Mais um dilema ético na pesquisa do HIV

por: Lucia Malla Biomédicas, Ciência, Molléculas da vida

A conversa começou no twitter (como sempre…) depois que eu retwittei uma reportagem do Washington Post que comentava sobre dois estudos apresentados anteontem que falavam sobre os efeitos terapêuticos preventivos dos remédios utilizados para tratar pessoas com HIV. As drogas em questão fazem parte do coquetel anti-HIV e são especificamente inibidores de transcriptase reversa, a enzima-chave para a sobrevivência e multiplicação dos retrovírus (como o HIV).

Ao ler a reportagem (que saiu também no Estadão numa vibe muito menos comedida que a do Washington Post – ah, a mídia brasileira…), de cara me lembrei do lab ao lado de onde trabalho, que estuda o efeito dos medicamentos anti-HIV na mitocôndria, a organela fundamental para geração de energia e respiração das células do nosso corpo. E lembrei de um estudo que foi publicado recentemente na Nature Genetics, que mostrou que há uma aceleração do envelhecimento celular causado pelo uso destes medicamentos (e há inúmeras discussões no campo sobre o tema).

Embora o estudo da Nature Genetics tenha sido feito com drogas da geração anterior (tipo AZT), que não são mais tão utilizadas nos países mais “abastados”, elas ainda são a base de tratamento nos países onde a epidemia ainda cresce a passos largos, como na África. Mais: ainda estão na mesma categoria de drogas testadas preventivamente, os inibidores de transcriptase reversa. Portanto, ainda é bastante relevante estudá-las e entender processos metabólicos e celulares que estejam prejudicados pelo seu uso a longo prazo, em minha opinião.

Enfim, mas, ao conectar os 2 pontinhos (remédios anti-HIV para prevenção, e aceleração do envelhecimento celular), o que mais me pipocou na cabeça foi a questão ética. Que é basicamente a seguinte:

– uma pessoa sem HIV, sem doenças metabólicas, saudável, que tivesse a escolha entre tomar um remédio que: a) evitaria, mesmo que parcialmente, que ela se infectasse com o HIV; MAS b) aceleraria o envelhecimento das suas células o que obviamente pode acarretar diversas outras doenças, como síndromes metabólicas; qual seria sua escolha?

É um dilema ético complicado para uma pessoa, que precisa racionalizar num nível muito complexo de risco. Mas também é um dilema ético mais complicado ainda para os médicos que prescreverão tratamentos, porque é no final das contas para eles que a decisão será “jogada” feito batata quente.

Claro, o bom senso e a ponderação já estão na resposta do próprio diretor do CDC, que financiou a pesquisa:

“It is important that we take time to think how PrEP [Pre-exposure prophylaxis] will be used in the real world; PrEP is not for everyone, and it will not solve the epidemic.”

E claro que o Estadão preferiu apelar para uma fala mais salvadora da pátria e citou o representante para o Programa de anti-HIV da ONU que disse:

“estes estudos poderão nos ajudar a alcançar a ‘hora da virada’ na epidemia de HIV.”

O que pode até ser uma boa esperança a se alimentar. Mas ainda tem muita água pra correr debaixo desta ponte antes de fazer alarde. E principalmente, muita pesquisa de efeitos colaterais a longo-prazo em pessoas saudáveis para responder a um rol enorme – and counting – de perguntas.

E coloquem mais uma variável nesta equação ética: o componente econômico-social. A coleta de dados da pesquisa foi feita em Botsuana, Uganda e Quênia, todos na África, continente onde o risco de contaminação é maior, e onde provavelmente estas drogas serão utilizadas para prevenção. Onde educação e assistência médica de qualidade ainda são itens de luxo. Será que as pessoas saudáveis que tomarão os remédios como prevenção serão informadas de todos os riscos? Será que entenderão? Mas… e se não derem os remédios como preventivos? Tendo conhecimento agora de que eles “funcionam” parcialmente para evitar a infecção, é eticamente aceito você, médico, deixar uma pessoa se contaminar? E você, governo, não querer oferecê-lo pra sua população (pelo menos para os grupos de maior risco)?

Como podem ver, vem aí um dilema de saúde dos mais cabeludos para lidarmos nos próximos anos…

Fica a questão pra caixa de comentários.

Tudo de bom sempre.

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P.S.: Eu gostaria muito de ouvir a opinião do Átila, que pesquisa HIV, sobre o tema.



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