Takuu – Era uma vez uma ilha

Os que frequentam este blog há algum tempo sabem da minha paixão por ilhas e todas as nuances ao redor do tema. Principalmente, ilhas do Pacífico. Então quando vi o cartaz para o Hawaii International Film Festival na semana passada, com filmes de mais de 50 países do mundo, não tive dúvidas: escolhi assistir um “ilhéu”.

“There once was an island: Te henua e Nnoho”, dirigido por Briar March, é uma produção neozelandesa/papuense que conta a história dos habitantes do atol de Takuu, na Papua Nova Guiné, e seus diversos dilemas do cotidiano.

Onde fica o atol de Takuu no mapa, indicado pela seta preta. (Imagem capturada do Google Earth)

Dilemas esses que são bastante complexos, diga-se de passagem. Envolvem, por exemplo, relocar ou não para o continente, já que o atol de Takuu, cuja altitude máxima é de 1 metro e meio, desaparecerá à medida que o nível dos oceanos subir. Já ocorrem marés altas que inundam a ilha e tornam a rotina dos seus 400 moradores um pesadelo. As plantações de inhame gigante, por exemplo, que são a base da dieta local, são prejudicadas com a infiltração de água salgada no solo constantemente.

Outra complexidade relacionada à relocação é a questão da identidade. Os habitantes de Takuu são polinésios, enquanto a maioria da população papuana é melanésia. Os costumes, modo de agir, de pensar, a língua, as tradições… é tudo diferente. Portanto, se aceitarem relocar, terão também que se adequar ao impacto da nova cultura – e pior, a área onde querem colocar os habitantes de Takuu é no meio do mato, longe da praia que tanto faz parte do estilo de vida deles… ou seja, receita para um problema social futuro.

O problema é: não há boas alternativas ainda. Talvez com mais recursos financeiros, o governo pudesse colaborar mais com infra-estrutura para o atol, construção de diques de contenção, por exemplo. Mas a Papua Nova Guiné é um dos países mais pobres do mundo, e o fato de Takuu estar isolado de sua porção continental principal torna toda a atmosfera política muito mais complicada. No filme, relata-se que o barco com mantimentos e afins que passa por Takuu não tem previsão alguma de quando passará por lá, e por isso, os habitantes aprenderam a não depender dele para nada que seja emergencial. É isolamento mesmo, sem romantismo algum, que estamos falando aqui, inclusive de comunicação, já que não há eletricidade na ilha e o único rádio existente tem uma transmissão bem fraca.

Perdidos no tempo e espaço, os habitantes de Takuu se dividiram em relação à relocação pro continente. Os neo-cristãos (mulheres em sua maioria, no que a diretora do filme notou sentir até um certo empowerment que a religião tem permitido a elas, que têm pouca voz na sociedade tradicional Takuuense) apóiam a saída para a nova “canaã”. Os céticos (e os há aos montes, felizmente, na ilha) querem manter suas tradições e acreditam que aquela terra os pertence, é a “sua” terra, e pleiteam soluções do governo da província de Bougainville para que o relocamento seja feito em último caso, e caso aconteça, seja com mais estrutura e garantias – não querem virar cidadãos de décima categoria dentro da sociedade melanésia (já que são cidadãos do mesmo país…). Soluções baseadas nas palavras de dois cientistas que foram até o atol em trabalho de campo, tentar conscientizá-los sobre as previsões nada agradáveis para o futuro afundado das ilhas-atóis e terminaram por mostrar que as soluções que os próprios takuuanos estavam usando para conter a invasão do mar estava causando mais erosão ainda nas praias.

Takuu é, como podem ver, um pontinho perdido no mapa, mas com problemas de (m/p)ontão.

E o filme traz todas essas problemáticas, conflitos e reflexões políticas, sociais, ambientais, econômicas, culturais de forma clara, o que poderia por si só torná-lo pesado, difícil de assistir. Mas a mão da diretora é tão delicada, que, através de uma fotografia emocionante, uma sensibilidade humana de fazer chorar e um enlace de história revelador, deixam o filme uma documentação peculiar MARAVILHOSA. Típica pequena obra-prima. Ao final da exibição no HIFF, Briar conversou com a platéia, discutiu a logística para ir pro atol de Takuu, como a proposta do documentário nasceu e principalmente, o quanto a experiência de ir para um ponto remoto do planeta mudou sua perspectiva de diversas coisas na vida que a gente tende a take for granted – e muda mesmo, como André comentou comigo ao final, pensando na sua própria experiência de isolamento pelos atóis remotos das Ilhas Marshall.

“There once was an island” está planejado pra passar no American Museum of Natural History em Nova York no dia 12 de novembro, às 8 da noite, com a presença simpática da diretora. Se você estiver pelas redondezas da cidade nesse dia, sugiro não perder – vale muito a pena.

Tudo de ilhas sempre.

O atol de Takuu. (Imagem capturada do Google Earth.)

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Para viajar mais pelo atol de Takuu…

– Takuu tem uma página na internet. Apesar da tosquice, é um ponto de encontro que funciona e informa. Uma boa iniciativa.

– A diretora do filme Briar March e sua produtora Lyn Collie mantiveram um blog durante o período em que viveram em Takuu. A leitura dos posts que relatam o cotidiano local é uma viagem imperdível, recomendada especialmente aos que curtem aprender um pouco mais sobre povos “esquecidos” do nosso mundão sem porteira e sobre as idiossincrasias que nos conectam com humanos, tripulantes de um mesmo planetinha azul-mar.

– Uma reportagem bacana do Otago Daily Times, aliás, sobre a produção desse filme. – Deliciem-se com o trailler do filme: [vimeo]11017386[/vimeo]



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