Tulum: uma praia de drift?

por: Lucia Malla América Latina, Geociências, México, Oceanos, Viagens

Quando chegamos em Tulum, a famosa cidade das ruínas maias mexicanas à beira-mar, nossa primeira providência foi checar a praia para ter uma noção do quão perto das ruínas poderíamos chegar dali, da praia mesmo. (A distância é razoável, mas não tira nem um pouco do encantamento de tomar banho de mar com aquela preciosidade arqueológica ali no cantinho do olho.)

Entretanto, foi outra aparição que também me intrigou: a quantidade de lixo de drift na areia, pertinho da arrebentação. Sabe aquelas algas todas da foto abaixo? Estavam enoveladas com diversos pedaços deteriorados de lixo: escovas de dente, copos plásticos, etc. Resquícios da nossa vivência urbana, tudo meio deteriorado, indicando que estavam no mar vagando há algum tempo.

O acúmulo deles na areia da praia parecia também indicar que Tulum, apesar do seu “isolamento” relaxante, é um cantinho propício para que as correntes depositem toda aquela lixaiada de drift regurgitada para a terra – lixo que provavelmente estava à deriva em algum ponto do oceano mais distante…

Fui olhar o mapa dos 5 grandes giros de lixo plástico dos oceanos do planeta, para tentar satisfazer minha curiosidade e tentar entender o que acontecia. Não há um giro/vórtex maior que de alguma forma “englobe” a região da Península de Yucatán, o mais próximo sendo o do Atlântico Norte, mas que está mais pro norte. Cuba e outras ilhas meio que “protegem” Yucatán de receberem os restos do giro do Atlântico Norte. Será que haveria próximo a Tulum um mini-giro? Isto poderia facilitar o depósito dos restos de lixo em praias “pelo caminho”.

Mas o mais provável é que, como Tulum está próxima ao estreito de Yucatan que afunila as correntes do sul que sobem em direção ao Golfo do México (ver mapa abaixo), pode ser que esse “afunilamento” aumente o acúmulo de diversos drifts numa só área. Mas nesse caso, por que outras praias entre Cancun e Tulum não recebem tanto lixo também?

(Mapa tirado daqui.)

Acho que a explicação mais simples seria a localização. A orientação em que a praia está voltada pro mar, em relação ao resto da península, por exemplo, pode fazê-la servir de pequena barreira natural para estas correntes do sul – e aí tudo que bate ali, vai ficando. Repare no mapa abaixo. As correntes do sul vêm, “esbarram” em Tulum na “quina” da costa e sobem em direção a Cozumel e Cancun – nessa “esbarrada”, um pouco do lixo que viajou junto com as correntes fica por ali.

(Mapa tirado do Google Maps.)

Há praias que, por mais que estejam em locais aparentemente mais “sujos” (pela urbanidade), nunca recebem lixo de drift – a Praia da Costa em Vila Velha é um exemplo desses que me vem à cabeça agora, exatamente por causa de sua orientação, com as principais correntes passando ao largo da costa em si. Por outro lado, há locais super-remotos do planeta cujas praias, quando você olha de perto, são puro plástico, que vai se acumulando devido ao sentido das correntes que se espiralizam por perto. Exemplo? Kamilo Beach, aqui no Havaí. Tulum pode ser uma dessas praias “azaradas” (e que “azar” com aquele marzão delicioso…), mais vazias mas que ainda assim recebem a influência negativa do nosso consumismo exagerado nas suas areias.

Vale a visita? Claro que vale, a praia ainda é isolada e a ruína maia ainda te faz sentir num sonho, o mar é LINDO, de um azul inacreditável, água clara, quentinha. Eu amei demais Tulum e voltaria sem pensar muito. Mas a visita valeu também pela reflexão realista que o lixo na areia, vindo de pontos muito distantes dali, não esconde: não estamos imunes ao nosso próprio lixo, como a maioria pensa. Depois de jogado na lixeira das nossas casas, ele bem pode reaparecer e nos dar tchauzinho de novo, remoído pelo balanço das ondas, cansado de viajar muitos quilômetros (como nós…), num ponto remoto das nossas próximas férias.

Tudo de mar sempre.



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