Minhas 3 obras de arte favoritas

A Charô, que comenta sobre artes em geral no seu blog, lançou a pergunta: qual sua obra favorita? Ela citou a sua, uma escultura super-delicada. Pensei muito. Não entendo de arte; para mim, ela é o que me emociona, de alguma forma. Dentro desse conceito, não consegui escolher “uma” obra apenas; então falei de 3 obras de arte que me tocam profundamente, nem tanto pelo que são ou pela importância histórica, mas pelas lembranças de vida que me trazem quando as vi e/ou tomei conhecimento pela primeira vez de sua existência. E claro, sei que arte inclui literatura, fotografia, música, teatro, etc. mas, como a Charô fala bastante em seu blog sobre artes plásticas e pinturas, tentei focar nessa “categoria” de arte.

Eis então minhas 3 obras de artes plásticas favoritas (com a absoluta certeza de que estou esquecendo pelo menos umas 20, mas.) e o por quê:

1) “Olympia“, quadro de Édouard Manet


(Foto retirada da Wikipedia.)

Eu era uma adolescente cheia de espinhas no rosto quando um livro me caiu em mãos, via Círculo do Livro (!!!): Olympia, de Otto Friedrich (uma antiga resenha aqui). Na época, eu começava a me interessar em Impressionismo e decidi encarar a leitura. Decisão acertada: Friedrich conta a história (e as fofocas…) por trás da obra famosa de Manet. Ao terminar o livro, acrescentei mais um sonho maluco a minha lista: ver Olympia ao vivo.

Corta a cena.

O ano é 1997 e estou mochilando na Europa, com o objetivo de ver o maior número possível de quadros de Van Gogh. É meu primeiro dia em Paris, e lá pelas 4 da tarde, estava perto do Musée D’Orsay, onde sabia que os Van Gogh’s estavam. Tive uma “brilhante” idéia: ir ao D’Orsay me familiarizar com a sala dos Van Gogh’s, vê-los en passant, e voltar no dia seguinte para ficar mais tempo, mas já sabendo onde eles estariam fisicamente no museu. Não “perderia tempo” no dia seguinte – tolinha eu… mal sabia que perder tempo é o que se deve fazer em Paris… Enfim, ao chegar no D’Orsay no fim de tarde, peguei um mapa, localizei a sala dos Van Gogh’s e decidi ir firmemente até lá. Eis que entro numa das salas em que eu cortava caminho e dou de cara com Olympia. Enorme, um quadro ocupando toda a parede, aquele sorriso desafiador, a nudez pacata de um Manet cheio de intenções. As emoções vieram à tona e as lágrimas desceram pela surpresa misturada de realização ao relembrar o sonho da juventude. Àquela altura da vida, eu nem sabia que Olympia estava no D’Orsay. Mas estava, e eu a encontrei. Os Van Gogh’s ficaram pro dia seguinte. Fiquei o resto da tarde admirando Olympia, emocionada, realizada. O primeiro presente que Paris me ofereceu foi simplesmente inesquecível.

2) “Fonte de Mercúrio“, escultura/instalação de Alexander Calder (que eu achava ser de Miró até ontem, quando decidi escrever esse post – vivendo, escrevendo e aprendendo…)

Obras de arte

(Foto retirada daqui.)

Na mesma “mochilagem” pela Europa de 1997, estava eu em Barcelona fazendo a Ruta Del Modernisme – ou seja, visitando todos os Gaudís imagináveis, quando decidi visitar a Fundación Miró. Sendo Miró um artista que adora cores, não poderia perder. O museu era incrível, cheio de pinturas e esculturas deste catalão. Mas nenhuma me deixou mais impressionada que o “Tributo a Miró”, feito pelo artista Alexander Calder – apelidada também de “Fonte de Mercúrio”. A escultura fica dentro de uma vidraça e deve pesar horrores. Ela é exatamente isso: o metal mercúrio circulando em cascatinha, entre ferros esculturais. Mas há algo de enigmático e leve nela, que inspira. Foi essa leveza do mercúrio que me encantou. Não sabia de sua existência e foi uma das melhores surpresas de toda a viagem. Nunca me esqueço do tanto de tempo que fiquei ali, admirando a escultura, a síntese da Barcelona que conheci.

3) Qualquer “corte” do Lucio Fontana

A primeira vez que soube da obra de Lucio Fontana (imagens diversas aqui) foi num mini-curso de Arte Moderna e Contemporânea que fiz na faculdade, num período em que minha vida ia de sonho em popa. Dentre o monte de slides que o excelente professor passava, de repente na tela da sala aparecem aqueles “cortes” no vazio da tela. Tudo na obra me intrigou. Nem tanto pela beleza; mais pelo seu abuso: a arte cortada, “estragada”, destruída, pungente nas cicatrizes. Fontana quis mostrar que a tela vai além, há mais que apenas o branco com tinta por cima. E eu, que adoro essas quebras de paradigma, me apaixonei à primeira vista. Mais tarde, vi vários quadros de Lucio Fontana espalhados pelos museus do mundo. Em todas as vezes que os encontrei, um suspiro e uma longa parada, para admirar aquela simplicidade conceitual tão destruidora e significativa. E relembrar das aulas de arte, que eu tanto gostara. (É, eu também de vez em quando posso ser considerada #loucadegrade… 😛 )

E, assim como a Charô, deixo a pergunta para quem quiser divagar: qual a sua obra de arte favorita?

Tudo de arte sempre.



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