Os golfinhos d’A enseada

por: Lucia Malla Animais, Aquários & Zoos, Ásia, Cinema, Ecologia & meio ambiente, Oceanos

Os golfinhos d'a Enseada

Já tem um tempinho que assisti a “The Cove”(“A Enseada” em português), o filme que venceu o Oscar de melhor documentário deste ano. Na época do Oscar, queria comentar sobre o filme, mas o tempo definitivamente não tem andado a meu favor e a procrastinação tomou conta. Só agora, quase um mês depois, consigo compartilhar com vocês algumas das minhas opiniões sobre o filme.

(Se você não assistiu, sugiro parar de ler por aqui, pois haverá spoilers nos parágrafos abaixo.)

Em resumo super-resumido, “The Cove” conta a história de Taiji, uma vilinha de pescadores no Japão, onde os grupos de golfinhos são encurralados para serem selecionados para os parques de entretenimento e os que sobram são cruelmente mortos para virarem comida. As fotos chocantes dessa ojeriza já circulam na internet há um tempo em emails-correntes, mas o filme sedimenta e “oficializa” o problema para o público de uma maneira muito mais organizada, engajada e didática.

De todas as opiniões, posts, reportagens e afins que li sobre “The Cove”, a que mais se aproxima da minha própria vem do artigo escrito na Ciência Hoje pelo Thiago Camelo. Eu adorei o filme, entenda-se, e acho extremamente importante que esse tipo de agressão ao ambiente venha à tona, seja desmascarada. Fico feliz que haja pessoas ainda no mundo que efetivamente fazem pelo ambiente, e não ficam sentados apenas reclamando. Entretanto, ao pesar a mão no maniqueísmo simplista de “bons e maus” (sendo os japoneses os “maus”), o filme escorrega. Ao fim de “The Cove”, minha sensação era de mal-estar, não só pelos golfinhos, mas pela incitação não-velada ao preconceito aos japoneses que o filme termina por gerar naturalmente – ora, eles são os vilões, os que matam golfinhos cruelmente, comem sua carne, não respeitam a Comissão Internacional de Baleias, etc. Nada disso é mentira, veja bem, mas há de se convir que você incitar o rótulo de todas as pessoas de um local por uma ação que é feita por um grupo (mesmo que sustentado por uma política perturbadora que apóia tal ação) é danoso – basta nos colocarmos na posição dos japoneses ou lembrarmos de cada vez que os brasileiros se irritam com os rótulos que nos são colocados pelos estrangeiros. Por mais que o filme tente apaziguar ao final mostrando entrevistas de pessoas em Tóquio que não fazem a menor idéia do que se passa em Taiji, o maniqueísmo está tão entranhado no filme que esta informação se torna praticamente inócua: você formou sua opinião de que os japoneses são maus, não estão nem aí com o ambiente. O dano psíquico já está feito. (Apesar do diretor dizer que tentou mostrar a história dos dois lados, e afirmar que não conseguiu. Falta de criatividade?)

Como bem disse o Thiago, os golfinhos morrendo, aquela água vermelha de sangue na baía, os dados de mercúrio que o filme traz, as crianças comendo golfinho na merenda escolar… tudo isso já é base suficiente para que o espectador faça seu próprio julgamento e que este julgamento não seja favorável a manutenção dessa prática. Mas, ao fazê-lo por você de maneira tão unilateral, o filme, em minha opinião, perde um pouco da força. O biólogo marinho Carl Safina, neste post do Dot Earth, levanta ainda outra dicotomia estranha: por que nos dá repúdio a maneira japonesa de lidar com os golfinhos, mas o repúdio vem com toques mais “amenizados” quando o mesmo tipo de atividade é conduzido nas Ilhas Faroe, na Dinamarca? Há uma entrelinha de dicotomia forçada entre ocidente-oriente que incomoda na forma como muitas das questões ambientais são conduzidas, como se houvesse a necessidade sempre de reforçar o quanto na Ásia há um “bando de bárbaros”. Food for thought.

Lei da oferta e da procura: é a indústria do entretenimento que termina fomentando a matança de golfinhos, já que a priori eles são caçados para a venda a parques aquáticos e afins.

Ainda assim, por causa das viagens colaterais que instiga, pela necessária cutucada na indústria de entretenimento (que é o mercado consumidor inicial dos golfinhos), “The Cove” merece ser visto pelo máximo de pessoas possível, porque, apesar do maniqueísmo, ainda é educativo.

Merece ser dito também que depois da vitória no Oscar, os produtores orquestraram com a polícia de Los Angeles um flagrante de venda de carne de baleia em um restaurante japonês. Testaram o DNA da carne servida e, depois de confirmada como baleia, a polícia fez o flagrante. Como vender carne de baleia é proibido nos Estados Unidos, o dono do restaurante foi preso. Uma boa estratégia, em minha opinião, que demonstra o quanto a causa da defesa dos cetáceos entranhou por esta equipe de Hollywood – e talvez isto traga frutos mais interessantes ainda em termos de alerta às platéias do mundo.

É a semente do agir plantada, regada e estimulada a ser propagada. Não dá pra fugir do chavão: cada um fazendo a sua parte para que possamos mudar o mundo.

Tudo de bom sempre.

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– Para mergulhar mais, deixo a dica de um post interessante que comenta sobre “The Cove”: do Mauka to Makai. O disclaimer ao final traz uma realidade às avessas que pouco se comenta: o quanto muitos dos animais em cativeiro já não sobreviveriam em mar aberto. More food for thought.



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