Uma mente inquieta

por: Lucia Malla Biomédicas, Ciência, Comportamento, Livros

Uma mente inquietaOuvi falar desse livro, “Uma mente inquieta“, numa dessas conversinhas de intervalo de café pós-lab meeting. Afinal, trabalho pertíssimo da divisão de Neurociência e um professor do departamento estava comentando sobre tal livro. Aparentemente era uma unanimidade entre aquelas pessoas da área de neuro. Todos já haviam lido e recomendavam, mesmo com críticas, sua leitura. Fiquei curiosa com tantos elogios (principalmente vindos de um professor rigorosíssimo, que pouco tece elogios) e terminei baixando pro Kindle. Devia ser bom mesmo.

Narrativa pessoal de uma profissional

E é. “An Unquiet Mind – A memoir of moods and madness”, de Kay Redfield Jamison, é um livro muito cativante. É uma narrativa pessoal, em que a autora comenta sobre sua mente inquieta. Conta suas memórias, dificuldades e percepções como portadora de transtorno bipolar. Que antigamente era chamada psicose maníaco-depressiva – a própria Jamison prefere o nome antigo, que acha mais preciso.

Seria mais um dentre tantos livros de personal account, se não fosse por um detalhe fundamental: Jamison é psicóloga, professora de Psiquiatria na Escola de Medicina Johns Hopkins. Além de pesquisadora renomada na área de bipolaridade, é também uma das fundadoras do também renomadíssimo grupo de Neurociência da UCLA. Por fim, é autora do livro clássico básico que se tornou o principal guia médico profissional sobre a doença em todo o mundo, o Manic-Depressive Illness. Ou seja, ela vê e vive a patologia pelos dois polos possíveis: como psicopesquisadora e como paciente.

Uma mente inquieta bipolar

Achei o início meio cansativo, quando ela conta sobre sua família. Mas é importante para entendermos depois a raiz genética de sua bipolaridade. Entretanto, tirando este início, o resto do livro é tão envolvente que você não quer parar de ler. Jamison relata detalhadamente diversas de suas crises de mania e de depressão, desde a adolescência. Ambos estados são narrados de uma forma tão clara que é como se estivéssemos ao seu lado, vivenciando aquela montanha-russa de sentimentos.

O livro se torna então literalmente bipolar, já que viajamos por dois polos opostos e distintos. Por um lado, lemos sobre suas recaídas, sua tentativa de suicídio, suas crises maníacas, seus relacionamentos amorosos. Por outro lado, ao mesmo tempo enveredamos pela racionalidade, ao presenciar o nascimento do grupo de Neurociência da UCLA, pela história da ciência psiquiátrica no mundo (principalmente aquela relacionada à bipolaridade) e pelas diferentes teorias que vêm nascendo sobre a patologia. É uma viagem instigante.

Contra o estigma da doença mental

Jamison dedica ao fim suas explicações de por quê resolveu contar ao mundo sobre sua doença de maneira tão pessoal. Suas angústias, medos e reflexões nesta tomada de decisão. Como lutadora contra a discriminação do bipolar – e dos doentes mentais em geral – explica em linguagem super-acessível suas razões para se abrir. Pesa sobre a diferença semântica entre bipolar e maníaco-depressivo. Principalmente, advoca sobre as políticas ideais do governo e da sociedade para o tratamento dos males psíquiátricos.

Também comenta sobre o enorme preconceito que ainda existe na sociedade. Afinal, é impressionante como mesmo entre pessoas “educadas” cientificamente (e, tristeza, principalmente entre os cientistas que estão em áreas mais distantes da medicina) a ignorância sobre o tema é brutal, salpicada de um preconceito cruel. Algo, aliás, que desde que li o livro passei a prestar mais atenção e em que concordo 100% com Jamison. Desmantelar o preconceito ao doente mental é uma longuíssima estrada de terra cheia de buracos ainda a ser completamente desbravada.

Mente inquieta e brilhante

Fica claro ao fim da leitura, porém, que o livro tem o título mais adequado possível e imaginável. Não só a bipolaridade como patologia tem um quê de “mente inquieta” como Jamison parece ser uma dessas pessoas cuja mente brilhante não para nunca e que sempre nos surpreende com uma visão pitoresca dos fatos mais corriqueiros. Seu relato, por exemplo, de uma palestra em Cold Spring Harbor na presença do descobridor do DNA James Watson – que nas entrelinhas ela sugere ser um bipolar, mas seus muitos anos de praia como cientista não a deixam jamais afirmar que o é – nos traz uma visão bem mais colorida dos congressos médicos e afins. De uma humanidade assustadora.

Agora entendo porque o livro é uma unanimidade entre os neurocientistas do departamento. Escrito em 1995, não perdeu em nada sua atualidade, e é leitura recomendadíssima mesmo, raro relato de alguém dos 2 lados da moeda. Mas acho que a recomendação não fica só pra neurocientistas: é um livro para todos que queremos ser cada vez mais humanos.

Tudo de bom sempre.

  • Há um vídeo aqui (“Madness as muse”) da própria Jamison falando sobre um tema colateral das patologias mentais, entre elas a bipolaridade: a criatividade artística. Sim, Van Gogh criou obras geniais. Mas não é por isso que sua vida deixou de ser miserável. Muito egoísmo “social” querermos que a arte na nossa sociedade se desenvolva às custas da saúde dos outros. Cristalizar a criatividade não pode ser hoje em dia uma desculpa para mantermos sem medicação os pacientes.
  • No mesmo site, há o vídeo completo de 34 minutos onde Kay Jamison comenta sobre luto, depressão, sua vida, etc. Aos interessados em neuro, vale assistir o vídeo completo.
  • Para mais resenhas de livros neste blog, clique aqui.


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