Uma Malla em Cancún

Uma Malla em Cancún

Acredito que os que tomam sol por essas playas mallísticas já estão cientes que fim de semana retrasado estive em Cancún com mais 5 blogueiros a convite da Royal Holiday para um encontro num dos resorts deste balneário, o Cancun Caribe Park Royal Grand. Foram dias muito bacanas, cheios de risadas e micos meus (principalmente na hora de falar espanhol, língua que definitivamente não domino nada). E principalmente dias intensos de relaxamento, algo que eu ando precisando muito, dado o volume de trabalho que tem se acumulado aqui no Havaí.

Uma Malla em Cancún

Para descansar à beira-mar…

(Mas antes um parênteses se faz necessário. Eu nunca havia ido ao México. Mais que isso: nunca o México constou em lista alguma minha de “viagens que quero fazer antes de morrer”. Ou seja, não era definitivamente um destino que me atraía. Por motivos que nem eu sei explicar direito; mas não era, confesso. Cancún principalmente, com sua fama de mini-Miami e sua tradição de destino para jovens em spring break, o tipo de passeio que me cheira a roubada homérica. Então quando o convite apareceu, depois de momentos de desconfiança, aceitei mas sem muitas expectativas. E agora, acho que a viagem foi importante porque corroborou aquela velha máxima que as preocupações do dia-a-dia me fizeram esquecer: toda viagem vale a pena se a alma não for pequena. Descobri nessa oportunidade que o México é um país muito bacana, surpreendentemente diverso, cheio de lugares interessantíssimos pra se conhecer e que eu pretendo sem dúvida voltar algum dia com calma, para mergulhar, aprender história, comer bastante e curtir cada metro quadrado. Adoro quando revejo meus conceitos in loco da maneira como aconteceu nessa viagem. Fim do parênteses.)

Prossigamos então com o relato da visita.

No hotel…

A chegada a Cancún, depois de 10h de vôo com parada estratégica em Houston, foi tranqüila. Na van da Royal Holiday, Janaína e Fábio já se esfriavam do calor equatorial que fazia. Fiquei sabendo que Riq, Pedro e Sheila haviam perdido suas respectivas malas entre a Cidade do México e Cancún, e que estavam naquele momento descascando tal abacaxi no balcão da Mexicana. Depois de tudo resolvido, rumo ao hotel.

Tudo que eu queria ao aportar ali era um banho – na jacuzzi da varanda do apartamento, de preferência. Mas quando olhei pela janela, passei a desejar um mergulho naquele mar verde ciano também. Antes de tal desejo se cumprir, fomos apresentados à Laura e Ana, nossos contatos pelo México, que nos acompanharam maravilhosamente durante a estadia. O almoço foi no restaurante do hotel mesmo. Distribuí minhas lembrancinhas havaianas ao pessoal (besteirinhas úteis como caneta e post-it, dadas de coração por uma malla que adora presentinhos) e tive então meu primeiro contato com a comida mexicana autêntica: guaca mole, claro. Comida, aliás, foi uma charada intermitente para mim, por uma questão simples: sou alérgica a pimenta, o que no México é a base culinária de toda e qualquer refeição. Entretanto, como ex-moradora da Coréia, onde a pimenta também se destaca na gastronomia local, sabia como me portar para evitar idas desnecessárias a um hospital. 😀

Andar na areia com esse azul apaixonante que nos engole: não tem preço.

Depois do almoço, decidi andar pela praia com o Riq. Caminhamos sob sol escaldante até a virada, onde os edifícios pé-na-areia invadem a extensão da praia. Um crime estético do desenvolvimento, que só confirma a fama de “extensão de Miami” que Cancún leva. Pelo menos na Barra da Tijuca ainda tem calçadão pra todos… A Laura nos contou depois que a praia no México é pública, mas em toda a área que andamos, não vi um pedacinho sequer de trilha para o povo chegar até a areia. Você, morador de Cancún, é obrigado a atravessar por dentro de um hotel sempre. Diferente do Havaí, onde os hotéis são obrigados a construírem um caminho público de acesso à praia, aqui não vi sinais de algo similar. (Outra diferença é a falta completa de reciclagem de lixo na área hoteleira de Cancun, um pecado ambiental que desceu muito quadrado para mim, confesso. No Havaí, há uma preocupação maior com reciclagem nas áreas de turismo, sem dúvida.)

Na volta de nossa caminhada, finalmente o mergulho. O mar a uma temperatura de uns 30 graus, quentinho, com marolinhas deliciosas. Botei o papo em dia com o Riq, que girou (óbvio) ao redor de viagens em geral. Depois de mais de 1h de molho naquela água deliciosa, era hora de dar uma descansada antes das atividades da noite.

Para o jantar, fomos levados a outro hotel da mesma rede, o Park Royal Cancun, onde nos mostraram os diferentes estilos de apartamento. Jantamos num restaurante italiano dentro deste outro hotel. Na mesa, já totalmente confortáveis uns com os outros, cada um contava suas aventuras de viagens passadas e seus planos de viagens futuras. Ou seja, reunir blogueiros de viagem, apaixonados por viajar, em uma viagem (!) está provavelmente entre os mais monotemáticos entourages possíveis na vida. Mais louco ainda é como eu não me canso nunca desse monotema, diga-se de passagem. 😛

No dia seguinte, o café da manhã foi numa sala especial, apenas para a gente. Reunidos com o responsável pelo hotel em que estávamos, conversamos e discutimos sobre a possibilidade real de empreendimentos como o do hotel funcionarem para os brasileiros. Explico.

O esquema é de um clube estilo timeshare repaginado com o nome de “propriedade de férias”: a pessoa compra o direito de participar e usar uma propriedade, paga anuidade, e escolhe o local de suas férias baseado no número de pontos de seu título e na disponibilidade de apartamentos no local que escolher. Esse, aliás, é o maior problema que ouço da maior parte dos donos de timeshare que conheço: os lugares bons de se passar férias nunca têm vaga, ou quando têm são fora da temporada, o que para uma família com crianças na escola, por exemplo, é uma desvantagem. Mesmo com esse agente complicador, o conceito de “clube de férias” é um estilo de viajar que cai muito bem para o consumidor americano. Entretanto, tal cenário se alterou com a crise americana, pelo menos em Cancún. 50% dos turistas da região são americanos, ou seja, dos EUA depende boa parte da economia desta região mexicana. Com a crise, os americanos cortaram suas viagens, o que reflete diretamente por Cancún. O turismo na região sofreu uma queda brutal, 15000 pessoas foram desempregadas e vem daí a necessidade que o responsável do hotel com quem conversávamos percebeu em se investir em novos mercados (Brasil, por exemplo…). Eu particularmente não vejo este tipo de acomodação como um tipo de empreendimento de férias que o brasileiro gosta, mas não deixa de ser mais uma alternativa no mercado. (O Riq e o Pedro pareciam mais por dentro destas análises, então prefiro aguardar o que eles podem acrescentar sobre este tema em seus blogs. O Riq aliás lembrou de um adendo muito importante que pesará na escolha final: o México exige visto para brasileiros. O que para uma família que quer apenas curtir as férias numa praia no Caribe pode se tornar um grande empecilho para conhecer o México; afinal Aruba é logo ali.)

Depois do café, eu e Riq fomos rumo ao Embarcadero para pegar o ferry para Isla Mujeres. A travessia é tranquila por aquele mar azul piscina. Chegando em Isla Mujeres, logo vi que várias operadoras ofereciam passeios para ver os tubarões-baleia, que nesta época do ano aparecem em Hollbox, perto dali. Apesar da tentação ter sido gigante, não poderia ir, já que é um passeio demorado e requer o dia inteiro. Além disso, eu não estava com o equipamento sub para fotografar esses bichos lindos, então a tentação funcionou para me animar a voltar com o André ali no futuro.

Isla Mujeres.

Isla Mujeres é um vilarejo arrumadinho. Um pequeno comércio na rua principal que leva a praia, basicamente restaurantes. A praia, aquele padrão azul-ciano que Cancún já me deslumbrara. Decidimos andar para um recanto mais tranquilo, aparentemente sem as cadeiras plásticas que o Riq (e eu) achamos o fim de uma praia. Chegamos a um bar de uma pousadinha simpática, e por lá nos alojamos. O Riq interessado em fotografar o mar lindo, curtir a praia em sombra, cerveja e água fresca; eu, biomaluca, interessada em nadar entre peixinhos que se atraíam pelo vermelho do meu esmalte nas unhas, ver lesmas-do-mar e entender o que eram aqueles tufos de alga no meio do Caribe. E tomar sol, que ninguém é de ferro.

Depois de um bom tempo ali, curtindo aquele pedaço de paraíso, atravessamos a baía das Mujeres de volta; desta vez, a parada foi em Puerto Juaréz. De Puerto, fomos para o mercado 28, no centrinho de Cancún. Quem me conhece sabe que eu adoro esses mercadinhos populares. O Mercado 28 não me decepcionou, principalmente porque fomos lá para almoçar. Escolhemos o restaurante que parecia mais cheinho, e confesso que não vi ninguém que lembrasse um turista por ali; era um point de mexicanos-família em pleno domingo. O almoço estava uma delícia, com direito a banda mexicana tocando e tudo, e só não pude aproveitar mais porque os frijoles fritos estavam apimentados… 😀

Voltamos pro hotel, onde o pessoal se reunia na piscina. Aproveitei para tomar uma limonada dentro d’água enquanto o papo rolava sobre os programas do Travel Channel, confirmando mais uma vez a minha teoria do monotema turismo quando blogueiros de viagem se juntam, não tem jeito – quem mandou viajar ser algo tão bom? 😀 Uma unanimidade opinativa surgiu da conversa: Anthony Bourdain rules.

À noite, o jantar foi no restaurante do hotel, depois de um tour pelas melhores suítes disponíveis aos possuidores do tal título do clube. Mal a salada chegara, e um americano-hindu que ficara amigo do Pedro chegou com a notícia bombástica: uma tartaruga cabeçuda desovava na praia em frente ao resort. Imediatamente me levantei com Pedro e Laura e fomos à beira-mar ver aquele momento único. Contive as lágrimas, mas fiquei muito emocionada. Fui tirando fotos e os flashes começaram a incomodar a tartaruga, que respondeu jogando areia na gente. Os funcionários do hotel pediram para que nos retirássemos para deixar a tartaruga terminar seus afazeres ovísticos, desligaram as luzes e ela ficou lá em seu ninho, cavando e pondo ovos. De acordo com os funcionários, no dia seguinte responsáveis Tamar-like de Cancún iriam retirar os ovos dali e deixá-los chocar em área mais reservada, sem tanta movimentação nem de maré nem de gente. Essa é uma prática que o Tamar faz em toda costa brasileira também, para maximizar o número de tartarugas que nascem. Depois da janta, dei uma espiada da janela do meu quarto e vi que a trilha da mãe estava na direção do mar – ou seja, a tartaruga já tinha terminado sua postura e estava de volta ao oceano.

Amanhecer da janela do meu quarto.

No dia seguinte, o café da manhã foi cedo, porque iríamos passar o dia no Parque de Xcaret, que fica a cerca de 1h e meia de Cancún. É um parque temático, embora o tema em si tenha um twist confuso: ecoparque-aquático-mexicano. De qualquer forma, eu gosto de visitar parques, porque gosto de observar as oportunidades educativas e como elas são aproveitadas. No Xcaret, logo na entrada, a primeira boa impressão: um aviso de que eles trocavam o protetor solar de cada um por um do tipo biodegradável, que não danifica os corais e demais animais marinhos. Achei bacana pelo menos como exemplo de preocupação ambiental. Um estudo já mostrou o efeito deletério dos protetores solares sobre os corais, principalmente em áreas onde muitas pessoas frequentam (como Yucatán). Independente das questões e dúvidas que o estudo levanta, acho que num caso assim é melhor prevenir que remediar.

Aviso na entrada do Xcaret sobre os danos do uso de certos protetores solares à fauna.

I love flamingos – e seus sorrisos. 😉

De cara, depois de passar por uma área de araras vermelhas e flamingos, decidimos marcar logo nosso nado com os tubarões. Digo nosso porque eu não ia ser malla suficiente se não carregasse para uma aventura malluca (minha cara…) um bando de blogueiros, né? Usei todo meu poder de persuasão bioblogístico para conseguir convencê-los de que tubarões não são um bicho amedrontador como a mídia-boba-feia-cara-de-mamão faz crer e que eles teriam a oportunidade única de ver e sentir isso. Deu certo. E um viva aos tubarões! 🙂

O primeiro passeio que fizemos foi por um rio subterrâneo/cenote do parque. Parecia-me um cenote completamente artificial, embora certas áreas com cavernas e depressões parecessem reais. A ausência de vida sub no início do passeio me incomodou, acostumada que fiquei com os snorkels em Bonito. Mas depois de descer aquela placitude, passar por várias cavernas e observar um casal de morcegos fazendo morceguinhos ao vivo e a cores, passamos por dentro de um mangue e chegamos num ponto cheio de peixes marinhos, onde as cores predominavam. Aí sim o passeio valeu.

De lá, eu e a Sheila fomos andar pela área costeira do parque. Passamos pelos macacos, pela anta e por uns outros animais. Até chegarmos no tanque dos tubarões, onde nossa próxima aventura começaria. Os demais blogueiros se juntaram nessa empreitada malla, que começou com a explicação pelos guias sobre a biologia do animal, como se portar, e uma pitada de humor negro (jogar tinta vermelha com caldo de peixe na água pra simular sangue e atrair os bichanos). Passamos então pela segunda parte da história, quando o guia põe o tubarão no nosso colo, para que passemos a mão nele e possamos sentir hands-on o quanto o animal é tranquilo. (Ressalto que é um tubarão-lixa, Ginglymostoma cirratum, que normalmente caça à noite e cuja dieta é composta basicamente de pequenos invertebrados. Um doce. Mas não tente o mesmo com um tubarão-tigre.) Na terceira etapa da atividade, os tubarões ficam em seu tanque e a gente snorkela com eles. Foi interessante, embora a visibilidade da água não estivesse lá essas coisas. Mas é uma delícia nadar entre eles. Por fim, antes de ir embora, os guias dão uma mini-palestra conservacionista, em que comentam o problema da caça por barbatanas e afins. Muito importante fazer esse alerta principlamente depois que você saiu da água, quando já desmisitificado como terror dos terrores – o timing para incutir a mensagem ecológica é perfeito, em minha opinião. Apesar de saber que os animais podem estar estressados ali, principalmente na 2a etapa da brincadeira quando são manipulados, o fato de você desmistificar e reduzir o medo que as pessoas têm por esses bichos, em minha opinião, é de extremo valor para a conservação da espécie como um todo.

Música para o seu almoço.

 

É aquela velha história que comentei nesse post: a oportunidade de manipulação aproxima a causa conservacionista para o público, o que auxilia na divulgação como um todo. É o equilíbrio entre o estresse do bicho (que não me pareceu muito…) e o ganho com a conscientização a estratégia vencedora neste caso.

Saindo dos tubarões, fomos almoçar. Um buffet mexicano enorme, cheio de todas as curiosidades culinárias que dariam água na boca no Bourdain. Tive dificuldades em escolher, mas terminei aprovando as tortillas com molho de carne sem pimenta e o frango com molho de chocolate. Para beber, suco de jamaica – até agora estou tentando descobrir que fruta era aquela, tão doce [update: é hibisco!]. O restaurante contava com um grupo de cantantes tocando, músicas típicas de Cancún e do México. Bem show para turista, mas que funciona muito, principalmente para aqueles (como eu) que precisavam de um crash course em México com urgência.

O suco de jamaica (?!?).

Fomos então ver o espetáculo dos Voladores de Papantla. Este é um ritual dos índios Totonac da província de Vera Cruz que celebra a colheita da primavera. O voladores, em cima de um poste bem alto, tocam flauta e após uma série de movimentos musicais, começam a descer de ponta-cabeça pendurados pela corda (que se desenrola 13 vezes, multiplicado pelos 4 voadores = as 52 semanas do ano representadas). É um ritual bonito de se ver, colorido, com uma música característica bem compassada [vídeo aqui]. Quando chegaram ao chão, passaram a uma performance que mais parecia um catavento humano. As cores são definitivamente o que mais me impressionaram no México, e ali, naquela demonstração de Papantla, parecia que elas mais se destacavam ainda. Fascinante.

 

O ritual dos Voladores de Papantla.

Havia um rodeio acontecendo, mas confesso que não me interessei muito e fui passear pela vilinha mexicana montada dentro do parque. Um jardim de agave se destacava – para fazer tequila.

Jardim de agave.

Introdução ao espetáculo da noite sobre o México. Me lembrei que vi atração similar na Nova Zelândia, destacando a cultura maori local.

A noite já começava a cair quando nos encaminhamos para o “ginásio” onde aconteceria o jantar-show sobre o México, com danças contando a história da civilização maia, a invasão espanhola (com um fim cheesy não correspondente da realidade) e danças de cada estado mexicano – inclusive aquelas tex-mex, cheias de cauboizices. Eu adorei o espetáculo como um todo, embora meio longo. Primeiro, o juego de pelota maia, que era basicamente um futebol jogado com a bunda em que se tentava acertar um buraco na pedra na lateral do campo. Depois, o jogo em que a bola era incendiada e arremessada com um bastão tipo hóquei no mesmo gol de pedra, ou seja, hóquei com muita emoção. E caí de paixão pelas danças de Vera Cruz, que mostravam temas marinhos, inclusive com um boneco de polvo e uma fantasia de coral. Uma fofura.

O polvo alegórico.

Dançarina-coral: inspiração para próxima festa à fantasia que for.

Adorei esse instrumento, tocado como um pianinho numa caixa de madeira.

Cansados das atividades que nos ocuparam o dia inteiro, a noite terminou para a gente na hot tube do hotel. Uma noite linda, de lua quase cheia e com muitos relâmpagos acendendo no mar. Meu vôo de volta era no dia seguinte de madrugada, e como já passava da meia-noite quando saí da piscina, decidi que ficaria virada para dormir plenamente no avião – o que não aconteceu, diga-se de passagem. Eram 4 da madrugada quando deixei Cancún. Estava cansada mas muito feliz. De interagir com pessoas tão bacanas, de conversar sobre viagens 100% do tempo de maneira tão adorável, de rir dos meus micos. E ganhei uma lição inestimável: provei de um destino que desprezava e aprendi que há mais diversão nas entrelinhas dele do que sonhava minha vã e capenga filosofia de turismo.

Tudo de mar azul caribe sempre. Hipnotizem-se também. 🙂

*Esta foi uma #AP (viagem patrocinada). 



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