Das perdas

Desde a semana passada estou tentando sentar e escrever sobre duas grandes perdas biológicas que presenciamos no momento atual: o desastre ambiental do derramamento de óleo no Golfo do México e o incêndio do Butantã. Minha garganta enrijece e meus olhos umedecem só de pensar em cada um deles, no que esfregam na nossa cara.

Apesar de distantes fisicamente um do outro, em ambos a mesma perda: biodiversidade.

Tragédias

No Golfo, inúmeras espécies marinhas morrendo ou em dificuldade para sobreviver por conta da imensa quantidade de óleo que o famigerado “cano” da BP vem jogando a milhares de pés de profundidade e que já se estende na superfície do mar por muitas dezenas de quilômetros. Já é considerado um dos maiores “experimentos” ingratos de toxicologia da história, já que seus efeitos provavelmente persistirão por décadas.

No Butantã, um dos maiores acervos herpetológicos do planeta, retrato da nossa biodiversidade de répteis, simplesmente em cinzas. Incêndio acidental, mas que se revela a cada dia fruto de uma infra-estrutura capenga e de uma administração equivocada, que obviamente não entende o valor incomensurável para a ciência de uma coleção zoológica e que agora vem à tona praticamente defendendo a extinção de parte da história da ciência – para quê guardar animais em álcool, não é mesmo? O negócio é fazer vacina – mesmo que seja apenas o envase. A minha sensação ao ouvir certas baboseiras que foram ditas por esse fulano é de revolta.

A perda científica que não volta mais

Revolta porque a perda científica foi inigualável. Imagine o prédio da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro pegando fogo e, sei lá, a coleção de mapas e o acervo de obras raras TODOS em cinzas.

(Atualização de 2018: Anos depois, não precisamos mais imaginar. O incêndio do Museu Nacional do Rio foi mais um destes crimes ao patrimônio científico brasileiro incalculáveis.)

Posso estar enganada, mas tenho certeza que haveria uma comoção muito maior da sociedade em geral. Me entristece que o incêndio do Butantã revele este lado da desimportância de uma coleção biológica (e da ciência…) que permeia boa parte das pessoas em nossa sociedade. Salvar manuscritos criados por Machado de Assis por alguma razão traiçoeira parece ser anos-luz mais importante que bem conservar um espécime-tipo cuja importância histórica e sistemática para a ciência é muito mais pungente e, porque não, real. É o antropocentrismo se revelando nos mínimos detalhes da nossa psique.

Há também o forte componente humano.

Perdas pessoais

Minha sogra, uma das grandes herpetólogas que o Brasil já teve, que coletou e catalogou características únicas de espécies reptilianas da Amazônia, tinha vários de seus exemplares ali naquela coleção, de que gostava tanto. Meu marido cresceu indo ao Butantã brincar, as cobras e lagartos foram parte viva de sua infância e das lembranças de sua mãe. E por conta de todas estas memórias, da última festa que fomos na casa do Kiko Franco, curador da coleção, hoje provavelmente um dos muitos em luto pela perda que o incêndio trouxe. Das minhas próprias idas ao Butantã para relaxar depois de horas intensas analisando géis de DNA.

Enfim, o incêndio do Butantã também nos trouxe aqui em casa a sensação da perda de mais um pedacinho da memória de uma pessoa querida. De mais este recanto onde ela antes existia e agora não mais. Dói pensar nisso, vocês não imaginam quanto.

E dói mais ainda pensar que o Butantã está longe de ser o último museu de coleção zoológica em situação tão dilapidada no Brasil. Estamos a um passo de outras perdas signifcantes para a história da vida natural. (Veja o parênteses de atualização acima… para ficar ainda mais triste e revoltado.)  Meu receio seja de que, uma vez que a notícia “esfrie”, que nós voltemos para nossas vidinhas de retinas tão fatigadas, as mudanças estruturais necessárias para evitar que tragédias de biodiversidade como essa se repitam sejam esquecidas ou deixadas a enésimo plano.

Um exemplo para refletir

Quando fui ao Museu de História Natural em Londres em 2006, por conta da circunstância especial, nos foi permitida a entrada na coleção fechada do museu, aquela que não está em exposição ao público. Ali, numa sala gelada lotada de frascos de álcool (incluindo um mega-tanque com uma lula gigante fixada em formol), tive o imenso prazer de ver em jarras devidamente espaçadas e protegidas alguns espécimes coletados por Darwin em sua jornada no Beagle, espécimes que ajudaram a transformar a história da ciência.

Uma característica daquela coleção me impressionou: o cuidado dedicado a ela. Extintores, climatização, espaçamento, localização separada e de acesso super-restrito, um zelo estrutural, sem gambiarras. Uma organização primorosa que só se consegue com substancial incentivo financeiro. Que por sua vez só é alcançado quando se entende, em diversos níveis da sociedade, o valor do que se está querendo preservar ali. Não basta os biólogos entenderem, é preciso que no mínimo o poder público também entenda este valor.

De volta ao Golfo

O que me traz de volta à tragédia em andamento do Golfo do México. Que já mobilizou a presidência da república. Cujo dano à biodiversidade é visível, palpável, contável na medida que comunidades são afetadas e o desastre econômico se instaura na região. Os dois acidentes são diferentes, sim. Mais pessoas perderam dinheiro no bolso efetivamente no Golfo. Muitas das consequências ainda são imprevisíveis a longo-prazo. E há o envolvimento de uma empresa petrolífera (ramo já não tão chegado a causas ambientais).

Mas em ambos há este incômodo pessoal de uma perda que a sociedade parece não compreender ainda. Este incômodo que reforça o nosso antropocentrismo, nossa falta de entendimento do valor que os demais seres vivos têm para nossa existência no planeta, dessa teia que permeia nossas vidas e da qual fazemos parte significativa. Me incomoda o descaso pela vida num senso muito mais amplo, tanto aquela que existiu sob a forma de coleção de museu quanto aquela que sofre para continuar existindo frente ao novo desafio de respirar óleo.

É esta perda abstrata e reveladora das profundezas da nossa humanidade como espécie biológica que me enrijece a espinha.

Nem sempre tudo de bom.

Para refletir mais sobre estas perdas:

– Você pode ouvir uma EXCELENTE discussão sobre diversas facetas da tragédia do Butantã no podcast Dispersando, do ScienceBlogsBR. Tendo a pensar mais como o Eduardo Bessa, esperançoso de que algo positivo advirá destas calamidades. Afinal, é o que nos sobra, ter esperança no futuro, não é mesmo?

– Um apanhado (do Big Picture, claro) de fotos deprimentes da tragédia do Golfo que já chega à costa da Louisiana. E um relato humano e pungente sobre a inacreditável força reconstrutiva que parece entranhada no DNA de uma comunidade pesqueira da Louisiana.

– E falando em perdas… Eu curti o final de Lost ontem. Só tiraria a cena da igreja: faria a mesma num campo aberto ou no topo de uma montanha, sei lá. Mas enfim, escolhas autorais. 🙂



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