Acabou a sopa

por: Lucia Malla Animais, Comes & bebes, Faça a sua parte, Havaí, Política, Tubarões

Acabou a sopa

Tubarões havaianos: livres, leves, soltos… e agora, mais protegidos.

Amanheceu um dia histórico.

A partir de hoje, 1º de julho de 2010, o Havaí é o primeiro estado americano – e primeiro governo DO PLANETA – a banir completamente a posse, distribuição e venda de barbatanas de tubarão em seu território [link corrigido]. Uma vitória enfim para o ambiente, perante as pressões econômicas que são quase sempre maiores e vencedoras.

Logo no início, o texto da lei diz assim:

“Sharks are one of the top predators in the marine food chain and play an important role in our ocean’s ecosystem. Sharks have characteristics that make them more vulnerable to overfishing than most fish, and data from state, federal, and international agencies show a decline in the shark populations both locally and worldwide. Unlike other fish species, most sharks do not reach sexual maturity until seven to twelve years of age and then only give birth to a small litter of young. Thus, sharks cannot rebuild their populations quickly once they are overfished. […] Shark fins are the principal ingredient in shark fin soup, and the demand for the delicacy has skyrocketed in recent years. Despite state and federal laws to ban the practice of shark finning, fishers continue the practice on a massive scale. Since 1972, the number of blacktip sharks has fallen by ninety-three per cent, tiger sharks by ninety-seven per cent, and bull sharks, dusky sharks, and smooth hammerheads by ninety-nine per cent. The rapid reduction of sharks is disrupting the ocean’s equilibrium. Sharks are an essential element of the ocean’s ecosystem, and by reducing the demand for shark fins, Hawaii can help ensure that sharks will not become extinct.” (Grifos meus)

Nas palavras do deputado Clayton Hee:

“As far as I’m concerned [shark finning] is no different than killing an elephant for its tusks or dehorning a rhinoceros for its horn. These are cruel and inhumane practices that have no business in a civilized world.”

Peter Knights, presidente da WildAid, uma das ONGs que mais batalha pela conservação dos tubarões em todos os mares do mundo, completou:

“This is the first in the world. I don’t how many times Hawaii has led the world but today it’s leading the world and that’s something to be proud of. Today is a happy occasion and sharks don’t get many happy occasions.”

Por paixão pela causa, tenho feito o exercício político de acompanhar toda a engenheiração dessa lei, que começou a ser discutida na Assembléia havaiana em 2009. Em março deste ano estava sofrendo os últimos ajustes pré-votação quando twittei sobre ela – entenda-se inúmeras petições rolando pela web, abaixos-assinados, emails para enviar aos deputados da comissão legislativa responsável, etc. Vários biólogos e ecólogos especialistas em tubarões foram ouvidos pela comissão, assim como membros da comunidade chinesa, dos pescadores e líderes religiosos havaianos – os tubarões são considerados sagrados na cultura havaiana. Intensa discussão popular. Em abril, a lei foi votada e aprovada – comentei um pouco, e minha colega Christie fez um ótimo post sobre alguns dos aspectos culturais, econômicos e biológicos envolvidos nesta legislação. Em maio, a lei foi finalmente assinada pela governadora. Acabou a sopa.

Ontem começou a contagem regressiva. Os restaurantes chineses do estado têm até 30 de junho de 2011 para acabarem com todo o estoque de barbatanas que eles já possuem, e não poderão mais comprar nem possuir nem comercializar nada que envolva nenhuma parte de tubarão. A partir de 30 de junho de 2011, a malfadada sopa estará banida completamente do estado – e conhecendo como as coisas funcionam aqui, a fiscalização possivelmente existirá para punir quem tentar ludibriar a lei. É um respiro de alívio, uma brisa de consciência ambiental que o estado demonstrou. Sinceramente, estou orgulhosa de morar aqui, de saber que no mar ao meu redor, os tubarões estão sendo devidamente respeitados. E não só da boca pra fora; por força democrática, pela voz da maioria da população havaiana que tanto se preocupa com o oceano que a envolve, voz expressa via seus representantes legislativos. Pelo único caminho pelo qual podemos efetivamente fazer algo pelo meio ambiente: o da legislação coerente (e com fiscalização eficaz). Literalmente muito LEGAL.

A boa-nova correu o mundo, foi parar em diversos blogs, sites e twitters. Há rumores de que a Califórnia já começa a pensar em seguir o exemplo – seria lindo se tal lei passasse por lá, pelo número da comunidade asiática, mercado consumidor número 1 da maldita sopa de barbatana. E seria mais lindo ainda se Hong Kong decidisse banir também – no maior mercado consumidor, já pensou? É, eu sonho beeeem alto.

De qualquer forma, um passo de cada vez. O Havaí deu o primeiro, e com isso deu também um sopro de esperança no mundo da conservação. A escolha popular pela saúde dos mares – e de lambuja, a saúde do planeta. Não é lindo?

Tudo de tubarões no Havaí sempre. E na torcida para que o resto do mundo siga o mesmo caminho.

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P.S.: A pena para quem for pego com barbatanas de tubarão será de multa de 5,000 a 15,000 dólares. Na 3a vez que for pego, a multa passa de 35,000 a 50,000 dólares mais cadeia por um ano.



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