dos resultados. Porque quando você passa a analisar milhares de pessoas com a mesma patologia, em diferentes áreas geográficas, de diferentes backgrounds genéticos, a probabilidade de aflorar um problema que os testes mais controlados e reduzidos da 1ª e 2ª fase deixaram escapar é maior. É à caça desses “problemas” (efeitos colaterais, dificuldade de excreção, ineficácia, etc.), dessa variabilidade, que estão os pesquisadores na 3ª fase de testes clínicos.

Se depois de analisada na população geral, a droga se mostrou segura e eficaz, com efeitos colaterais moderados (e isso varia de caso para caso, principalmente de acordo com a letalidade da doença), o processo todo é compilado no FDA para a decisão final – já houve diversos relatórios em cada etapa, mas agora é a chamada “revisão final”. Se a droga for aprovada, o responsável pela idéia pode distribuí-la nas farmácias e hospitais do planeta. Caso haja dúvidas, o FDA fornece mais um tempo para que o problema seja resolvido, e se o responsável pela idéia não as respondê-las, o processo pode ser arquivado. (Há inúmeras instâncias para recorrer, mas a grosso modo é isso).

A economia por trás da ciência

Esse caminho longo entre o chá na China e a prateleira da farmácia leva, em média, 8 anos e meio. E, uma vez concedida a patente (em geral, isto é feito ao fim dos testes pré-clínicos), a pessoa pode “explorá-la” no mercado pelas leis americanas, por 20 anos. Quando o tratamento se torna popular, como foi o caso do Viagra por exemplo, é certeza de lucros biliardários para a indústria. Ainda no caso do Viagra, a Pfizer agora se desespera porque a patente vai expirar em breve e seu pipeline de descobertas está “seco“, para usar o jargão da indústria. O que pode desestabilizar a empresa completamente, já que uma vez expirada, qualquer pessoa/empresa pode produzir e marketear a droga a seu belprazer.

E aí entra o componente mais complexo da equação toda: dinheiro. A pesquisa para o desenvolvimento de drogas é extremamente cara. Envolve profissionais especializados, laboratórios e hospitais capacitados, voluntários que por lei americana precisam ser pagos (e em tempos de crise, tem sido uma forma de muitos levarem o pão para casa), processos e relatórios para o FDA, além de um monte de outros detalhes. Pior: é muito arriscada. A probabilidade de que um composto “promissor” falhe em uma das etapas é grande. Por conta de interações com outras substâncias e células do organismo, principalmente. Qualquer entidade que se mete a pesquisar e desenvolver drogas sabe disso.

A conta da indústria farmacêutica

Idealmente, o governo acamparia todo o processo para si, arcando com as despesas integrais, em nome da saúde pública. Já o faz em boa parte do processo, aliás. Através da própria existência e manutenção do FDA, além de verbas para financiamento de pesquisas em universidades e institutos públicos, investimento em hospitais, etc. Mas não é suficiente. E se o governo fosse 100% responsável pela execução e regulamentação de todas as etapas do processo de todas as drogas do mercado, facilmente iria à falência. Ou então outras áreas importantes da estrutura social, como educação, segurança pública, etc ficariam seriamente comprometidas. (Ou seríamos super-taxados para pagar o processo, o que geraria mais mal-estar econômico e social ainda). Daí entram as farmacêuticas.

A elas, é concedido o direito de exploração comercial de uma droga bem-sucedida. Este “direito” é parte de uma “retribuição” por terem investido tempo e dinheiro na pesquisa (e resolução) de um problema de saúde pública. Funciona como um acordo entre governo/sociedade e a indústria farmacêutica. Para que a indústria se sinta sempre incentivada a buscar novos tratamentos, há a estipulação de um prazo de validade para a exploração comercial da droga.

Num mundo ideal cor-de-rosa, o sistema acima funcionaria perfeitamente. No post de amanhã, vou tentar divagar porque estamos muito longe do mundo ideal no que tange o desenvolvimento de drogas pela indústria farmacêutica.

Tudo de bom sempre.

P.S.

  • Um excelente resumo esquemático de todo o processo de desenvolvimento de uma nova droga pode ser visto no esquema abaixo. Tirado desta página, recomendo a visita, pois cada palavra é um link que leva a uma explicação sucinta.



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