Um fim de semana em Geoje-do

por: Lucia Malla Ásia, Coréia do Sul, Tecnologia, Viagens

Quando eu morava na Coréia, tinha um grupo de estrangeiros que se reuniam de vez em quando para fazer umas viagens de “imersão” na cultura local. Foi com eles, por exemplo, que eu participei de uma gincana muito hilária em Ganggyeong. O grupo era eclético, e tinha nepalês, filipino, nigeriano, francês e mais um monte de outras nacionalidades. Minha última viagem com eles foi essa à ilha de Geoje-do (na realidade, o certo é escrever ilha de Geoje, já que “do” em coreano significa ilha. Mas me soa tão estranho deixar o “do” de fora… mallices.)

Então quando no último post citei uma grande empresa de celular coreana, lembrei que em 2005 fizemos uma visita a uma das fábricas da dita empresa quando estivemos nesta excursão em Geoje-do. Na realidade, era um estaleiro – a empresa na Coréia vai muito além de eletrônicos, e é basicamente umas das grandes corporações que sustentam a economia do país. Inclusive com esta “fábrica de navios”, das maiores do mundo.

O passeio no estaleiro valeu para ver de perto a linha de produção de um navio gigante. Para ter uma noção do gigantismo da empreitada.

As docas secas de construção eram enormes, cada uma mais impressionante que a outra.

A logística envolvida em montar todas aquelas peças metálicas e mais um monte de outros detalhes é de assustar. Embora nosso passeio no estaleiro foi feito dentro de um ônibus – só podemos descer do mesmo na sede de escritórios – para evitar que “segredos industriais” da companhia fossem revelados, mesmo assim, impressionou.

Mas Geoje-do não é só estaleiro – embora esta seja definitivamente a principal atividade econômica da cidade. A ilha fica na costa sudeste da Coréia (mapa aqui e mais de perto aqui), uma área de montanhas e verde, recortada por inúmeras baías. Quando lá chegamos, já de tarde, nossa 1a parada foi num pedaço de história: um parque “temático” sobre os prisioneiros de guerra (POW).

Ali no Campo de Prisioneiros de Guerra de Geoje-do ficaram presos muitos norte-coreanos, chineses e mulheres durante a Guerra da Coréia na década de 50. O parque tenta mostrar um pouco de como era a vida dos prisioneiros naquela época ali, e você pode caminhar por entre os barracões e casebres onde os prisioneiros ficavam, ver como cozinhavam, seus banheiros humilhantes (vistos por todos) e como eram constantemente vigiados (claro).

Dentro do Parque também há um diorama, uma montagem com bonecos em tamanho original que mostra um dia de um prisioneiro de guerra, além de um pouco de como aquele campo de prisioneiros começou e se alargou.

Enfim, é um passeio de história; a gente precisa ver, digerir aqueles exemplos de barbárie de guerra para tentar não repeti-los jamais. Afinal, o preço humano é muito alto.

Entrada para o diorama do Campo de Prisioneiros de Geoje. Você entra basicamente por dentro de um tanque de guerra. Bizarro.

No estacionamento deste parque, um show de música coreana nos esperava. Como fazíamos parte de uma excursão relativamente grande de estrangeiros, o prefeito da cidade estava presente nesta demonstração cultural para nos saudar. Ficamos assistindo apresentações de música, dança, teatro e afins até anoitecer, antes de nos encaminharmos pro hotel.

No dia seguinte, ao acordar, a surpresa: essa era a vista do hotel.

Uma baía fofa, numa cidade repleta de casas com telhados azuis. Um cenário idílico que não me cansava a vista.

Artefato de pesca que estava no píer em frente ao nosso hotel.

André não resistiu e foi andar pela costa. Apesar do dia azul, fazia um frio abusivo pros meus padrões e eu fiquei dentro de uma padaria tomando leite quente e vendo-o fotografar ao longe.

Saímos então para a primeira atividade do dia: exercícios matinais com um grupo de coreanas da Falungong, grupo filosófico super-ultra-perseguido na China (e razão pela qual meu blog a partir de hoje provavelmente será bloqueado por lá). Foi-nos explicado um pouco sobre tal grupo (de acordo com eles mesmos não é uma seita, entenda-se), sobre as atrocidades sofridas por alguns dos membros, etc.

De lá, fomos para uma parada pelas ruas da cidade que eu não me lembro o que celebravam. O trajeto passava por toda a costa da cidade de Geoje, numa caminhada muito gostosa de umas 2 horas, muitas delas na beira da praia.

Vários grupos folclóricos em meio à população. Deu pra perceber que a cidade é um bom balneário, e provavelmente valeria a pena voltar ali no verão.

Depois da caminhada, fizemos a visita ao estaleiro que citei acima. De lá, back to Seoul. As excursões deste grupo eram sempre curtas, para que chegássemos de volta a Seul à tardinha, antes do anoitecer. Como estávamos bem ao sul, uma longa estrada ainda nos esperava.

No caminho de volta, vi da janela do micro-ônibus inúmeras fazendas marinhas. A região tem geografia privilegiada por diversas baías, portanto a produção de frutos do mar é significativa.

Queria parar para ver como a produção marinha fluía ali, mas estávamos numa excursão, tínhamos que nos ater ao cronograma da organização. Mesmo assim, o fim de semana valeu a pena – nem que seja para atiçar o gostinho de querer voltar a Geoje numa época mais quente, para curtir as trilhas e o mar. O que, até hoje, 5 anos depois, infelizmente não aconteceu. 🙁

Tudo de bom sempre.



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