A audácia da esperança

por: Lucia Malla Livros, Política

Por causa da minha forçada estadia em casa me recuperando da cirurgia que fiz no final de novembro, passei boa parte de dezembro pondo algumas leituras em dia – principalmente as leituras não-relacionadas ao trabalho, que estavam acumuladas por falta de tempo. Um dos livros que li foi “The audacity of hope” (em português “A audácia da esperança”), escrito por Barack Obama, na época ainda em que era senador americano.

O livro me impressionou.

Tenhamos em mente que foi lançado em 2006, um ano após o Katrina ter devastado New Orleans, no auge da lambança Bushista no Iraque e principalmente, antes de Obama sequer sonhar em se candidatar à Presidência do país. Com o livro, Obama tenta naquele momento mostrar um pouco de suas idéias, ideais e reflexões – quiçá soluções, muitas lúcidas, algumas quixotescas, num exercício típico dos otimistas mais inveterados – sobre diversos tópicos do mundo atual. A divisão dos capítulos é intuitiva, abordando os pontos nevrálgicos da história e política americana recente: Republicanos x Democratas, Valores, A Constituição americana, Política, Oportunidade, Fé, Raça, O mundo além das nossas fronteiras e Família. Obama declara em diversas oportunidades que acredita no sonho americano de um país melhor, onde as pessoas vivam com dignidade, respeito e liberdade de escolha. Explica os meandros de diversos processos políticos no Senado, das divergências entre os partidos, das amarras do sistema para favorecer os mais ricos e imprensar cada vez mais os mais necessitados de ajuda.

Numa avaliação crua, eu diria que no livro ele preconiza e estabelece de maneira metódica e organizada (mas ainda assim, generalizada) sua plataforma política futura para a candidatura à Presidência, sua visão para reabastecer o “sonho americano” de contextualização aos tempos atuais e demonstra inteligência suficiente para o que viria a ser: presidente americano. Embora em momento algum ele sequer mencione a perspectiva de se tornar presidente (que sabemos, aconteceu), a clareza com que expõe suas idéias facilmente se traduz como adequada para tal empreitada – principalmente em meio às trapalhadas da era Bush. Ele é um político, afinal, e palavras milimetricamente pensadas são sua praia e sustento. Não esperaria muito diferente de um livro escrito por um político-advogado que frequentou os bancos de universidades renomadas.

Mas não dá pra fazer uma avaliação tão crua – pelo menos eu não consigo. O que fica transparente no livro é o profundo entendimento dos tempos contemporâneos que Barack Obama possui. É assombroso, principalmente se compararmos com o conhecimento desses “grandes problemas” que a maioria dos presidentes do mundo demonstra ter via satélite. Fica nítida também a noção de “humanidade” que possui da sua própria pessoa, independente de ibope ou decisão oficial, num exercício delicioso de auto-entendimento que ao ler fazemos juntos. Sabedor de suas limitações, de seus erros (e da intrínseca capacidade de errar que nós todos humanos possuímos), dos comprometimentos e frustrações, Obama demonstra nas linhas que escreve um otimismo maduro e enérgico, focado no “fazer” e não no “dizer”. (Se já “fez” ou virá a “fazer” na presidência dos EUA algo de marcante, se está sendo demagogo, se circundado pelos meandros mais nojentos do jogo político, sucumbirá às pressões medievais que impulsionam a roda-viva do poder, cabe à história registrar num futuro próximo. A mim, sobra-me apenas resenhar o que li e senti no livro.)

E acima de tudo, Obama se mostra uma pessoa com uma qualidade enorme (e infelizmente rara) nos dias atuais: a capacidade de ouvir o(s) outro(s). A todo parágrafo, somos lembrados da importância de sermos para o outro ombro às suas lamentações quando estas são necessárias; de sermos para o outro braço direito quando a revolta os consome; de sermos ao outro sorriso acolhedor para os festejos que a vida traz. Há um senso de humanidade e valor compreensivo nesta postura que emociona. Independente do que o futuro o reservou.

Toda essa “viagem” pela história de sua vida e pelas inquietações profundas de político são escritas em linguagem super-acessível, prazeirosa. Obama conta “causos” e entremeia-os com suas visões e soluções, sem medo de soar ingênuo ou exageradamente otimista. Ele se assume assim, e essa realidade é que nos enche de esperança. No mundo atual, ter coragem para se abrir dessa forma é realmente uma audácia, e o título perfeito do livro não esconde essa força/fragilidade fundamental.

Chorei algumas vezes lendo certos trechos e não me envergonho disso. Porque do fundo do coração, compartilho esta necessidade intrínseca de ser otimista, apesar de tudo e todos me esfregando na cara as obviedades e tristezas dos tempos modernos.

E essa também é a mensagem que eu gostaria de deixar para todos que por aqui passarem neste fim de ano.

Que em 2010 possamos ser inundados de otimismo, mesmo quando tudo ao redor pareça indicar desilusão. Que tenhamos parcimônia para compreender os problemas, sugerir soluções eficientes, encarar a realidade de olhos, corações e ouvidos abertos, repletos de respeito ao outro. Que a audácia da esperança por um mundo melhor nos inspire e não nos deixe em momento algum da nossa trajetória de vida.

Tudo de melhor pra todos e para o mundo. Em 2010 e sempre.



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