Parques nacionais americanos: de volta ao Kilauea

por: Lucia Malla Big Island, Geociências, Havaí, Parques Nacionais, Viagens

De volta ao Kilauea

Parte da tarefa fotográfica era visitar mais uma vez o Parque Nacional dos Vulcões – uma repetição de passeio sem problema algum, já que cada dia a lava está brotando num ponto diferente, o que torna a paisagem sempre nova. A idéia era ver o pôr-do-sol no local onde a lava escorre no mar, algo que já havíamos feito em 2006 de forma inesquecível na nossa lua-de-mel: piquenicamos à luz da lava.

Mas íamos no fim de semana a um dos grandes shows do Kilauea recentemente: a lava havia abocanhado na sexta-feira anterior um pedaço considerável da rodovia que leva até Kalapana [veja o vídeo para ver as cenas da rodovia]. A animação tomou conta da gente. Afinal, esta estrada está fora do parque, o que significaria melhores chances de ver a lava de pertinho (e melhores fotos, entenda-se bem). No parque, os rangers geralmente colocam as barricadas de proteção a muitos metros de distância. Como a lava que escorre do Kilauea é do tipo ‘a’a (que eu chamo de “campos de sucrilhos”, devido a consistência quebradiça que fica depois que ela passa) ou então pahoehoe (que é super-lenta e gera as famosas esculturas de lava), dá pra ver ambas sem maiores riscos a sua integridade física – quer dizer, quase, porque os pulmões sempre estarão reclamando do ar sulfurado.

O Parque Nacional dos Vulcões do Havaí é um patrimônio reconhecido pela UNESCO desde 1987, como mostra essa placa no centro de informações.

Chegamos no início da tarde, e decidimos primeiro passar pelo centro de informações do parque para saber exatamente o ponto de brotamento da lava naquele dia. Como sempre muda, é fundamental perguntar essa informação no dia que você vai lá para não perder tempo procurando lava em campo deslavado. No centro de informações, há sempre funcionários para explicar a geologia local, curiosidades, etc. e aproveitei que a guardinha falava com um casal para ouvir de lambuja os comentários.

Começamos fazendo a “ronda” tradicional pelo Chain of Craters Road, que é a via principal dentro do parque que passa pelas diversas crateras e zonas de erupção do Kilauea desde sempre, além das aberturas onde vapor do vulcão é expelido. Há placas indicando a data de cada uma das erupções responsáveis por cada pedaço da paisagem.

Vai um lifting facial de graça, aí? 😀

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A primeira parada foi no observatório principal, de onde temos uma belíssima vista para toda a cratera do Kilauea, em especial para o vent Halema’uma’u, que voltou a expelir gases em 2008 (quando estive lá da última vez ela estava paradinha, sem uma nuvenzinha sequer) e um dia depois da nossa visita seu teto literalmente caiu – e agora os sortudos que visitam o parque à noite podem ver o brilho da lava dentro da cratera direto do observatório. Do observatório, tirei uma foto com meu celular que postei no twitter, e o André capturou o exato momento do crime:

Foi a primeira vez que vi a cratera com tanta fumaça, achei o máximo. Mas, a consequência dessa fumaceira tóxica é que a Chain of Craters Road estava fechada dali pra frente, para evitar maiores problemas de saúde nos que visitam o parque. Então aproveitei o tempo extra para curtir melhor o museu do observatório, que conta mais da geologia da área e que tem na entrada uma rendição artística bacana da Pele, a deusa dos vulcões na cultura havaiana:

Basicamente, o que está acontecendo na cratera do Halema’uma’u é um efeito sanfona: incha/desincha. O salão de magma subterrâneo enche de lava, o que aumenta a produção de gases ao ponto de que eles são expelidos; aí o salão desincha, dando espaço para mais magma ser acumulado ali. A montanha do Kilauea basicamente cresce e decresce igual bolo, e os vulcanólogos percebem e medem isso. MUITO fascinante.

Bom, findo o passeio dentro do parque, tomamos o caminho de Kalapana, para o campo de lava mais fresco do dia. São umas 30 milhas de distância. O cenário no caminho já é indicativo do que o vulcão fez naquela comunidade. Muitas casas estão de pé abandonadas; uma delas estava à venda… quem quer morar na lava?

A estrada para Kalapana obviamente pára quando se aproxima do mar, porque a lava destruiu a estrada há poucas semanas. De longe, já dá pra ver o fumaceiro gerado pelo encontro da lava super-quente com a água do mar fria (que na realidade mede ali no ponto de entrada cerca de 100ºC, mas ainda assim, fria).

Mas aí veio a decepção. Embora fora do parque (ou talvez por causa disso), a área está sendo controlada e vigiada pela prefeitura da cidade, que só abre para observação de 5 da tarde às 8 da noite. É tudo gratuito, mas as barricadas para ver a lava escorrendo no mar estão mais longe ainda do que quando fomos em 2006. Então as pessoas se aglomeram num ponto de onde não dá pra ver perfeitamente o espetáculo, como a foto de abertura do post pode mostrar.

Olha a distância que a galera fica da lava fresca…

Percebi no entanto a presença de barcos que vão no pôr-do-sol para bem perto do ponto de entrada da lava. Tours talvez? Se for, é a melhor forma de ver lava escorrendo, porque os barcos chegam assustadoramente perto.

Depois de apreciar a luz da lava na noite de Halloween (que mesmo de longe ainda me emociona), foi chegada a hora de voltar. Rumo à Kona, onde mais um dia de aventuras nos esperava. Mas essa história só no próximo capítulo. 😀

Tudo de bom sempre.

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Dica malla: Para andar no campo de lava, vá de tênis com meia. Dependendo de onde a lava estiver, você pode ter que passar por campos de ‘a’a, que em geral são muito afiados. Uma encostada de perna ali é corte certo. E leve água, caso você descubra que vai ter que andar bastante para chegar na lava. O campo é preto, o sol castiga ali, absorvendo calor insano; adicione a isso os gases de sulfa e voilá! Garganta seca – e sede.

– O parque fica aberto 24h, então tente visitá-lo pelo menos um dia à noite. O brilho da lava iluminando o céu é fantástico. Desses momentos únicos na vida da gente…



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