Minhas viagens prediletas – ano 4: Rio Sucuri impressionista

por: Lucia Malla Blogversário, Bonito & Pantanal, Brasil, Mallices, Mergulho, Viagens

Diferente dos meus demais posts prediletos, onde em geral eu estava tranquila no aconchego do meu lar escrevendo, o do Rio Sucuri foi escrito na estrada, enquanto eu viajava pelo centro-oeste e sul do país. Mesmo estando na estrada (confesso que essa não é a forma que mais gosto de escrever, durante uma viagem), estava eu tão hipnotizada por esse local que terminei me empolgando e escrevendo, tudoaomesmotempoagora, e, ainda emocionada por ter visto tal beleza, publiquei no dia 25 de setembro de 2008. Enjoy this impressionist ride.

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Em nosso segundo dia em Bonito, depois de rapelar pelo Anhumas, fomos relaxar à tarde fazendo uma flutuação pelo rio Sucuri, outra atração imperdível de Bonito.

É interessante quando a gente comenta sobre Bonito e fala das flutuações. Uma parte das pessoas acha que fazer somente uma flutuação na região é suficiente, pois todo o resto será “a mesma coisa”. Nada pode ser mais longe da realidade, pelo menos para os minimamente interessados em paisagens submersas. Se no rio da Prata, há um cenário dramático com rochas, troncos, algas, areia e eventos inusitados como o Vulcão, no passeio pelo rio Sucuri vemos um domínio do verde intenso das plantas aquáticas por todo o percurso e da mata nas bordas. É claro, há troncos e rochas no fundo, mas a sensação de estar passando por um jardim submerso é muito mais intensa. O rio Sucuri me lembra o tempo todo uma grande tela natural de Monet em dezenas de experimentações de verde.

O passeio começa numa trilha de mata ciliar dentro da fazenda São Geraldo em área que foi transformada em RPPN. Depois de uma pequena caminhada sossegada, chegamos na nascente principal do rio Sucuri. A nascente parece um lago de lírios, tamanho o pontilismo dos tons de verde que vemos da plataforma de observação. Ali é proibido cair na água, verdadeira tortura, pois a visibilidade da água e a beleza do local convidam imensamente.

Nascente do rio Sucuri.

Depois da nascente, chegamos ao ponto onde a flutuação em si começa. Como era um dia calmo no Sucuri, tínhamos um guia dedicado para nós, o Kiko Canindé, um estudante de biologia bastante animado com o curso, que nos explicou com clareza diversos aspectos ecológicos e zoológicos do local. Caímos então na água – Canindé ficou no barco. No rio Sucuri, a flutuação é o tempo todo obrigatoriamente acompanhada por um barquinho de apoio (no rio da Prata isso só não acontece por causa de uma corredeira intensa num trecho do rio).

No rio, o cenário sub tem todos os tons de verde imagináveis, verdadeira aquarela de pintura. Há uma diversidade botânica considerável. Eu estava muito cansada do rapel no Anhumas de manhã, então usei o Sucuri como meu “spa” natural e flutuei como a voar por cima de um mar verde. Em diversos momentos inclusive abri os braços, para me sentir passarinha da água.

Mas o rio não era só relaxamento. Há trechos mais fundos e de correnteza um pouco mais forte, onde tive que gastar suada energia em braçadas na contra-corrente, aguardando o André, que fotografava o máximo possível e vinha atrás de mim no ritmo de fotografia. Mas mesmo tal “exercício” não comprometia meu estado psicológico geral de leveza e felicidade.

Mais ou menos na metade do passeio, o guia nos pediu para tirarmos a cabeça da água para ver um pássaro enorme. Logo depois, foi a vez de uma mamãe-lontra aparecer com 2 filhotinhos na beira da água. O sol estava delicioso iluminando a cena como no famoso quadro de Monet, e as lontras tomavam sol. Mergulharam então na água em velocidade de vapt-vupt, levantando uma poeira considerável do fundo. Mas nossa tarde já estava sorridente com esse encontro-surpresa.

Fomos flutuando em nossa velocidade. O fato de estarmos sozinhos na água colaborou para vermos mais detalhes do rio, que próximo ao final ficara mais cheio de partículas em suspensão, provavelmente devido à seca. Depois do passeio terminado e já em terra, meus olhos ainda estavam enxergando as tonalidades esverdeadas que vira embaixo d’água. Não é todo dia que voamos sob um tapete verde molhado e gosto de pensar que se Monet tivesse conhecido o rio Sucuri, sua série de quadros de flores aquáticas teria incluso visões submersas fenomenais.

Porque o quadro que a gente vê embaixo d’água ali no Sucuri é tão lindo e iluminado que deve ser guardado no recanto íntimo das artes da gente, junto com as ninféias de Monet, onde as grandes belezas do mundo se tornam inesquecíveis.

Tudo de Bonito sempre.



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