Anêmonas no Horizonte

por: Lucia Malla Animais, ArteSub, Ecologia & meio ambiente

André escreveu uma reportagem bacanérrima (ok, sou suspeita pra julgar…) sobre anêmonas-do-mar, esses ilustres desconhecidos animais. As anêmonas sempre aparecem como coadjuvantes do peixe-palhaço. Contudo, na verdade deveriam ser os atores principais, com toda sua toxina, cores e beleza. Eu, que sou chegada a um animal carnívoro, adoro ver seus tentáculos balançando no vai e vem da maré.

Anêmonas no Horizonte e peixe-palhaço

Anêmona e seu peixe-palhaço (anemonefish).

A reportagem está na Horizonte Geográfico número 131. E já encontram nas bancas de jornal do Brasil. Reproduzo-a portanto aí abaixo a quem interessar.

Enjoy! 🙂

Tudo de bom sempre.


Anêmonas: ilustres desconhecidas

Anêmonas

Anêmona-tubo, Cerianthus sp.

Vistas em centenas de cores e tamanhos diferentes, lentamentamente balançando ao sabor das correntes, as anêmonas-do-mar assemelham-se às flores de um jardim. Por causa desta semelhança botânica, assim foram batizadas. Afinal, o termo anêmona vem do nome dado ao gênero de uma flor, Anemone.

Mas a semelhança para por aí. Anêmonas são animais marinhos carnívoros em forma de pólipo do filo dos cnidários. Portanto, relacionadas aos corais e às águas-vivas.

O fascínio das anêmonas e de algumas de suas relações simbióticas, como com o peixe-palhaço, começou a interessar o mundo ocidental desde 1881. Foi neste ano que o primeiro exemplar foi mantido em cativeiro em uma banheira com água do mar. Entretanto, apenas em meados do século 20 as interações desses animais tropicais passaram a ser conhecidas globalmente.

Graças ao desenvolvimento do mergulho em cilindro e da facilidade de transporte a locais remotos entre os trópicos nos Oceanos Índico e Pacífico onde as anêmonas ocorrem em abundância, nós, humanos, podemos observar e conhecer mais das anêmonas em seu hábitat natural. Hoje, praticamente todos os grandes aquários públicos possuem algum exemplar de anêmona e peixe-palhaço. Estes animais também estão entre os mais vendidos animais marinhos ornamentais das últimas décadas. Atraem principalmente o interesse de aquariófilos. E as anêmonas vendem bem porque são fáceis de serem retiradas do mar – além de enfeitar como flores.

O que são as anêmonas?

São animais sésseis. O pólipo é preso ao substrato marinho por um pé adesivo, que permite as anêmonas a se posicionarem com a cavidade oral e os tentáculos em qualquer direção. Esta mesma sessilidade facilita a retirada do substrato marinho.

Com o corpo em formato cilíndrico, a maioria das anêmonas não passa de 2 a 3 centímetros de diâmetro, podendo entretanto variar de 4 milímetros a até 2 metros. Possuem entre dezenas e centenas de tentáculos que circundam a cavidade oral. Nesta cavidade, está localizada a única abertura de acesso ao animal, comumente chamada de boca. É por ali que se alimentam, mas é também por onde expelem dejetos, água e gametas. Estes tentáculos possuem células especializadas, os cnidócitos, que ajudam na auto-defesa e na captura de presa. A presença desta célula especializada é, aliás, a característica principal que distingue os cnidários dos demais grupos.

Defesa tóxica

Dentro dos cnidócitos estão os nematocistos, organelas capazes de produzir, armazenar toxinas e lançá-las por via de uma estrutura bulbosa no lado externo da célula. Funcionam portanto como um mini-arpão engatilhado. A célula é bastante sensível e ao menor toque dispara a estrutura contendo as toxinas, injetando-as no agressor que as estimulou. O processo de lançamento e descarregamento do veneno leva alguns microssegundos. Quando a base dos cnidócitos efetivamente penetra no alvo (outro predador ou um potencial “alimento”), o efeito paralisante das toxinas é quase imediato. Com esse aparato de ataque, a anêmona se alimenta de pequenos peixes e camarões.

Para nós, a sensação ao tocar nos tentáculos de uma anêmona não passa de algo pegajoso, como velcro. Às vezes urticante, podendo causar dermatite, dependendo da espécie de anêmona. Mas, para os animais menores que são suas vítimas, a toxina é fatal.

O veneno é composto de um coquetel de toxinas, Dentre estas toxinas está a actinoporina, uma proteína que causa rompimento da membrana celular. A actinoporina é particularmente potente em peixes e crustáceos, as presas naturais das anêmonas. Neurotoxinas se encarregam de paralisar a presa nos tentáculos. Dali, ela é transferida à boca para digestão na cavidade gastrovascular, que funciona como um estômago. Como o sistema digestivo da anêmona é incompleto, qualquer dejeto não digerido é excretado pela mesma abertura bucal/anal pela qual o alimento entra.

A simbiose do peixe-palhaço com as anêmonas

Peixe-palhaço e anêmona

Peixes-palhaços (Amphiprion ocellaris) em sua anêmona. 

Existem certos peixes, no entanto, que são imunes às toxinas das anêmonas e vivem em uma relação simbiótica (com benefícios para ambos os organismos) por entre seus tentáculos. Tratam-se dos peixes-palhaço, da família das donzelinhas (Pomacentridae) agora famosos pelo personagem de desenho animado Nemo.

Os peixes-palhaço têm a pele protegida por um muco que lhes possibilita esconder-se dos predadores por entre os tentáculos das anêmonas, sem sofrer com o veneno da mesma. Em troca, o peixe-palhaço mantém a anêmona limpa, alimentando-se de pequenos invertebrados que poderiam ameaçá-la. Além disso, as fezes dos peixes-palhaço que ali residem contém nutrientes que são absorvidos pela anêmona. Das quase 1000 espécies descritas de anêmonas, apenas 10 hospedam os famosos peixes-palhaço.

O local mais biodiverso no planeta tanto para anêmonas quanto para peixes-palhaço é na região da Papua Nova Guiné – é para lá que você deve seguir caso queira se esbaldar nessa simbiose.

A simbiose invisível com as algas

Outro organismo simbionte que faz residência nos tecidos das anêmonas, é uma pequena alga unicelular, também presente no corais, a zooxantela. Esta interessante relação é importante para sobrevivência dos pólipos. As algas, afinal, lhes fornecem alimento orgânico advindo da fotossíntese, processo em que a energia solar é convertida na produção de carboidratos. Enquanto por outro lado, a anêmona permite o abrigo das algas longe dos predadores.

Por esse motivo, muitas espécies de anêmonas apenas sobrevivem em regiões ensolaradas e com águas cristalinas, onde a sobrevivência das zooxantelas é facilitada, o que acabou servindo como restrição para distribuição geográfica das próprias anêmonas. Zooxantelas também são responsáveis pelas cores vívidas que caracterizam as anêmonas: muitas vezes, as anêmonas esbranquiçadas são um sinal de que elas passaram por algum estresse e perderam as zooxantelas.

Outros habitantes

anêmona e camarão sem peixe-palhaço

Camarão-da-anêmona (Periclimenes brevicarpalis). Todo transparente, é difícil de ser visto.

Ao sabor da maré, os tentáculos das anêmonas formam um belo tapete colorido em muitos recifes de coral do mundo. Podem ser vistos nas mais diversas cores, texturas, tamanhos e formatos: aveludados, encaracolados, listrados, com bulbos nas pontas, em cores fluorescentes ou transparentes.

Muitos outros animais fazem delas morada. Certas espécies de camarões e caranguejos são comumente vistos em anêmonas, buscando a mesma proteção que o peixe-palhaço desfruta. Os tentáculos dificultam o ataque dos predadores. Além disso, a adaptação adquirida pelos crustáceos sortudos que ali passeiam vale cada gasto energético na luta pela vida.

Sésseis que se movimentam

Anêmonas no Horizonte

Outra espécie de anêmona-tubo, com cachinhos.

O sistema nervoso das anêmonas é bastante primitivo, sem organização central e sem órgãos sensoriais especializados. Na ausência de um esqueleto ou estrutura rígida, células contráteis na superfície da anêmona tensionam ou relaxam em relação à cavidade gastrovascular. Este mecanismo funciona como um suporte hidrostático para estabilizar e enrijecer a anêmona, além de contrair os tentáculos.

Apesar de geralmente serem sésseis, as anêmonas podem se locomover lentamente pelo substrato. Ou até se soltarem e nadarem com a ajuda de seus tentáculos, flexionando seu corpo. Esse movimento pode ocorrer quando as condições do local onde se encontram se tornam insustentáveis ou quando são atacadas por um predador.

Como as anêmonas se reproduzem?

O ciclo reprodutivo das anêmonas difere dos demais cnidários por não possuir um estágio livre-natante em forma de medusa. Na reprodução sexuada, o pólipo da anêmona macho libera esperma que estimula as anêmonas fêmeas a soltarem os óvulos. O óvulo fertilizado forma uma estrutura embriônica chamada plânula, que por sua vez se desenvolve rapidamente em um novo pólipo. Embora em algumas espécies haja macho e fêmea, outras são hermafroditas, onde o mesmo pólipo produz óvulos e esperma.

Algumas espécies de anêmona ainda se reproduzem de forma assexuada, por fissão, quando o pólipo se separa em duas metades. Outra forma de reprodução assexuada é por fragmentação do pé, que depois se regenera em um novo local formando pequenas anêmonas. Estimativas apontam que a longevidade das anêmonas pode chegar a 300 anos.

Existem anêmonas no Brasil?

No Brasil, anêmonas são encontradas em vários ambientes marinhos, de costões rochosos a manguezais por toda a costa, e em ilhas oceânicas, As espécies que se associam ao peixe-palhaço não occorrem nesta região do planeta, limitando-se aos Oceanos Índico e Pacífico. No entanto, relatos de espécies de anêmonas advindas de outros oceanos e introduzidas em águas brasileiras não são incomuns. Este problema ocorre principalmente próximo a áreas de grandes portos, onde navios frequentemente descarregam água de lastro contendo larvas e microorganismos marinhos.



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