A ciência do improviso genial de Pat Metheny

por: Lucia Malla Amigos de viagem, Ciência, EUA, Música

Tudo começou com uma conversa no twitter. O Marcos VP postou que estava ouvindo “Zero Tolerance for Silence”, um disco beeeeem experimental e dos meus prediletos do Pat Metheny. Por conta de uma confusão na data de lançamento do disco – o Marcos achava que era recente e eu sabia que já tinha o disco quando estava na faculdade, ou seja, na década de 90 – terminei indo parar no site oficial do Pat Metheny.

E qual não foi minha surpresa quando no site havia um convite para assisti-lo participando do World Science Festival em Nova Iorque? Mais: o evento aconteceria justo no fim de semana em que eu estava em Boston, pro congresso de Endocrinologia!

Nem precisei pensar muito. Logo percebi que daria para sair de Boston de tarde, chegar pro show à noite e voltar no trem da madrugada para Boston, num bate-volta nostálgico das maluquices viajantes que eu fazia sozinha quando morava em Boston e ia passar fim de semana nas mais diversas cidades da costa leste que tivessem acesso por trem.

Foi a serendipidade que eu precisava para animar minha viagem.

Sábado era um dia meio “morto” no congresso para mim, e meus amigos de laboratório iam para a “Festa da Tiróide”. Então que depois de uma semana de trabalho intenso no lab em Boston, para meio que “celebrar” um bom resultado, eu me vi a caminho de NY em plena tarde de sábado. Já havia combinado com a Andréa que iríamos juntas ao show, então combinamos de nos encontrar no Starbucks perto do The Great Hall do Cooper Union, onde o show aconteceria.

A chegada em NY já é um espetáculo à parte. Desembarquei na Penn Station com o deslumbramento e a empolgação de sempre, e segui os acordes de uma bandinha de jazz-fusão que tocava na frente do McDonald’s. Fiquei ali ouvindo umas músicas enquanto me beliscava que, sim!, eu estava em NY para ver meu ídolo Pat Metheny falar sobre ciência!! Era demais pro meu cérebro assimilar, admito.

Cooper Union, prédio interessante em frente ao The Great Hall em NY.

Segui para o Starbucks. Uma delícia rever a Andréa! Apesar de ambas termos comprado o ingresso com antecedência, não havia cadeira marcada, então assim que chegamos no local faltando mais de 1h pro início, nos prostramos na fila – éramos as 2as, o que nos garantia no mínimo um bom lugar no auditório.

A Andréa encontrou uma amiga dela de trabalho, conversamos bastante e aí eles abriram as portas do teatro. Houve uma certa confusão para entrar (como sempre acontece quando vou a shows do Pat, aliás… mas isso é papo pra outro post), e a Andréa e eu terminamos indo parar numa porta que abriu antes das demais – e com isso tivemos acesso ao auditório antes do evento começar, quando Pat Metheny e os demais membros do painel ainda estavam ensaiando! De cara, escolhemos o melhor posicionamento que não tinha “reservado” na cadeira e… colamos ali (vulgo “daqui não saio, daqui ninguém me tira”).

Pré-show, ajustes finais.

O ensaio acabou, todos se retiraram. Últimos ajustes de luz e som, abriram as portas para o público, e poucos minutos de espera depois, o evento começou.

A 1a a falar foi a responsável pelo World Science Festival, evento espetacular de divulgação da ciência que acontece anualmente em NY. Depois o moderador John Schaefer introduziu os membros do painel e Pat Metheny tocou uma música em homenagem a James Taylor, acompanhado do baixista Larry Grenadier. Sua apresentação perfeita cheia de improvisos foi o botão de start para a discussão que dominou a noite: a neurociência do improviso.

No painel chamado Music and the Spark of Spontaneity” que discutiu o tema, estavam, além de Pat, o professor de Psicologia, Música e Neurociência Jamshed Bharucha, da Universidade Tufts; o professor Charles Limb, do departamento de Otorrinolaringologia do Hospital Johns Hopkins e professor do Conservatório Peabody de Música, que estuda neurociência do improviso no jazz e no freestyle rap; o médico neurologista do Mass General Hospital e PhD em Música pela Harvard Aaron Berkowitz, que além de estudioso da neurociência do improviso, é também pianista; e Gary Marcus, professor de Psicologia que estuda as origens e evolução da linguagem – e como a música é uma linguagem.

Como podem perceber, o painel era fantástico – para não dizer f@*%#ástico, excuse my french.

A discussão obviamente começa com todos os pesquisadores fazendo a pergunta clássica para Pat Metheny: como ele “pensa” enquanto improvisa? Em que ele foca? Em que ele desfoca? O que ele sente? E daí começou o que para mim foi a parte mais inesquecível do evento inteiro: Pat Metheny fala. Com uma eloquência, calma e contundência inacreditáveis. E sorri muito, como bom otimista que é. \o/

(Parênteses: para quem não sabe, Pat é um tímido chavão no palco, e em seus shows raramente troca mais de 2 frases com a platéia. Este foi o 6º show dele que fui na vida, e combinando todos, devo ter ouvido a voz dele no máximo 5 vezes. O painel de discussão foi uma raríssima – e maravilhosa – oportunidade de ouvir Pat Metheny… falando. Sobre seu processo de composição. Sobre como encara os shows. Sobre como se relaciona com os demais músicos. Sobre a maneira como reforça e reinventa sua música própria – que ele diz ser apenas uma só, tocada over and over and over com pequenas modificações. E como é uma pessoa de cabeça tranquila, muito inteligente, que ironiza na hora certa e instrospecta na hora mais certa ainda. E não estava de camisa listrada, outro chavão seu quebrado. Enfim, foi simplesmente DEMAIS.)

Mas se você está lendo meu relato de fã até aqui, pode ter a errônea impressão que Pat “dominou” o painel. Ledo engano, meu caro. Os cientistas foram as estrelas da casa – Pat realmente apenas complementou tocando (e que complemento!). No início, chegou-se a um consenso de que certas áreas cerebrais precisam ser “desligadas” para que haja foco e concentração suficiente para inserir tanta informação num improviso de guitarra. Diferente de “ativar” áreas do cérebro, quando você improvisa, você inibe certas áreas, e a circuitaria cerebral converge para um foco de ação – este sim, que se ativa mais. Pat ilustrou com o fato de que, quando está no palco tocando, se sente “desligado do mundo”, como se estivesse tocando apenas para ele mesmo.

A informação que se adiciona num improviso de jazz, obviamente, não é adquirida da noite pro dia. Pode até ter um componente forte do momento, mas em geral ela reflete a sua história cerebral, além da história do momento. Há um componente de técnica que também precisa ser trespassado, e nesse ínterim, música é uma grande linguagem, em que o aprendizado de mais e mais “palavras” (no caso, acordes e melodias) entra na estruturação de um discurso conscientemente, e que a prática torna inconsciente. Como falar, por exemplo – nas palavras do próprio Pat, “ninguém pensa “será que eu devo colocar um verbo agora nessa frase? ao ser perguntado qualquer coisa. Você simplesmente responde.”. Mas claro, há outros limites do consciente treinado, como bem foi colocado por alguém da platéia depois do show:

“I don’t know, they said learning an instrument is like learning a second language, but I speak four languages and wasn’t even able to play the recorder.”

Mas esta linguagem musical, assim como as diferentes línguas que temos no planeta, também não é necessariamente universal. Há nuances e diferenças que funcionariam como sotaques, dialetos e até línguas diferentes – basta perceber o que pessoas de diferentes culturas consideram “boa” música e você já terá uma idéia geralzona da complexidade do tema. 

Ao mesmo tempo, Pat Metheny sugeriu que jazz seria o mais próximo que chegamos à universalidade musical, dado seu leque de possibilidades e variações. Como no jazz há espaço para todo tipo de som e o quanto isso nos é familiar – ao mesmo tempo que nos atraímos pela inovação sutil. Para demonstrar isso, ele tocou “Autumn leaves” com apenas um dedo, para mostrar o quão simples o jazz pode ser – e o quanto as inovações, mesmo com um dedo, podem ser facilmente assimiladas.

Pat dando seu show à parte enquanto conversa com a galera sobre seu processo criativo.

(Aos interessados em neurociência musical e/ou Pat Metheny: tentei gravar algumas partes da apresentação com minha máquina fotográfica, mas sou uma péssima videógrafa, de modo que dá vergonha até para upload no youtube. Caso queiram ver os mini-vídeos, me contactem que envio sem problemas. Ficam minhas desculpas antecipadas pela tosqueirice da gravação.)

Discutiu-se também um pouco da evolução da linguagem musical, as diferenças e semelhanças com a linguagem comum, mas o quanto elas são acima de tudo, formas de comunicação. Aaron Berkowitz apresentou uma tabela bastante didática sobre o tema, e o quão integrada a linguagem musical está para a comunicação em termos cerebrais. Durante a discussão linguística, veio a parte mais engraçada. O Dr. Charles Limb mostrou um vídeo de seus experimentos em espontaneidade e criatividade, em que analisa músicos compondo jazz e freestyle rap numa máquina de ressonância magnética funcional, capaz de detectar as diversas áreas ativadas/inativadas do cérebro – basicamente há uma diferença de ativação no córtex pré-frontal quando se improvisa, e há diferenças da circuitaria neuronal entre improviso musical e improviso rapper, que requer palavras. Seu trabalho liga isso tudo às questões de criatividade e inovação, principalmente. Super-cool. (Para saber mais, seu artigo publicado no PLoS ONE.)

Meio que reforçando a idéia de que qualquer um improvisa musicalmente Gary Marcus mostrou seu app para iPhone 3 in 1 Improviser, que permite que qualquer pessoa improvise sobre a escala que quiser musicalmente. Eu instalei (era gratuito na semana do show) e achei um barato.

Maaas, fala-se em “qualquer um improvisa” e rapidamente caímos na antítese, numa clara movimentação científica. Pat Metheny tirou da cartola mais um de seus paradoxais desafios, mostrando que, well, todo mundo improvisa, mas o cérebro muscialmente “preparado” vai além. Com diversos instrumentos analógicos feitos dos objetos mais inesperados conectados para fazer sons os mais variados possíveis, Pat Metheny mostrou sua “banda de um homem só”, do disco “Orchestrion” de 2010 – dá pra ter uma singela idéia do quão viagem na maionese experimental esse projeto foi neste link. Hermeto imediatamente me veio à cabeça.

O evento terminou com mais música e mais colocações neurocientíficas musicais. O que mais se comentou foi da falsa dicotomia arte/ciência, o quanto na realidade são apenas diferentes perspectivas de um mesmo “problema” – ou melhor, de uma mesma solução comunicativa. A ciência tende a ser reducionista (o experimento precisa ser dissecado em suas variáveis para que possamos chegar a uma conclusão mais robusta) enquanto a arte é mais ampla, menos específica mas não menos robusta em comunicar.

Eu terminei o show em estado de choque emocional, em lágrimas. Não era pra menos. Ouvi meu ídolo musical máximo falando sobre ciência e arte, dois tópicos que eu amo de paixão, num auditório em Nova Iorque, uma das minhas cidades favoritas do mundo. Desses momentos que só acontecem uma vez na vida – e que privilégio por estar lá e aproveitar cada segundo, cada acorde, cada tabela e cada sorriso.

Tudo de música sempre.

***********

Para viajar mais neuromusicalmente:

– O Dr. Charles Limb apresentou uma palestra no TED em que conta sobre seus estudos de MRI funcional em jazzistas e rappers. O vídeo está aí abaixo:


– Zach Powers, o science rapper, também falou sobre o show – de maneira beeeeem mais comedida que a fã tresloucada aqui, devo dizer.

– O NYTimes fez uma ótima reportagem sobre o evento com Pat Metheny. Aos apaixonados por jazz, neurociência e afins (?!?!), vale a leitura com afinco. Que tem uma frase dita por Charles Limb que eu achei excelente:

“I don’t think in any way that music needs science, but music is a tool by which we can understand the brain and the science of music really teaches us something fundamental about who we are, why we’re here.”

que termina com a frase do Pat Metheny que sintetiza muito da “ciência” do jazz:

“Lately,” Mr. Metheny said, “I’ve been thinking about jazz not so much as a destination but as a process, but even more than that as a symptom.”

– A Andréa gravou o áudio do show praticamente todo. E me enviou. Mas não consegui trabalhar o suficiente para ficar “audível” aqui no blog, porque o som geral está bem baixo no meu computador e não sei como aumentá-lo sem perder as características do ambiente de lá. Se algum master do áudio souber como melhorar para publicação… Aceito ajudas de bom grado. 🙂

*************

– Complemento também que depois do show, fomos eu e Andréa, em estado de êxtase completo, para a casa dela, onde seu marido R. fez uma pizza vegana d-e-l-i-c-i-o-s-a para mim, de cogumelos, manjericão, tomate e queijo vegano. Tenho diversas ponderações sobre a dieta vegana que não vêm ao caso aqui (papo que fica pra um próximo post…), mas preciso dizer que aquela pizza ganhou meu estômago de verdade. Fora Clementine, a cadela fofa da Andréa, que me fez sentir saudade dos cachorros de Sampa… E fora o carinho e os papos ótimos, cheios de saudade, com minha amiga… Ah! Foram muitas emoções para um dia só! Um bate-volta perfeito to the city that never sleeps. Valeu Andréa! Valeu R.! Tudo de melhor sempre para vocês!

– Post dedicado ao Marcos VP. Pela serendipidade vencedora. Valeu, camarada!



147
×Fechar