Raias – dóceis criaturas do mar

por: Lucia Malla Animais, ArteSub, ASPSP, Fotografia, Mergulho, Publicidade
Raias móbulas - criaturas do mar
Uma rara visão de cardume de raias móbulas, no Arquipélago de São Pedro e São Paulo. Geralmente solitárias, essas raias se agregam, entretanto, para reprodução ou para buscar alimentação.

Era uma tarde nublada quando entramos na enseada pelo qual se tem acesso ao paredão que se estende a mais de 2000 metros de profundidade no Arquipélago de São Pedro e São Paulo, a meio caminho entre África e Brasil. Planejando fazer um mergulho autônomo padrão, nadamos pela superfície até o ponto desejado. Menos de 3 metros abaixo da superfície da água, nos deparamos com dezenas de raias móbulas calmamente se deslocando pelo azul intenso do mar aberto. Empolgado pela cena inesperada que se apresentava a minha frente, só pude me concentrar em duas coisas: respirar e tirar uma foto o mais rápido possível.

Essas raias, assim como a maioria das espécies de raia, são solitárias. Apenas ocasionalmente se agregam para alimentação e/ou reprodução. Vê-las naquela quantidade juntas era uma oportunidade única. As móbulas nadavam pacatamente, seguindo seu rumo desconhecido, sem nos dar muita atenção. Levados pela forte corrente de superfície e satisfeitos com a experiência inesquecível que durou menos de três minutos, abortamos o mergulho e retornamos à segurança da estação de pesquisa.

Curiosas móbulas

Móbula e rêmora
Dóceis e curiosas, as móbulas estão frequentemente associadas às rêmoras, que as limpam de parasitas e ganham afinal uma carona.

Ironicamente, dois dias antes, durante um mergulho livre no entorno do arquipélago, eu havia sentido uma movimentação brusca de água por trás. Era uma móbula solitária me “investigando” sem que eu percebesse. Ela havia nadado até encostar nas minhas nadadeiras e depois, abruptamente, virado par ao outro lado para tomar distância e continuar me observando. A interação continuou pelo menos por cinco minutos e ambos procuravam se “conhecer” melhor. Depois, a móbula seguiu seu destino tranquilamente.

Essa curiosidade mostrada pela móbula é idêntica ao comportamento apresentado por algumas espécies de tubarão. Afinal, raias são parentes próximos dos tubarões, que também são curiosos com relação ao que vêem na água, sempre mantendo distância segura e tentando surpreender a presa em potencial por trás. Evidências científicas apontam para uma gradual evolução a partir de uma espécie ancestral de tubarão por um período aproximado de 200 milhões de anos até chegar ao formato achatado que hoje reconhecemos como raias. Um exemplo contemporâneo dessa longa transição evolutiva é a viola, espécie que já possui a boca na posição ventral, mas ainda tem o resquício de duas nadadeiras peitorais, como as encontradas nos tubarões.

Pelágicas x bentônicas

Raias jamantas - Kona, Havaí
Em Kona, no Havaí, a luz dos holofotes agrega plâncton e constituem um banquete noturno para as raias jamantas.

As raias podem ser geralmente divididas em dois grupos: as pelágicas, que habitam a coluna d’água e filtram seu alimento, e as bentônicas, que habitam o fundo arenoso, se alimentando de poliquetos, ostras, camarões, caranguejos e ocasionalmente peixes. Como os tubarões, as raias (ou arraias) são elasmobrânquios, nome dado ao peixe cuja estrutura vertebral é cartilaginosa e flexível. São basicamente como tubarões achatados em que as nadadeiras peitorais foram fundidas com a região da cabeça formando um disco. A maioria das raias possuem uma longa cauda que funciona como um chicote, e muitas têm ainda um aguilhão (espinha serrilhada próxima à cauda) acoplado a uma glândula de veneno, para defesa contra possíveis predadores.

Essa glândula secreta substâncias que causam paralisia muscular em animais menores, mas que em geral não são letais a humanos. Como as espécies que possuem esse aguilhão habitam fundos arenosos junto às praias, acidentes com pessoas geralmente acontecem nos pés e tornozelos. Nestes acidentes, o mais perigoso é a estrutura do aguilhão em si, que, serrilhada, pode esfacelar músculos e tendões do incauto que pisa numa raia. Embora acidentes fatais com humanos sejam extremamente raros, as raias, em 2005, ganharam notoriedade quando o naturalista australiano Steve Irwin sofreu um acidente fatal enquanto filmava uma delas. Infelizmente, ele nadava sobre uma raia e o aguilhão serrilhado penetrou direto em seu coração.

Saltos espetaculares fora d’água

As raias pelágicas vivem em mar aberto e não possuem aguilhão no rabo. Mas seu tamanho e flexibilidade garantem respeito dos predadores. São animais filtradores e, para ajudar na coleta do plâncton, algumas espécies desenvolveram duas abas encefálicas laterais que auxiliam na filtração da água. Algumas espécies de raia móbula, notoriamente as que habitam o mar de Cortez, no México, são conhecidas por darem saltos espetaculares fora da água. A função desse comportamento ainda é motivo de debate entre os especialistas.

Raias jamantas
As jamantas são as maiores raias e se alimentam de pequenos organismos na água.

Dentre as pelágicas, as maiores são as raias manta ou jamantas. Podem atingir uma incrível envergadura de até 9 metros. Evidências científicas sugerem que as jamantas se alimentavam no fundo, mas, com o tempo, foram se adaptando à superfície até se tornarem filtradoras. E é justamente essa mudança no padrão de alimentação que as permitiu atingir essas grandes proporções corporais. Para tal, a dentição desapareceu, o aguilhão primordial, que se acredita que seus ancestrais possuíam, também desapareceu. Hoje, como filtradoras, precisam apenas abrir a grande boca, estendendo as guelras posicionadas ao lado da cabeça para afunilar o máximo de água possível e capturar seu alimento.

Sempre migrando em busca de áreas com alta concentração de plâncton, sua ocorrência pode ser sazonal. Na Laje de Santos, a 40 km do litoral paulista, por exemplo, grandes jamantas podem ser avistadas entre maio e agosto. Este período, aliás, coincide com a presença de sua principal fonte de alimento.

A raia chita

Raia chita pintada
A longa cauda da raia pintada é dotada de um aguilhão venenoso para sua defesa.

Caracterizadas por um belo padrão pontilhado branco no dorso e longa cauda, a raia chita ou pintada, também é uma espécie pelágica. Formam cardumes e ocorrem globalmente, mas não são filtradoras. Possuem mandíbulas e dentes fortes para quebrarem conchas de moluscos e caranguejos que buscam no fundo. Como tubarões, aliás, conseguem achar presas escondidas no fundo marinho com órgãos eletrossensíveis perto da boca. Esse órgão ultrassensível é usado para detectar o campo elétrico gerado pelos músculos e sistema nervoso de suas presas.

O fascínio pelas aproximadamente 500 espécies de raias, distribuídas por todos os mares tropicais e temperados do mundo – e algumas adaptadas a outros ecossistemas aquáticos, inclusive águas doces e salobras – vai além das suas curiosidades biológicas. Cada vez mais, o interesse ajuda a fomentar a crescente indústria do ecoturismo subaquático.

Dança em torno do alimento

Raia jamanta - Kona noturno
A raia jamanta é filtradora. Precisa apenas abrir a boca para afunilar a água e capturar o alimento.

Como em Kona, Havaí. Lá ocorre o famoso “mergulho noturno com as jamantas”. Diariamente, um grupo de mergulhadores sai em barcos de turismo rumo a uma baía onde foram instalados holofotes submersos. À noite, a luz atrai o plâncton. Este, por sua vez, se agrega, formando grandes bolas de petisco, especialmente saborosas para filtradores como as jamantas.

Em menos de dez minutos, elas vão chegando e dando “rasantes” próximos às fontes de luz, abocanhando então o banquete. Principalmente, indiferente aos mergulhadores, muitos dos quais vieram de longe para observar o incrível comportamento. Com enorme flexibilidade, parecem estar dançando. Afinal, dão voltas intermináveis naquela nuvem de alimento. Até finalmente se saciarem e seguirem para outras paragens.

Raias no raso

Outros destinos internacionais também se transformaram em pontos obrigatórios para encontro com raias em seus habitats. O mais antigo deles foi a famosa Cidade das Arraias (Stingray City, em inglês), nas Ilhas Cayman, que na década de 80 já era destino para mergulhadores e entusiastas do mundo natural. Lá, porém, as águas são rasas, o fundo é arenoso e a atração principal constitui-se de uma população fixa de raias-prego. A pouco mais de 2 metros de profundidade elas deslizam sobre a areia do fundo, ondulando seu corpor em busca da comida dada pelos visitantes. Acredita-se que essa população de raias se abrigou na área rasa ao longo dos anos. Afinal, era ali que barcos de pescadores paravam no banco de areia para limpeza e despejo dos restos da pesca. Hoje, elas estão acostumadas à presença humana e continuam sendo a atração natural mais popular da região.

Raia - orifício e olho
As raias de fundo possuem orifícios atrás dos olhos pelos quais aspiram a água para respirar.

Raias da mesma espécie são encontradas nos fundos arenosos das praias de Fernando de Noronha, sendo que lá estão menos acostumadas com a intervenção humana e contam com a proteção oficial da área de conservação do Parque Nacional Marinho de Fernando de Noronha desde 1988.


  • Esta reportagem sobre raias (ou arraias, tanto faz) apareceu no mês de julho de 2010, na edição n. 129 da revista Horizonte Geográfico. Foi escrita e fotografada pelo André. A foto de abertura da reportagem, aliás, foi tirada em São Pedro e São Paulo. Mostra um cardume de raias-móbulas. Eu adoro essa imagem…
Raias


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