A cansativa vida de um troll

por: Lucia Malla Crianças, Europa, Inglaterra, Viagens

Em 2006, quando fomos à Inglaterra, fizemos um passeio para visitar o Castelo de Warwick – como estávamos hospedados em Poddington, um vilarejo a uma hora de Londres, o castelo não ficava tão distante para tal aventura.

Warwick é uma cidade muito bonitinha. Como a maioria das cidades do interior inglesas tem aquela organização fofa, de casas tortinhas por ruas estreitas, estrutura arquitetônica preservada. A sensação ao andar por suas ruas é de que se tocarmos a campainha de uma casa, alguém vindo direto do século XIV abrirá a porta e nos oferecerá um chá feito num bule que esquentou na lenha. Ao que eu aceitaria o chá, claro.

A cansativa vida de um troll

Laranjas inglesas, quem quer?

Nossa passagem por Warwick foi curta, visto que nos encaminhamos direto para o que torna Warwick famoso: seu Castelo. Contruído no século XI – ou seja, em pé a mais de 1000 anos -, foi idealizado para proteger o então vilarejo de Warwick dos invasores dinamarqueses bárbaros – ou seja, tem ares de fortaleza sólida, em que nada o destruirá. Dentro do castelo, o clima Idade Média te envolve: são inúmeras armaduras de soldados, aquelas mesas enormes de madeira, onde refeições da Távola Redonda provavelmente aconteciam. Foi impossível para mim não lembrar das cenas de sessão da tarde de “Lady Hawke” passeando por ali. Vi até uma coruja.

O troll cansado.

Mas o Castelo tem ainda um outro trunfo: seus jardins. Uma área gramada enorme, ideal para crianças pularem e correrem à vontade. Fomos numa data próxima ao Halloween, e com isso diversos personagens “de terror” estavam pelo pátio, brincando com as crianças, além dos tradicionais princesa & príncipe que sempre estão por lá, de acordo com minha amiga inglesa. E andando pelos jardins, dei de cara pela primeira vez na vida com um troll, aquele ogro lendário da Escandinávia.

O troll estava cansado, dava pra ver na sua cara, coitado. Toda criança que passava por ele, longe de ter medo de sua aparência esdrúxula, queria era brincar intensamente (prova de como as lendas escandinavas ainda estão vivas no imaginário infantil britânico?) e o moço-troll era obrigado a incontáveis e intermináveis correrias pelo pátio. Quando pensava em sentar, lá vinha outra criança – elas, como de praxe, não davam refresco pro coitado do troll naquele dia. Era sem dúvida o mais requisitado dos fantasiados ali.

Mamãe Troll.

Fiquei pensando no pobre moço cujo emprego é se passar por troll todo dia, tendo que correr aquela maratona nos jardins de Warwick. Deve chegar em casa um caco, toda energia física exaurida – pelo menos economiza na academia… É uma forma suada de garantir seu ganha-pão. E põe suada nisso. Mas deve sorrir, porque trabalhar com criança é sempre um barato pra psique.

Local de atraque dos barcos da nobreza, atrás do castelo. Achei simpática a localização…

(E eu me peguei pensando… por que as crianças adoram tanto um troll? Food for thought.)

Como todo castelo que se preze, Warwick também tem um fosso. E muito além dos jardins, as colinas verdes típicas da paisagem interiorana inglesa.

Dá pra andar o perímetro do castelo pela sua torre e muralha, vendo tudo lá de cima, enquanto imagina os povos bárbaros tentando invadir a estrutura. O troll estava ali para mostrar que, pelo menos entre as crianças, os bárbaros venceram.

Tudo de bom sempre.



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