Raul Soares

por: Lucia Malla Brasil, Minas Gerais

Este post foi publicado em 22/novembro/2005 aqui no blog. É um dos meus prediletos. Escrevê-lo trouxe-me lembranças inestimáveis, de sorrisos e juventude. Estava eu fuçando umas coisas nos bastidores do blog e encontrei-o num canto perdido, com algumas teias de aranha. Dei um sopro para tirar o excesso de poeira e ei-lo de novo, para celebrar a simplicidade da vida.

Raul Soares

Era uma vez uma cidadezinha. Em Minas Gerais. Tinha um coreto na praça e uma estrada só para chegar até ela. Uma cidade no fim da linha. Uma cidade no início de todas as outras?

Quando cheguei a Raul Soares pela primeira vez, um sino tocou. Não, não foi o sino da igreja. Foi o sino da minha cabeça, avisando que aquele lugar seria especial.

Pessoas pacatas, comendo pastel na feira ou sentados no boteco da esquina jogando conversa fora. Cena mais que comum em qualquer lugar do país, mas ali, o ar interiorano inebriava os sentidos. O constante aceno de todos – eram todos conhecidos, afinal de contas. “Homáley trouxe os amigos para passar o fim de semana aqui em casa”, era a frase mais dita pela mãe de nosso amigo que nos hospedava, seguida de um relato preciso de que éramos estudantes de Viçosa, e que alguns de nós estavam ali para participar de um concurso de bandas. Quem já presenciou concurso de bandas em cidade de interior sabe o quanto eles são importantes para animar o local. Geram histórias e mais histórias para muito tempo, imortais nas cadeiras de barbeiro ou nos bancos da praça.

Como é tradição, um grande churrasco nos aguardava na casa do nosso hospedeiro. Éramos 6 jovens, descobrindo as nuances do interior mineiro. Haja pão de queijo para tantos estômagos famintos de aventuras.

Na época, eu era metida a fotografar – hoje eu não fotografo, apenas me distraio e registro momentos pessoais. Naquela época, eu levava a fotografia a sério: tinha uma máquina profissional, apetrechos e lentes, além de sacadas interessantes. Adorava captar a delícia de ser mineiro. Adorava a desconfiança das pessoas, que logo era desfeita por um sorriso caloroso e um convite pra um “cafezim”. Adorava o cheiro das montanhas e do leite fresco que ia virar queijo. Adorava o mistério mineiro.

Raul Soares não tem absolutamente nada que desperte a atenção de um guia de viagens – nem precisa. Tem uma ponte antiga por cima de um riozinho qualquer. Tem a certeza do interior em seus paralelepípedos gastos. Tem madrugadas frias e caladas de inverno, e o café quente na manhã seguinte. Tem a tranquilidade do amanhã, carregada em chinelos cheios de barro das ruas secundárias. Um amanhã fruto de um tempo contado em amanheceres e entardeceres no topo de um morrinho qualquer, regados à melancolia do pasto no horizonte.

Num estado com tantas pedras preciosas e ouro, cidades para brilhar e diver(c/s)idade, Raul Soares é apenas um pedaço de pedra de segunda, sem muito brilho, cujo valor não é monetário, e sim o que representa para seu dono, as lembranças únicas que carrega consigo. As risadas, piadas e consternações. As discussões despreocupadas sobre o futuro. A acolhida de coração aberto.

Quando cheguei a Raul Soares pela primeira vez, um sino tocou. Não, não foi o sino da igreja. Foi o sino da minha cabeça, avisando que aquele lugar seria especial. E foi.

Raul Soares foi simples como a vida deve ser.

Tudo de bom sempre.

Raul Soares

Raul Soares em preto e branco.

P.S.

*Quando publicado da 1a vez, este post foi dedicado ao Guto e à Mônica. E complementava dizendo: “Estava gritando dentro de mim pra ser escrito desde que conheci essas 2 figuras maravilhosas de Minas – e que me inspiraram na nostalgia da Zona da Mata mineira […].” O post continua hoje dedicado aos 2 queridos que ainda moram no meu coração. Estendo, entretanto, a todos os mineiros de cidades pequenas, inspiradores em seu cotidiano.



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