A vida em um lugar

por: Lucia Malla Brasil, Cotidiano, Espírito Santo, Mallices

Vida em Vila Velha
Minha terra. Que não tem mais tantas palmeiras, mas ainda tem o canto do sabiá.

A mais-que-querida Mari Campos esteve recentemente no meu estado de criação, o Espírito Santo. Fez um monte de passeios bacanas pelas Serras Capixabas, comeu do bom e do melhor e me inspirou a deixar um comentário que reproduzo aqui:

“Mari, fico tão feliz que você tenha gostado da minha cidade… ela é esquecidinha do Brasil, mas pra mim é a minha adorada eterna, entre todas do planeta. É pra ela que eu sempre volto quando vou ao Brasil. Porque a gente apaga um lugar da nossa vida, mas não consegue apagar uma vida de um lugar. 🙂

Eu cresci em Vila Velha. À época, uma cidadezinha pequena, com poucas casas, um mangue bonito, muita areia. Lembro quando a rua da praia era de terra, e quando mesmo morando a muitas quadras da praia víamos o mar sem obstáculos de concreto. E víamos o Convento da Penha e o Morro do Moreno de qualquer ponto da praia, também sem obstáculos. Quando ainda falávamos “moro em Vitória”, mesmo quando na realidade morávamos em Vila Velha, porque a cidade era tão esquecida, que havia um receio ingênuo do interlocutor não a reconhecer – e muitos ainda têm esse sentimento de cachorro magro. Sou da época em que os pescadores da “colônia” tinham abundância pra pescar – e não precisavam navegar tanto pra garantir o sustento da família.

Convento da Penha, o mirante mais famoso da cidade. Onde muitas vezes subi com a turma do colégio, em “excursões” aventurescas, cheias de sagüis, onde o que mais importava era saber cantar e sonhar com um mundo melhor, sem fronteiras nem barreiras. Passeios recheados de momentos que ajudaram a formar o que sou hoje. “Somos quem podemos ser, sonhos que podemos ter.”

Hoje sei que a cidade é outra. O tempo passou, o asfalto chegou. Os prédios altos tomaram conta da orla. Mas, por mais diferente que a cidade seja, jamais sairá do meu inconsciente como a “minha” cidadezinha. E não só Vila Velha: Vitória e o Espírito Santo em geral, que sempre foram o “patinho feio” do sudeste brasileiro – pros outros. Porque pra mim, sempre foram meu ar, meu mar, meu lar.

Então que da última vez que estive por aquelas bandas, dei umas rodadas pelo centro de Vitória (onde, quando criança, ia tomar sorvete na Rua Sete, olhar a vitrine da Mariage, pegar um filme no Glória, andar pela Escadaria Maria Ortiz pelas livrarias e sebos que sempre habitaram por ali – será que sobreviveram à revolução digital?), para relembrar o passado, e principalmente tentar me inserir na nova realidade, adaptar a consciência ao que não mais é. Uma tentativa de que minha terra nunca deixe de ser minha, pedaço de uma vida que não se apaga.

O Morro do Convento visto da Praia do Suá, em Vitória.

No centro, um dos prédios que mais impressiona é a Catedral de Vitória, em estilo gótico. Em meio a ruelas e morros, em frente à Assembléia Legislativa – onde pela primeira vez vi fotos de Sebastião Salgado, numa exposição pequena mas não menos impressionante, fotos estas que me marcaram para sempre.

Catedral de Vitória, no centrão da cidade.

Há por ali também um prédio histórico, tombado, mas que anteriormente nunca havia me chamado a atenção: o Convento de São Francisco. Meio que escondido entre a urbe, ele aparece como um respiro de história e arquitetura em meio à vida que segue acelerada pelo resto da cidade. É um prédio simples, bonito, que vale a pena a visita.

Convento de São Francisco.

E, numa esquina qualquer, me deparo com pedaços de mim, de um eu que fui. Talvez tenha sido o caldo de cana da Moenda, em Vila Velha, que me trouxe de volta ao tempo em que ia com minha vó ao banco, passeio que sempre terminava em caldo de cana e pastel. Ou a pizza rolê da Sky, que era a coisa mais sagrada que existia no caminho entre a escola e a casa da minha prima. Não sei.

Ainda perambulo pelas ruas dessa cidade – ou cidades – mesmo não mais morando ali. Porque realmente é difícil (para não dizer impossível…) tirar a vida e as lembranças de cada uma daquelas esquinas. Não estou fisicamente lá, mas a cada passo que dou por outras esquinas do mundo, sou lembrada que um pedaço significativo da minha pessoa, do meu caráter, das minhas experiências, advém daquelas paisagens, daquele minério de ferro de Tubarão. Que aquelas ruas me remetem ao meu eu básico, povoado de sonhos e esperanças. É uma viagem bonita, pontuada de sorrisos e viver.

Tudo de bom sempre.



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