Na trilha do Kaena Point

por: Lucia Malla Animais, Havaí, Oahu

Há alguns fins de semana, fomos fazer uma trilha na ilha. Era a primeira vez desde o fim da minha licença médica que eu ia me aventurar de novo pelo campo. Então escolhemos ir ao Kaena Point, que todos diziam ser uma trilha mais light.

(Adicione a essa informação o fato de que no Kaena Point há um grupo residente de focas havaianas, e voilá! Local escolhido.)

Como chegar no Kaena Point pelo lado oeste

Saímos de casa bem cedinho. O Kaena Point fica na ponta oeste da ilha de Oahu, onde a ilha faz a curva e o litoral começa a dar ares de North Shore. Neste link tem uma foto aérea que dá a exata noção do quão pontinha da ilha o Kaena é.

Depois de dirigirmos pelo menos 1h de casa até o Waianae, a estrada se torna de uma pista só. E uma sequência de praias lindas e esquecidas dos guias de turismo começa. Ao final da Farrington Road, está por exemplo o belíssimo vale de Makua. E um portão, que fecha às 4 da tarde. O Kaena Point é um parque estadual e tem horários para a visita.

Muitas pessoas ficam na praia da entrada do Kaena. Nós queríamos fazer a trilha, então partimos para nossa mini-aventura.

A trilha do Kaena

A trilha é de estrada de terra e pedrinhas deslizantes, à beira de precipícios. Dá enfim pra ir de carro até um certo ponto, onde a estrada caiu. Dali pra frente, porém, só à pé mesmo. Mas é uma caminhada deliciosa, à beira-mar, numa trilha que em suma não oferece grandes obstáculos.

A trilha do Kaena Point

Poderíamos considerar o Kaena Point uma área de restinga? Ou essa denominação afinal é só para vegetação similar no Brasil?

Depois de uns 20 minutos andando, chega-se a uma área de vegetação muito similar à restinga, com plantas mais rasteiras sobre areia. A trilha ali é claramente demarcada. Isto ocorre para evitar que as pessoas entrem nos pontos onde os albatrozes-Laysan (Phoebastria immutabilis) fazem seus ninhos.

Filhote de albatroz-Laysan.

A fauna do Kaena

Os albatrozes são aves migratórias que viajam pelo norte do Pacífico. Mas param no Havaí para se reproduzir. Seu status populacional é ameaçado pela lista da IUCN. Entretanto, sua população felizmente vem crescendo de acordo com as últimas contagens. Pertíssimo da trilha, a menos de um metro da cordinha divisória, vimos afinal um filhote de albatroz num ninho.

Continuando a caminhada, chega-se a uma pequena área de dunas com uma construção caindo aos pedaços no topo. Possivelmente um farol. Ali, na extrema ponta da ilha, uma família de focas havaianas (Neomonachus schauinslandi), espécie criticamente ameaçada de extinção, faz das rochas e areias seu lar. Há cerca de 1200 focas sobrando no Havaí. Apesar de ser um animal protegido por lei federal, os números da população vêm caindo a níveis preocupantes.

Estávamos ainda nos mesmerizando com o visual do local, cheio de rochas e piscininhas de águas cristalinas extremamente convidativas a um mergulho, quando percebemos: uma foca monge havaiana dormia ao sol.

A foca estava na maior tranquilidade descansando na pedra. Nem aí pros visitantes que se aproximavam.

Não deixa de ser emocionante ver um animal desses na natureza. Pensar que poucos restam. E que portanto daqui a algumas gerações, se nada for feito, ele não mais estará ali. É decerto triste.

Continuei tomando meu banho de mar e observando ao longe a foca havaiana, que de vez em quando roncava – será que ela sonha?

Um segredo chamado Kaena

O paredão da Mokuleia, região mais a oeste do North Shore, impressionava. Uma baleia jubarte e seu filhote ao longe faziam suas brincadeiras de splash. Depois de um tempo relaxando sob o barulho apenas do vento, das ondas do mar e das respiradas das baleias, era hora de voltar. Pelo mesmo caminho em que viemos. Já tínhamos ficado a manhã toda pelo Kaena Point. Dei tchau pra foca.

O Kaena Point é definitivamente o segredo de Oahu mais agradável de ser descoberto.

Tudo de bom sempre.

P.S.

  • Diz a lenda que a maior onda já fotografada da história foi ali no Kaena Point. Dizem também que as ondas ali são melhores que em Waimea Bay. Mas que devido à inacessibilidade do lugar e a quantidade de rochas, os surfistas não se aventuram por lá. O local deve ser realmente massacrado por ondas no inverno… Já que está no entroncamento do North Shore com o West Shore, as duas melhores áreas de surfe em Oahu. Felizmente, no dia em que fomos, o mar parecia uma piscina. E pude me refrescar tranquilamente.
  • Fuçando no site do IUCN para achar a lista vermelha de espécies ameaçadas de extinção, me deparei com esta página sobre a reunião de Copenhague em 2009. Cujo banner é de um antigo conhecido da casa. Ótima surpresa! 😀


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