Existe água limpa?

por: Lucia Malla Comportamento, Ecologia & meio ambiente, Molléculas da vida

Água limpa

Hoje comemora-se o dia mundial da água, uma data criada durante a conferência da ONU de Meio Ambiente e Desenvolvimento no Rio de Janeiro em 92, a ECO92. Desde então, todo ano há uma certa mobilização e discussão sobre diferentes aspectos do tema “água”.

E são muitos aspectos. Houve ano em que se discutiu saneamento; outros em que se discutiu aspectos culturais; já teve preocupação com as barreiras geográficas para disponibilidade de água; enfim, cada ano uma abordagem mais fascinante – e urgente.

O tema deste ano de 2010 é “Água limpa para um mundo saudável”. Num planeta cada vez mais entupido de gente consumindo recursos, o que requer mais e mais uso da terra, manter limpos e minimamente saudáveis os mananciais e recursos hídricos para a população (de todas as espécies, entenda-se) é uma tarefa hercúlea. Basta abrirmos o jornal para vermos notícias de poluentes despejados inapropriadamente ou eutrofizações que sufocam peixes. E mais: o quanto a água que hoje é considerada “limpa” ainda tem de resíduos que não a deixam tão limpa assim? O que vem a ser água limpa nos padrões atuais?

Já escrevi no passado sobre a água anabolizada, cheia de resquícios hormonais, medicamentos, pesticidas e afins que cai nos rios, córregos e mares, e que termina “contaminando” todo o ecossistema – o que já traz problemas bizarros em algumas espécies. Estes agentes, chamados de “interferentes endócrinos”, não são entretanto retirados da água eficientemente com o tratamento urbano comum. Muitos são instáveis na água, mas alguns não, têm sobrevida longa e são mais difíceis de serem degradados. O mais interessante dessa roleta russa é que a razão pela qual inicialmente algumas empresas sugeriam que não nos preocupássemos com estes resíduos hormonais era porque eles estariam em baixa quantidade. Mas qualquer endocrinólogo sabe também que certos hormônios e análogos e/ou interferentes, mesmo em nanoconcentrações, têm poder de ação razoável, e potencialmente podem exercer efeitos em certos animais, inclusive nós. Os estudos nesta área caminham a passos largos, a ponto do problema já ser reconhecido oficialmente como importante. Inclusive com projetos de como saná-lo.

Por isso, toda vez que vejo um copo de água, me pergunto silenciosamente: até que ponto esta água é realmente limpa?

O tema deste ano é totalmente pertinente para enriquecer esta discussão. Ao definirmos, afinal, o que viria a ser a água limpa e saudável para nós e para as demais espécies cuja sobrevivência depende deste recurso, quais os parâmetros devem ser analisados na classificação dos poluentes, como levar água realmente limpa à população, poderemos enfim gerar os fundamentos para abordar o problema de maneira mais pragmática e eficiente.

Tudo de bom sempre.

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Para viajar mais…

– Um artigo de 1999 sobre disruptores endócrinos no Brasil [link em pdf].

– Um antigo e bom livro (que virou uma organização de luta pela diminuição dos disruptores no ambiente): “Our stolen future”.



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