No meio do caminho tinha uma pedra

por: Lucia Malla Croácia, Europa, Política, Viagens

Quando estávamos na Croácia, fizemos o caminho entre Split e os Lagos de Plitvice de carro, pela estrada E71. De acordo com nosso mapa, essa era uma rota “cênica”, com bonitas paisagens – por isso marcada de verde.

Adentramos então pela Croácia. Logo no início, realmente a visão dos grandes maciços de dolomita dos Alpes Dináricos é muito bela. Uma paisagem diferente, se comparada às tantas outras montanhas do mundo, pela vastidão. Há ali vales largos, e o lago Peručko a refletir as montanhas de neve em sua superfície imóvel. Uma cena realmente estonteante.

Mas há algo mais nessa estrada vicinal da Croácia – além de cidades de nomes impronunciáveis para a gente, como Vrlika e Zrmanja. (Vrlika aliás se destacava, com um castelo ao topo. Muito pitoresca.)

Vrlika, à beira da E71.

A meio caminho de Plitvice, passamos por Knin, que foi sede da República Independente de Krajina na nada longínqua década de 90. Durante a guerra da Croácia, Knin e arredores formaram esta república, que nunca foi reconhecida por nenhum organismo internacional; tentativa frustrada de uma etnia sérvia de se separar do resto da Croácia e criar um novo estado, diferente de Bósnia e Croácia. “Limparam” a área de croatas, destruindo tudo que a eles pertencesse em seu caminho, e gerando o segundo maior deslocamento étnico que as guerras na ex-Iugoslávia produziu.

Vista de Knin.

(Parênteses: Não à toa o termo em inglês balkanization (que significa “fragmentação de uma região em menores e hostis”) veio daqui: do compartilhamento num pequeno espaço territorial de diferentes etnias que não se batem em geral. Há um ranço da guerra a cada olhar, e isso atravessa gerações.)

Knin é a maior cidade da região, palco principal da operação Oluja croata (apoiada pelos americanos, by the way), e ainda possui várias marcas da guerra em suas ruas: casas destelhadas, paredes de pedra abandonadas pelas metades. Estas marcas estão também à beira da E71: cidades inteiras destruídas, como se a guerra tivesse acabado ontem (numa escala histórica, sim, foi ontem), e ninguém tivera fôlego suficiente para iniciar o processo de reconstrução. Na entrada de várias destas cidades, placas que sinalizam a presença de ONGs humanitárias ainda na região. Estes lugares bombardeados – muitos deles hoje cidades-fantasmas – por onde passamos beiram as montanhas Dinara (1830m) e Troglav, o pico mais alto da cadeia alpina dinárica (1913m), ambos na fronteira da Bósnia, ambos cheios de neve em seus cumes. As montanhas dão à região uma atmosfera de silêncio fúnebre. É arrepiante.

Próximo à Knin, o cenário da destruição ainda vivo, à beira da estrada E71.

Podia ser apenas o fim do inverno/começo da primavera ou nossas cabeças se esforçando para entender uma situação, mas a paisagem ao longo da E71 era, quando visitamos, árida. Vegetação rasteira, áreas enormes sem nada plantado e um sol escaldante. A sensação que não saía de mim era de um deserto populacional, geofísico e psíquico. Pessoas e seus problemas esquecidos ali. Um contraste gigante com a costa croata, rica e populosa, há menos de 2 horas de distância. No interior, as casas eram bem espaçadas umas das outras, pequenas fazendas de subsistência, onde a pobreza reinava. E ainda assim, aquele subdesenvolvimento à la Europa foi palco de tanta disputa. Perplexidade.

Passar por esta região da Croácia fez a gente pensar, muito. Na guerra, nas motivações que levam a ela, no horror para os indivíduos que vivem essa realidade, para o futuro e as perspectivas, nas pessoas, na rotina de cada um em meio à tanta confusão. É difícil para nós, brasileiros de poucas guerras, entender a motivação para tanta raiva entre povos adjacentes nos Balcãs, mas sabemos que isso remonta há centenas de anos. Enquanto os governos e etnias não se entendem, as pessoas da região tentam (sobre)viver, em suas vidas de retinas tão fatigadas. Vida dura de pedra no meio do caminho.

Tudo de paz sempre.



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