Inquietações de uma viajante inveterada

por: Lucia Malla Antigos, Blog, Blogosfera & mídia social, Mallices, Viagens

Em meu último post de desafio, deixei a foto de uma igrejinha para que as pessoas tentassem descobrir onde fica. Confesso que achei que seria um desafio facílimo, já que tal construção fica muito perto de São Paulo. Mas até agora, ninguém acertou – e eu finalmente deixei lá a resposta. O fato é que o desconhecimento de uma cidade tão pertinho de Sampa me levou a viajar supor que as pessoas talvez não conheçam os arredores de onde moram… aliás, nem a própria cidade, já que eu mesma, carioca da gema, levei 23 anos para subir enfim no Corcovado – e 32 para finalmente conhecer a simpaticíssima Vista Chinesa.

Isso revela um lado da nossa natureza humana em busca sempre da novidade. Queremos o novo, mas o novo não precisa ser só “novo”: precisa ser “distante” da nossa realidade. As pessoas não encaram ir a cidade vizinha como uma “viagem”. Viajar parece ser apenas o ato de ir a mais de (x + y) quilômetros (cada um escolhe seu limiar para resolver a equação), embora nada efetivamente defina isso num livro. Mas na nossa cabeça é assim. O que me leva a outra viagem na maionese, claro.

Viajar significa, na definição mais simples do Michaelis:

“viajar vi.a.jar (viagem+ar2) vti e vint 1 Fazer viagem; ir de um lugar para outro ou outros: Viajar para algum lugar. Viajar pelos sertões. Há muito já não viajo.”

Ou seja, o mero andar de um ponto X a um ponto Y. Nessa definição mais que abrangente, ir na padaria da esquina pode ser uma “viagem”. Eu gosto dessa definição, porque ela nos tira de um monte de amarras que temos com o ato de viajar. A principal delas é a financeira (que parece ser a maior amarra da maior parte das pessoas). Simplifica o ato.

Desde criança, meus pais me incentivaram a viajar. Ainda bebê, aliás, havia um instinto de querer conhecer outros mundos, “viajar” – e eu arrastava sacolas plásticas de supermercados com roupas dentro pela sala de casa, indicando às visitas que queria conhecer um pouco do mundo físico delas. Aparecia uma dessas “excursões” de escola e eu era talvez a única da minha classe que não precisava nem perguntar se podia ir: tinha certeza que meus pais me apoiavam nessa empreitada. Isso porque meu pai era (e é ainda) uma pessoa que curte muito cair na estrada.

Aí na adolescência e pré-vida adulta, quando estava na faculdade, eu me pegava sem dinheiro algum. Mas queria viajar, e ao primeiro sinal de 20 reais eu comprava uma passagem pra cidade vizinha e passava o dia lá, no estômago apenas um pão de queijo e um cafémas na cabeça a inquietação para conhecer outros mundos. Às vezes uma senhorinha bondosa, dessas que vão à igreja todo fim de tarde, me via olhando curiosamente pelas ruas de uma cidadezinha qualquer perdida de Minas e me oferecia um café em sua cadeira na varanda – e um tico de prosa deliciosa, trazendo lições universais de uma vida inteira entre dois pedaços de broa. E eu viajava ali, sentada numa calçada nova.

Eu adoro relatos de viagens. Meus, dos amigos, de desconhecidos… é das minhas leituras prediletas em qualquer momento da vida. Não à toa, adoro todos os blogs de viagem que conheço que contam verdadeiras histórias em seus posts, principalmente os recheados de fotografias e emoções (a Luisa e a Emília são minhas mestras nessa vertente). Os relatos me fazem viajar com eles, entender perspectivas diferentes. E gosto de perceber a perspectiva que as outras pessoas têm de uma mesma situação, o quão diferente é essa percepção de um mesmo destino e o quão isso muda de acordo com quem o experimentou. Por exemplo, recentemente, a blogosfera brazuca foi inundada por posts de viagem a um mesmo destino, “culpa” de um evento propagandístico-marketeiro. Mais que análises midiáticas (que disso eu não entendo mesmo), eu, viciada declarada em relatos de viagens, adorei a “experimentação” quase científica: o fato de ouvir as histórias de tantas pessoas em curto espaço de tempo sobre o mesmo ponto – porque, muito mais que meras descrições das atrações legais de um lugar bonito (isso qualquer guia de viagens já faz), elas também trazem o olhar de cada um e realçam a realidade pungente de que viajar é, muitas vezes, se incomodar. Em minha opinião, faz bem esse incômodo que um lugar novo oferece: é ele que nos faz pensar, refletir; é a inquietação da experiência nova, distante da nossa realidade, seja ela na padaria da esquina, na calçada de uma cidadezinha, em Pernambuco ou em Bangkoc que nos leva a aprender algo, que embaralha nossa perspectiva acomodada de vida e que torna o ato de ir e vir muito mais complexo do que a mera definição, que nos permite entender porque esse é um direito humano fundamental. O mundo seria mais bacana se mais pessoas viajasssem – porque viajar enriquece a nossa aventura de viver. Viajemos e nos inquietemos sempre, para quem sabe, perceber com outros olhos a nossa própria realidade rotineira.

Tudo de bom sempre.



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