Um aquário bizarro

por: Lucia Malla Aquários & Zoos, Ásia, Japão, Viagens

Tenho uma certa mania de visitar aquários quando viajo. Se existe um aquário no lugar, e se eu tiver tempo suficiente, com certeza incluirei uma passadinha por ele. É uma mania, meio que inexplicável (necessidade inconsciente de lembrar do mar, talvez?), revestida com a tarja “curiosidade pelas estratégias usadas para divulgar e educar”.

Fato é que quando estive em Tóquio em junho passado, claro, quis visitar um aquário. Tóquio tem 5 aquários, de acordo com este site – e o escritório de turismo onde parei pra perguntar me falou de apenas 3. Os aquários de Tóquio são o de Shinagawa, o Sunshine City, o Tokyo Sea Life Park, o de Yokohama e o de Iitabashi. Como: a) era minha primeira vez na cidade; b) meu tempo era curto; c) não fiz meu dever de casa antes para saber detalhes de cada um deles; terminei escolhendo o que estava mais no caminho de alguma atração que me interessava para visitar. E o escolhido foi o Sunshine City, no bairro de Ikebukuro.

O Sunshine City é, na verdade, um complexo comercial enorme, de diversos prédios altos e repletos de lojinhas, cinemas e afins. Um dos prédios, o Sunshine 60, tem um andar-observatório, de onde tirei algumas das fotos que estão neste post. É neste prédio que fica o aquário, num andar láááá em cima.

Cheguei muito cedo no local, o aquário ainda estava fechado. Então fiquei rodando pelo lobby, perto de onde fica a lanchonete do aquário. Minha estranheza, aliás, começou ali (ou melhor, choque cultural). Porque os mascotes do aquário eram esses:

…e na lanchonete, eles estavam assim no cartaz:

(Olha o peixe. É uma representação da realidade, mas… precisa ser tão “na cara”?)

Quando o aquário abriu, comprei meu ingresso para começar o passeio. Logo na entrada do aquário, depois da catraca, o tapete no chão tinha esse desenho:

Achei a lontra com uma cara tão tristinha… fiquei imaginando o que levara um administrador a escolher aquele desenho tão melancólico para a recepção de crianças – que são em geral o público-alvo dos aquários.

Comecei a visita em si. E logo no primeiro tanque, um susto. O tanque era pequeno, mas tinha 7 tubarões, várias raias e um monte de moréias, além de uns peixes grandes. Dava para ver todos os animais facilmente, porque, estressados, nadavam sem parar. A densidade de bichos dentro do tanque lembrava os metrôs de Tóquio na hora do rush. Meu coração ficou estilhaçado.

Moréias gostam de se esconder em buracos no substrato. Se nadam e não encontram um cantinho, ficam estressadas. Naquele tanque, todos os animais pareciam alterados. Nunca vi tal atitude dos peixes em nenhum outro aquário que já visitei no mundo (e olha que não foram poucos).

Tinha também umas espécies exóticas, que eu nunca vira em aquário antes – e fico imaginando como eles fazem para mantê-las ali. Uma delas era a enguia-de-jardim (Heteroconger cobra), que já vi diversas vezes em mergulhos. Esta espécie, no mar, se enterra na areia ao menor sinal de ameaça se aproximando (um peixe maior, por exemplo). No tanque do aquário do Sunshine, elas nunca desapareciam. Bolei.

Mas um tanque me impressionou positivamente, o que representava um pouco da fauna da península de Izu. A anêmona acima, por exemplo, de uma espécie que nunca vi na natureza. Só de apreciá-la me deu uma vontade enorme de mergulhar… Muito linda.

Mas aí continuei andando, e em meio a focas, peixes, polvos e outros bichos, cheguei no que era sem dúvida o tanque com o display mais estranho de todo o aquário – e olha que essa competição estava páreo duro. No tanque, caranguejos hermitões, que, na natureza, pegam qualquer pedaço de rocha ou o que aparecer pela frente e fazem de “carapaça” para se proteger. No aquário do Sunshine, eles fizeram uma maquete de rua de cidade e jogaram uns pedaços de lego para os caranguejos usarem como carapaça. O resultado foi essa bizarrice sem precedentes:

Já estava de saída, quando achei por acaso uma salinha, onde nadava solitária num tanque pequeno uma mola-mola, peixe pelágico enorme que precisa de grande espaço pra viver. O tanque era obviamente inadequado para o bicho. No exato momento em que cheguei, ele estava sendo alimentado – uma mão aparecia na superfície com ração (?).

Confesso que eu já estava bastante nervosa com tanto descompasso biológico no aquário. Então me dirigi à saída, passando pelos tanques dos pinguins-de-magalhães. Que ficam super-próximos do público, sem muita proteção. As crianças adoram, porque estão perto do bicho, e esse foi talvez o único tanque em que não me incomodei tanto. Afinal, pinguins são curiosos, e acho que até curtem um pouco da bagunça que a gente faz.

Saí do aquário com a sensação de que fiz uma má escolha. A meu ver, o aquário do Sunshine é cheio de problemas de manutenção pros animais. Não curti. Deveria ter ido ao de Shinagawa, que depois descobri ser o considerado mais bacana da cidade. Acho que confiei na lembrança do simpaticíssimo Aquário do COEX em Seul, que é no mesmo esquema do Sunshine, dentro de um mall, e esperava um aquário de ambientação mais cozy. Mas esse de Tóquio… muito bizarro. E olha que meu otimismo sempre se esforça para achar algo bom nessas adversidades…

Tudo de escolhas sempre.

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P.S.: E pertinho de uma das saídas do Sunshine perto do metrô do Ikebukuro… olha essa propaganda (provavelmente de celular) na fachada de um dos prédios. Achei muito divertida!



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