Um gostinho do Museu Nacional de História Natural

por: Lucia Malla Amigos de viagem, Animais, Ciência, Corais, Educação, EUA, Viagens

Eu sei, Washington DC é a capital americana, terra da diplomacia, do lobby e das decisões obtusas que mudam o mundo. Mas, desde que eu me entendo por bióloga, pouco me importava que a política americana ali estivesse concentrada. Porque para mim, DC tinha outro atrativo muito maior e mais importante: o National Museum of Natural History (NMNH) – ou Museu Nacional de História Natural.

Parte do complexo de 20 museus chamado Smithsonian [suspiro alto…], a visita ao Museu de História Natural em DC sempre fez parte dos meus sonhos mais profundos de bióloga. Ainda na faculdade, durante as aulas de zoologia em que aprendíamos como taxidermizar, lembro do professor comentando sobre a qualidade da taxidermia nos museus americanos, especialmente o Smithsonian. Ali, naquelas aulas, começava a brotar a vontade de um dia ver de perto tal técnica executada em primazia.

Eis que então semana retrasada estive em Washington DC na maior correria, apenas 4 dias na capital, para um congresso. Pior: planejando a viagem, percebi que mal sobrava tempo para o Smithsonian – que requer muitos dias para uma contemplação adequada. O desapontamento bateu à porta.

Mas eis que a Claudia, sabendo da minha ida a DC, me convida, junto com o MauOscar, para uma feijoada brasileira, logo no sábado da minha chegada. Feijoada, como todos sabem, é meu prato predileto de todos os tempos; ou seja, convite irrecusável. Combinamos então de que  a dupla  MauOscar passaria para me pegar no hotel Hilton Garden Inn em Bethesda e iríamos juntos para a tal feijoada.

Tudo certo, feijoada maravilhosa, bebi guaraná à beça (felicidade!!), papos ótimos com a galera (mini-ConVnVenção DC! yeah!!), e chega a hora de ir embora. O que acontece? Os fofos MauOscar me oferecem um passeio pelo Tidal Basin, para ver as cerejeiras floridas. Que estavam lindíssimas, mesmo com o tempo nublado (fotos em outro post em breve). Mas… “o Tidal Basin é tão perto do Museu de História Natural, né? [abre o google maps imediatamente] Se temos tempo para visitar um só museu, por que não ele…?”

Parece que eles ouviram meus pensamentos. Porque foi a sugestão do Oscar, depois de visitarmos a Casa Branca. Então eu respirei fundo e me preparei para realizar mais este sonho.

Infelizmente, não tínhamos muito tempo. Então foi realmente uma visita só pra dar o gostinho – precisarei voltar a DC um dia e passar o dia inteiro andando por aqueles corredores como o museu merece. #ohqueproblema!

Com pouco tempo, foco é a lei. Logo que a gente entra no Museu, é recepcionado por um elefante de tromba levantada, como se estivesse na África. A taxidermia é perfeita, e minha mente viajou imediatamente de volta às aulas de zoologia, ouvindo a voz do professor elogiando a técnica taxidermista deles. Meus olhos ali, ao vivo e a cores, apenas confirmavam o elogio. Mais: há arte na forma como a técnica é apresentada no Museu.

Os animais estão todos em posição “o mais natural possível”. A girafa está agachada bebendo água, com as pernas abertas; os felinos estão ou caçando ou já com sua presa por perto; os macacos parecem uma fotografia real tirada na floresta, de tão perfeitamente empalhados. Um cuidado especial com os olhos em todos os animais, que têm expressões impressionantes e paradoxais – de vida.

A primeira sala que “decidimos” (entenda-se: saí correndo feito criança pra ver) visitar foi o Hall dos Oceanos, claro.

Ali, num ambiente todo azulado, com águas-vivas gigantes penduradas no teto, foi difícil segurar a emoção.

Afinal, olha quem achamos num canto:

Um celacanto! E com um filhote!

Eu já havia visto um celacanto antes, no Aquário do COEX Mall em Seul (foto aqui). Mas o de Seul estava empalhado, taxidermizado, e com os olhos bem mal-feitinhos – o que tira boa parte da “veracidade” do bicho em exposição. Mas ali, no NMNH, o animal não estava empalhado: estava em propanol, ou seja, era o celacanto de verdade na minha frente! (Esta dupla de celacantos não faz parte da coleção do NMNH, e estava ali em exposição emprestada do Instituto Sul-Africano de Biodiversidade Aquática, que os coletou em 1980, em Comoros.) Uma emoção incrível, meu olho marejou e se eu tivesse tempo, teria ficado ali horas, olhando cada detalhe daquelas nadadeiras únicas. Lindo.

Mas seguimos em frente. E chegamos na parte… dos recifes de corais. [suspiro de paixão] A surpresa foi enorme, porque havia uma sala inteira só com réplicas de recife de coral… feitas de tricô e crochê!

Este de cima estava atrás do vidro, por causa do material usado além do crochê. Mas tinha um recife enorme totalmente exposto. Uma riqueza de detalhes e cores impressionante.

(e eu, que sou uma negação completa para artes manuais, só fiquei imaginando a trabalheira artesanal pra fazer cada nudibrânquio, cada esponja, cada anêmona, cada estrela do mar… uma arte, sem dúvida.)

Mais: você dava a volta no “recife” e via uma área detonada, com linhas de pesca e lixo, e com o coral esbranquiçado, representando um pouco das maiores ameaças à saúde deste ecossistema que existem hoje. Ao redor, em pequenos painéis, explicações bacanas pra educação do público, principalmente das crianças, que adoram aquela “montanha” colorida.

T-u-d-o em crochê. Não é incrível demais?

Eu sou malla, mas também nem tanto. Percebi que os meninos estavam ficando cansados da minha obsessão animação marinha, então aceitei a sugestão de continuarmos andando. Fomos parar na sala de gemas e pedras preciosas, muitas delas expostas já lapidadas como jóias, para fazer a cabeça do lado Audrey Hepburn de cada uma de nós.

Curti muito que o museu expõe as rochas radioativas, atrás de um vidro (que provavelmente tem uma lâmina de chumbo). As cores dos elementos radioativos são vibrantes, e elas estarem ali pode ajudar um pouco (que seja…) a educar sobre radioatividade. E claro, adorei ver todos os selenitos, selenatos e derivados de selênio. 😀

Por fim, o cansaço e a fome bateram. Dei tchau pro Museu (mais especificamente, no dinheiro de pedra de Yap que eles expõem no hall central, última peça que vi). MauOscar me levaram para o Neisha, um restaurante de comida tailandesa deliciosa, já a caminho de Bethesda. Para brindar e fechar com chave de ouro a realização de mais um sonho para minhas retinas que nunca se fatigam das belezas da vida pelo mundo.

Obrigada, amigos, pela tarde excelente!

Tudo de bom sempre.

Um gostinho do Museu Nacional de História Natural

*Na entrada do Ocean Hall, esse painel convidando ao mergulho. #morri

**Aos curiosos: o MauOscar contou de maneira muito mais ponderada (= menos viajante na maionese) a mini-ConVnVenção de DC no blog dele.



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