Viagem na viagem

por: Lucia Malla Amigos de viagem, Antigos, Blogversário, Mallices, Viagens

Viagem na viagem

O convidado especial de hoje é das pessoas mais fantásticas que conheci via este blog – fantásticas no sentido de realismo fantástico também, já que ele constantemente surrealiza discussões de forma única. Nem lembro mais quando esbarrei com o Flávio Prada pela 1a vez na blogosfera, mas fato é que em algum momento isso aconteceu, nossos papos começaram e lá se vão alguns anos de muitas risadas e discussões via email e/ou skype, discussões estas que nunca são infrutíferas. Afinal, o Flávio, assim como eu, viaja na maionese com uma certa frequência, então a gente se encontra num universo paralelo quase sempre. Em abril, tivemos o prazer de visitar Veneza com sua assessoria arquitetônica mais que especial – além de nos apresentar uma das maiores loucuras gastronômicas que já vi, a feira de queijos de Trento (merece um post, aguardem). O preço disso foi que ele “teve” que nos hospedar por um dia em sua casa, onde ele, italiano de sangue e enólogo por consequência, foi apresentado ao… vinho de abacaxi, uma das “delícias” havaianas. 😀

Aí é claro que eu pedi pro Flavio viajar aqui nessa celebração de 5 anos. Olha só onde ele foi parar…

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A Lucia Malla tem a capacidade de me fazer refletir sobre os movimentos, as idas e vindas. Pensar no que efetivamente é o viajar. Isso se faz, a reflexão, obrigatoriamente sossegado, parado, em casa. O que já nos dá uma das dimensões do problema: para ser um viajante é necessário ter um seu porto seguro. Porque aquele que não tem casa é o nômade e esse se encontra em uma outra categoria de ser móvel. Para ele o mundo inteiro é como se fosse sua casa, onde basta mover as pernas e o planeta escorre sob os seus pés. O nômade não viaja, é o mundo que gira debaixo dele.

Outro que se exposta muito é o andarilho, mas ao contrário do nômade, em geral não o faz como fruto de uma escolha de liberdade. Na verdade ele tem um mundo que carrega nas costas e o caminho é um condição obrigatória, um mover-se condicionado e necessário à sua busca de fuga de si mesmo.

Mesmo dentro da categoria dos viajantes existem muitas sub-categorias. Em quase todas ao menos uma vez na vida nos deslocamos, mesmo que tenhamos nossas preferências e modos de fazer. Falo por mim, mas sei que todo mundo por exemplo já viajou de carona, entregue ao desconhecido em um processo de reforço da auto-confiança que só faz bem. Ou então a viagem em grupo, com bandos de desconhecidos ou com grandes amigos, todos juntos em um ônibus ou avião, o que permite o aflorar do animal selvagem que temos dentro, aquele gregário que se sente mais forte em manadas organizadas e é capaz de ações únicas, ou seja, faz coisas que não faria em uma viagem solitária nem se estivesse bêbado como um porco. O que dizer pois das curtas viagens sem destino com a beleza da surpresa e o prazer da descoberta? Sair de carro, moto ou mesmo a pé ou bicicleta e se deixar levar pela paisagem, o tempo e o destino. Vale por inúmeras sessões de psicoterapia. Outro belo modo de viajar é aquele bem organizado, planejado e definido. Em certos momentos da vida faz bem seguir um roteiro e saber o que vem pela frente.

No fundo as maneiras de viajar dependem mesmo disso: do nosso momento de vida, daquilo que faz nossa cabeça naquele momento.

Talvez pensando nisso é que nos últimos tempos tenho feito minhas viagens na quarta dimensão, coisa que nossa tecnologia nos permite em modo muito interessante. Viagens no tempo são já possíveis e tenho me dedicado a isso. Até porque na minha última viagem em família, a quebra do carro a 400 quilômetros de casa em um domingo à noite não foi propriamente uma tragédia visto que rimos à lembrança, mas nos quebrou o orçamento em tal maneira que nos sobrou somente o belo exercício de desafiar a linearidade da cronologia.

Um exercício agradável e dramático ao mesmo tempo. Porque no mínimo um sabor de estranhamento nos chega quando nos fixamos nos olhos, olhando nossa foto de vinte ou mais anos atrás. Aqueles olhos são os mesmos que os vêem em um espelho que se dilata no espaço-tempo, ou seja, um espelho que aparentemente é fixo, mas na verdade viaja. Gravar vídeos para si mesmo para ser visto daqui algum anos tem sido estimulante. Talvez seria um bela componente adicional expedir esses vídeos para diversos amigos pelo mundo e programar a revisão com os mesmos, lá na casa deles, idade e budget permitindo. Viagem na viagem. Ou muita viadagem, ainda não sei.

Em todo caso, volto a encaixotar minhas coisas, estou me mudando, vou viver em outro apartamento. Uma viagem sempre épica, visceral, radical. Mas que renova, sempre, como qualquer tipo de viagem. Por isso rapazes, não fiquem parados.



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